Em memória de D. Maria Simas – embaixadora da boa-vontade

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TI

Não me foi possível estar presente na sessão de homenagem à D. Maria Simas, por razões profissionais. Por esse motivo, decidi expressar neste espaço a minha gratidão ao universo por me ter permitido conhecer a mulher, a semeadora de palavras amáveis, a apaziguadora de conflitos, a professora (já aposentada), que acompanhou de perto a formação dos netos, com convicções profundas sobre Educação e uma consciência social crítica, solidamente construída na relação de proximidade amorosa com as crianças mais frágeis, mitigando as situações decorrentes da pobreza e da injustiça.
Recordo as conversas que alguma vezes tivemos, porque nelas emergia toda a sua força anímica. As memórias da professora que exerceu a docência num período histórico repressivo – longa caminhada de uma consciência serena, cuja humanidade fluía como água, enriquecendo os solos por onde passava. Deixando sementes nas margens. A insubmissão sofrida e lúcida de quem recusou ser mulher-vítima e tomou nas mãos as rédeas da sua própria vida, enfrentando os preconceitos sociais num tempo em que as mulheres eram juridicamente inexistentes, presumidas sob a posição política e social do marido. Mas existindo sempre como mulher extraordinária, como mãe, como professora cientificamente exigente, mas sensível à singularidade e dignidade do outro. Muitas vezes falámos dos obstáculos que impediram tantas mulheres da sua geração da plena inserção na vida social, profissional, política e económica. Basta pensar que ainda nos dias de hoje, o ser mulher e mãe que cria filhos sozinha comporta, quantas vezes, discriminação.
O “Duque” era também um tema recorrente de conversas porque o felino teimava em deambular pelos telhados das casas vizinhas e a sua estratégia era rastejar, perseguir pardais, caçar morcegos e desviar as telhas. Muitas vezes trazia para casa os seus troféus de caça: um morcego ou um pardal incauto que lhe caia nos dentes. Mas o “Duque” tinha uma particular aptidão em abrir portas e tirar as tampas das panelas. E foi assim que um dia entrou pela janela da cozinha da D. Maria Simas e levantou a tampa do tacho, que caiu no chão e fez, naturalmente, ruído. O bichano ainda foi visto a fugir…A D. Maria Simas narrava as peripécias do “Duque” com bonomia, intercedendo, tantas vezes, junto dos outros vizinhos que eram muito menos tolerantes às incursões do bicho.
Nos últimos anos cruzámo-nos menos vezes. Mas o encontro casual, aos sábados de manhã, na Padaria Popular, era sempre um pretexto para falar de Educação, dos obstáculos e problemas que se continuam a fazer sentir na escola. Tenho presente a sua última imagem, já estava muito doente. Parei o carro na Rua Conselheiro Medeiros, apertámos as mãos…

E assim permanece…

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