Espécies Endémicas

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No dia 22 de Abril comemorou-se o Dia da Terra. Este é um dia de celebração e de reflexão sobre o modo como temos tratado o planeta. Um dos tópicos frequentemente abordados é a biodiversidade e a sua preservação, tema muito importante para o nosso arquipélago. Os Açores estão integrados na região biogeográfica da Macaronésica que constitui um dos centros de biodiversidade insular mais importantes do nosso planeta. Esta é a região com a taxa de endemismos mais alta da Europa e faz inclusivamente parte – em conjunto com a região Mediterrânica – de um dos 26 Hotspots de biodiversidade da Terra! No entanto, os diversos arquipélagos contribuem de forma diferente para a biodiversidade: enquanto as Canárias têm 62% do número de espécies endémicas de organismos terrestres, a Madeira e as Selvagens têm 22%, Cabo Verde tem 9% e os Açores apenas 7%. Não se julgue, no entanto, que os Açores são menos importantes por isso! É precisamente por terem sido poucas as espécies que conseguiram chegar ao arquipélago mais isolado do Atlântico norte e organizar-se para formar ecossistemas terrestres viáveis que cada uma tem um enorme valor.
O número de plantas vasculares endémicas e nativas açorianas é inferior a 300 e corresponde a menos de um terço do número de espécies de vegetação presentes nas nossas ilhas, o que significa que cerca de 70% das espécies de flora dos Açores foram para aqui trazidas pelo Homem e são exóticas. Algumas destas espécies tendem a tornar-se invasoras e a ocupar o espaço e recursos vitais necessários às endémicas e nativas. A preservação da biodiversidade depende também do controlo das invasoras.
Se nos focarmos nas espécies endémicas e nativas que atingem porte arbóreo verificamos também que a diversidade não é muito elevada. Há apenas dez espécies que podem atingir esse porte: a faia (Morella faya), a urze ou vassoura (Erica azorica),o pau-branco (Picconia azorica), o azevinho (Ilex perado ssp. azorica), o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia),o louro-da-terra (Laurus azorica), o sanguinho (Frangula azorica), a gingeira-brava (Prunus azorica), o dragoeiro (Dracaena draco) e o teixo (Taxus baccata), as duas últimas muito raras na natureza. É, assim, interessante observar uma faia, uma urze ou um cedro-do-mato com este valor acrescido, apreciando o facto de estas espécies terem chegado ao arquipélago e povoado as ilhas muito antes da chegada dos humanos e se manterem até hoje como elementos marcantes da paisagem que, apesar de todas as exóticas presentes, ainda formam ecossistemas viáveis e estruturantes da ecologia das ilhas.
Grande parte das espécies endémicas ocorre na maior parte das ilhas e a ausência de algumas espécies em algumas ilhas é essencialmente consequência das alterações provocadas pelo Homem. Este facto é característico do nosso arquipélago uma vez que existem outros arquipélagos, como por exemplo o Hawai, onde é comum encontrar espécies endémicas próprias de cada uma das ilhas. Algumas endémicas dos Açores apresentam dupla raridade, ou seja, são raras em termos da espécie propriamente dita e raras em termos de extensão de habitat. Existem mesmo algumas plantas vasculares e briófitos que estão entre as espécies mais raras da Europa!
Algumas têm histórias curiosas, como por exemplo a vidália ou azorina (Azorina vidalii), o trevo-de-quatro-folhas (Marsilea azorica) ou a Veronica dabneyi. Todas se encontram no TOP 100 das espécies ameaçadas e prioritárias em termos de gestão na região biogeográfica da Macaronésia. A vidália é uma espécie que tem populações muito fragmentadas na maioria das ilhas dos Açores e que se encontra nas costas rochosas ou em praias de calhau rolado. É uma espécie endémica rara, mas foi classificada como nº1 do TOP 100 para os Açores também por ser o único género endémico dos Açores. Acontece que estudos recentes apontam para o facto de este género não ser, afinal, endémico dos Açores apesar da espécie continuar a ser. Esta “despromoção” não afetou o modo como as pessoas de certas ilhas olham para a vidália e intuitivamente a protegem. Fazem-no por ser endémica mas também pela sua beleza e pela tenacidade em ocupar zonas próximas do mar. Este facto é especialmente evidente no Corvo. Também o trevo-de-quatro-folhas (Marsilea azorica) foi despromovido a Marsilea hirsuta, passando da categoria de espécie prioritária para a conservação e em perigo crítico, por só existir num único charco da Terceira, para a categoria de espécie introduzida naturalizada, uma vez que em 2011 se constatou que é nativa da Austrália e se coloca a hipótese de ter sido introduzida a partir dos Estados Unidos da América. Contudo, a população da Terceira mantém uma relação especial de afeto com esta espécie que esteve durante alguns anos exclusivamente associada à sua ilha. Em contrapartida, a Veronica dabneyi, que é também uma espécie rara e ameaçada, não colhe muita atenção por parte das gentes das ilhas. Esta espécie foi descrita em 1839 pelo botânico alemão Karl C. F.Hochstetter durante uma visita de vários meses ao Faial e nomeada em honra da família do Cônsul Americano Dabney. Atualmente existem apenas escassas populações com muito poucos indivíduos nas Flores e Corvo, pelo que a sua preservação atenta é essencial e isso inclui também a sensibilização dos florentinos e corvinos. Verifica-se assim que o conhecimento relacionado com a vegetação e ecologia dos Açores está sempre a evoluir, mas que para a gestão integrada e eficaz da biodiversidade é essencial o envolvimento das pessoas que aqui vivem.

 

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