EDITORIAL

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De repente, o sobressalto da multiplicação dos casos de Covid-19 abateu-se sobre o Faial. Num ápice atingimos números de contágio que, neste ano de pandemia, ainda não tínhamos conhecido, fruto de uma cadeia de transmissão local que se alastrou rapidamente.
Ainda não há muito tempo, aqui no Faial, exigia-se às autoridades regionais – e bem! – que era necessário controlar a movimentação dos passageiros entre as ilhas com maior contágio e aquelas que poucos ou nenhuns casos possuíam. Isso foi feito. E tudo parecia estar bem…
Talvez por isso, apoderou-se de muitos de nós um enganador sentimento de segurança. Eram já muito visíveis, em vários locais, sinais de relaxamento das medidas de uso da máscara e do distanciamento social, desrespeitados sob a desculpa do convívio que se usufruía um pouco por vários espaços privados e públicos. Exigíamos que se controlasse o contágio exterior, mas não fomos igualmente diligentes e cuidadosos no nosso comportamento individual. O resultado está aí, bem visível: num repente, passámos de concelho de baixo risco, para médio risco.
Quando, repetidamente, as autoridades de saúde insistem connosco sobre a importância dos comportamentos de cada um é exatamente para que, como comunidade, não acabemos por ser vítimas da inconsciência ou do desleixo negligente de outrem. E de nada vale reclamarmos o que quer que seja das autoridades se cada um de nós não assumir em pleno a sua responsabilidade individual. O que está a acontecer no Faial é disso exemplo. Oxalá tenhamos todos aprendido bem a lição!
Por outro lado, a verdade é que ninguém está livre de ser contagiado. Também por isso, como comunidade, temos muito a melhorar na forma como lidamos com quem, para além de ser vítima de contágio, é, tantas vezes, vítima de juízos infundados e discriminatórios.
E se no Faial os números estão no amarelo, em Portugal Continental a situação está a tornar-se alarmante: aquilo a que em março e abril passado assistíamos, horrorizados, em Itália, está quase a acontecer em Portugal. E quando o nosso sistema de saúde entra em rutura para salvar vidas (aliás, é essa a sua missão primeira!), quando as ambulâncias fazem fila fora dos hospitais, quando o pessoal de saúde se confessa exausto e quase em desespero, quando cresce a cada dia o número das vítimas de Covid e quando se pede para olhar também para todos os doentes não Covid que estão a perecer por falta de atendimento atempado, quando tudo isso acontece em Portugal, a Assembleia da República e a maioria dos seus deputados dá o pior e mais desajustado sinal de incompreensão e insensibilidade do tempo presente ao aprovar a Lei da Eutanásia.
Aprovar a “despenalização da morte medicamente assistida” em tempos de normalidade, sem que a maioria dos partidos tenha inscrito nas suas propostas eleitorais esse tema ou sequer o tenha colocado à discussão na campanha eleitoral, já é suficientemente censurável. Mas aprová-la neste contexto é uma indignidade: quando todos em Portugal se estão a mobilizar para salvar vidas no meio de uma terrível pandemia, quando todos aceitamos prescindir de direitos e liberdades, quando arrasamos a vida económica de empresas e do país, tudo isso para salvar vidas, a Assembleia da República resolve aprovar a lei que autoriza a eutanásia e o suicídio assistido!
Incompreensível!

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