Reflexões Crónicas – A Ilha do Corvo que venceu os piratas

0
23
TI
TI

A Ilha do Corvo que venceu os piratas – o título remete-nos para a memória coectiva e para o imaginário popular. O Corvo é conhecido pela colaboração que teve com corsários e piratas, mas um dos episódios mais conhecidos é precisamente o da “Grande e Maravilhosa Vitória contra dez naus de turcos”, ocorrida em 1623. Este “milagroso” acontecimento, imortalizado num testemunho escrito que seria depois dado à estampa em Lisboa, sobreviveu também na tradição oral corvina, tenda na obra agora publicada uma nova leitura, feita à luz da investigação e contada à pena do artista.
Quem conhece a obra de José Ruy identifica de imediato a sua arte neste livro. Quando questionado sobre o porquê de manter o mesmo estilo e se tinha intenção de explorar outros, respondeu que não controlava o que criava, pois as criações vêm ao seu encontro. Assim se conhece o verdadeiro artista, que não procura a arte, antes espera que ela o encontre. Mas nem só de inspiração se faz A Ilha do Corvo, houve muito trabalho de investigação, apoiado por consultores científicos de várias áreas, que garantiram uma narrativa e um cenário o mais próximos possível do que seria o século XVII.
Por isso este livro é muito mais que a história da ilha que venceu os piratas, é a História de um povo, da sua força e da sua luta para sobreviver ao isolamento. É também um retrato histórico e etnográfico, onde tanto podemos encontrar os termos pitorescos do falar corvino, como representações da cultura material de outrora ou relatos das crenças e práticas da sua espiritualidade.
Ler este livro é por isso mergulhar na História. E o seu estilo – a banda desenhada –, que nos faz seguir visualmente a narrativa, permite-nos perceber que o passado é realmente muito mais diferente (e simultaneamente tão próximo) da nossa realidade e, por isso, da construção que muitas vezes fazemos dele. Podemos ver as casas de pedra cobertas de palha (pequenas e construídas pela população, os “vizinhos”, que se uniam em auxílio de quem precisava), as roupas simples (os pés descalços), o trabalho árduo para pagar a renda ao senhor da ilha, as dificuldades passadas, tudo tão diferente do Corvo e do mundo de hoje; mas vemos também a resistência, o amor (e os amores), a luta pela autonomia, a fuga, a distância, a saudade, tudo tão intemporal e tão igual a todos os tempos.
Mais que a arte ou a preocupação com o rigor dos conteúdos, talvez o mais extraordinário nesta obra seja a forma como foi construída. O primeiro momento de trabalho levou José Ruy ao cenário da história que ia escrever – a Ilha do Corvo – procurando no contacto com a população as pistas e a inspiração para a narrativa. Mais importante, tanto a construção da história como o processo do livro foram acompanhados pela população, que soube desde o primeiro momento o que estava a ser feito e pôde até dar ideias e sugestões. Por isso a obra ficou muito enriquecida, os corvinos aderiram e não tenho dúvidas de que lerão o livro e o terão presente no futuro.
Livros de História e de histórias há muitos, projectos museológicos e de património também, faltam iniciativas como esta, que sejam realmente feitas de e para as pessoas. Por isso A Ilha do Corvo que venceu os piratas é uma obra de arte a fruir, um meio pedagógico de aprender, mas também, e sobretudo, um excelente retrato do génio de resistência do povo corvino. Fica a sugestão. 

cham.tss@gmail.com

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de com-provadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO