Eu, consumidor omnívoro de livros

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        “O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.”   

                                                                                                                                           Padre António Vieira  

Ler é aminha paixão e é a minha profissão. E é a minha forma de perseguir caminhos de felicidade e de sonho, eu que sou leitor compulsivo e completamente viciado em livros. E é por isso que não fumo – esta foi a minha mensagem para o Plano Regional de Leitura.

Um destes dias perguntava-me um aluno meu se estaríamos a assistir ao fim do livro. Respondi-lhe que não, acrescentando que um suporte de comunicação não substitui outro. E dei-lhe exemplos: a fotografia não acabou com a pintura; o cinema não acabou com o teatro; a televisão não acabou com a sétima arte. Nada irá destronar o livro – porque não é contra as tecnologias digitais que o livro deve esgrimir – ele terá que se impor como objeto sui generis, até agora insubstituível, não só na esfera de transmissão de conhecimentos, mas, sobretudo, na fruição estética, na preservação da identidade linguística e no aprofundamento do eu.

Quem lê mais escreve melhor. E não é com SMS que se aprofunda o eu…

Não, nada poderá substituir o prazer de manusear os livros, de os sublinhar, riscar, dobrar, amarrotar as suas páginas e nelas fazer anotações… É por isso que ler é, para mim, uma necessidade orgânica. Ou seja, a minha relação com os livros é física e intelectual. Gosto do cheiro do papel, do lustro ou do mate das capas, sobretudo gosto do cheiro da tinta… (Confesso: adoro snifar os livros, e, nesta matéria, o meu irmão José Elmiro é muito mais viciado do que eu). Depois há esse dado inapelável: podemos ler os livros sentados, deitados, de bruços ou de cócoras, prazeres que as novas tecnologias da informação e da comunicação manifestamente não nos dão…

Leio vertiginosamente. Aliás, só conheço dois leitores mais quilométricos do que eu – o  Onésimo Teotónio Almeida (na América) e o Manuel Jorge Lobão (na ilha Graciosa).

Para mim, a felicidade está em grande parte ligada aos livros que têm sido os meus amigos silenciosos, invisíveis e irresistíveis. Neles não paro de colher conhecimento, cultura, informação e descoberta, eu que pertenço a uma geração que não teve o amplo poder de escolha em matéria de leitura, de que hoje os mais novos beneficiam. Durante os meus verdes anos a produção de livros não era abundante nem particularmente atraente do ponto de vista gráfico. Era o tempo dos compêndios, das Selectas Literárias e dos manuais “aprovados oficialmente” e patrioticamente visados pela censura do Estado Novo…

Só comecei a gostar verdadeiramente de literatura quando me apercebi de que ela era inseparável da vida. Comecei a ler livros que me ensinaram a conhecer o mundo, mas mais importante do que isso, ensinaram-me a conhecer a mim próprio.

Alguns livros mudaram a minha vida: Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, e Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, para dar apenas dois exemplos. De resto Camões, Garrett, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, bem como Dickens, Stendhal, Dostoiewski, Flaubert, Balzac, Melville, Steinbeck, Poe, Faulkner, Hemingway, entre muitos outros, são os meus mestres de cabeceira e o pão de que me alimento no dia a dia…

Aliás o mundo, tal como o conhecemos, tem sido feito pelos livros. Da Bíblia, do Corão ao Capital e a Freud; da Ilíada e da Odisseia a Voltaire e a Victor Hugo, de Hegel a Proust e aos livros escolares, os homens (ainda) vivem de ideias transportadas por livros, que nem sempre leram, mas dos quais são filhos.

A propósito, e em tempo de aparente pujança editorial, convirá fazer aqui uma destrinça entre leitores e compradores de livros. O leitor lê efetivamente o livro que compra ou toma de empréstimo; o comprador de livros limita-se a colocá-los na estante (quase sempre para fins de ornamento) com a intenção de os vir a ler um dia…

Há que separar o trigo do joio, numa altura em que se confunde cultura com diversão, havendo, por conseguinte, uma completa submissão dos valores culturais aos valores do mercado. É que há por aí muita prostituição livresca encapotada em técnicas de marketing… Hoje o bom escritor parece não ser aquele em cujas obras se vislumbra qualidade literária e estética; nos tempos que correm o bom escritor é aquele que pertence ao jet set “literário” lisboeta, com especial predominância para os pivots televisivos…

Há que incutir, o mais cedo possível nos mais novos, o gosto pela leitura, a fruição estética das palavras e isso é uma tarefa que cabe a todos nós. Estimular a imaginação dos nossos filhos implica leituras, implica que lhes contemos histórias. Sei de muitos casais que, para não terem este trabalho, limitam-se a adormecer os seus descendentes através de filmes, impedindo, deste modo, que se estabeleça a respiração e a componente afetiva que deve existir na mensagem emissor-recetor.

Não há motores de busca, nem inovações tecnológicas, nem ciberespaços, nem recursos digitais capazes de substituir o livro. Este continuará a ser o que sempre foi: um apelo à nossa inteligência, à nossa sensibilidade, à nossa imaginação, ao nosso espírito crítico e ao nosso desejo de aventura. 

Os iluministas internéticos jamais acabarão com a República das Letras.

Viva o livro!

 

 

 

                                                                            

 

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