Faialenses Pelo Mundo: Anna Margarette, a marca do Faial na moda mundial

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Ter 32 anos e contar 12 de carreira não se consegue nem todos os dias nem
em qualquer lado. Desta feita falamos de Ana Margarida Silva, conhecida no mundo da moda pela sua marca Anna Margarette. Atualmente radicada em Londres, tendo chegado ao Reino Unido há seis anos, é designer de Moda e Stylist na Yumi International e contou passagens profissionais pela Alice Dean, Modatech e Plunge.

Antes de 2007, data em que largou amarras e zarpou da ilha, pautou a sua vida pelo envolvimento cultural e musical. Praticou ballet ao longo de 15 anos, tocava flauta na Sociedade Filarmónica União Faialense e na Orquestra de Música Ligeira da Horta. Também cantava na orquestra e nos grupos corais juvenil Mater Dei e Angústias Sénior, além de ser escutista nas Guias de Portugal.

Pelo caminho apresentou as suas coleções em distintas semanas da Moda: Nova Iorque, Paris e Londres. Entre trabalhar para diversas marcas e construir a sua somam-se experiências que lhe permitem olhar o futuro confiante.

Tribuna das Ilhas (TI) – Já se acumulam os anos de experiência e a Anna que se apresentava no Faial saltou para as passerelles das Semanas da Moda e Londres, Paris e Nova Iorque. Um percurso no qual a capacidade de superação e perseverança falam mais alto. Sente que está onde devia estar?
Anna Margarette (AM) – Não acredito de todo que esteja onde quero estar. Até porque tenho muita ambição na minha carreira, o que me motiva a querer ir cada vez mais longe. Não consigo parar, estou sempre à procura de aprender, de desbravar caminhos desconhecidos e de procurar melhorar a minha vida profissional e pessoal.
TI – Muitas vezes, quando se está em início de carreira acredita-se que tudo acontecerá muito rapidamente. De que modo esta pressão muitas vezes incutida pela sociedade pode atrapalhar o processo de criação de uma marca e o crescimento enquanto designer?
AM – Nunca me regi pela sociedade. Aliás sempre me senti um peixe fora de água no que toca à sociedade. Talvez porque sempre segui a minha intuição e não as opiniões que a sociedade tentou ditar-me ao início. Lembro-me perfeitamente de me terem dito que Designer de Moda não era uma profissão e que deveria ser arquiteta. Algo que sempre ignorei, por seguir o que me chamava a ser e não a aparecer aos olhos da sociedade. Tudo leva o seu tempo e essa é a beleza da construção de uma carreira e de uma marca. Se tudo fosse fácil a ambição e o desafio desapareceriam e eu não teria uma história de 12 anos de carreira tão rica e cheia de altos e baixos.
TI – Desde 2016 reside em Londres e tem tido passagem por diferentes marcas e a trabalhar em diferentes subsetores de design. É possível apontar algum material ou vertente em que não goste de trabalhar? O que de melhor tem aprendido desde a sua chegada às terras de Sua Majestade?
AM – Não consigo dizer em específico algo que não tenha gostado de trabalhar, até porque adoro aprender e conhecer novas técnicas e materiais. Mas para surpresa de alguns eu gosto mais de desenhar acessórios, calçado e malas do que roupa. São mais complexos quanto à sua construção e isso intriga-me. Aprendi que a caminhada é bem mais importante que a chegada, pois na caminhada estabeleço relações profissionais, pessoais e adquiro experiências únicas na vida, que poderão não voltar a repetir-se.
TI – A consolidação da tua marca continua na agenda e o trabalho feito faz prever muito sucesso. A faltar apenas a Semana da Moda de Milão para “fechar” a passagem pelos quatros maiores eventos da área: o que ainda há por fazer?
AM – Ainda há muito por fazer. A consolidação da marca é sem sombra de dúvidas uma das minhas maiores prioridades, mas só depois de poder realizar o sonho de desenhar figurinos cinematográficos. É algo que muitos dos meus colegas no Reino Unido têm me incentivado a experimentar, porque as minhas criações são segundo eles fantasiosas, complexas e interessantes para filmes.
TI – Muito recentemente esteve envolvida na criação de cinco figurinos do programa “The Masked Singer” no Reino Unido. Para uma designer de moda habituada a outro tipo de cortes e formas, teve que mudar algo no seu processo de idealização e produção criativa? Como avalia a experiência.
AM – Desenhar figurinos televisivos é muito diferente de trabalhar com moda. Tive que me adaptar e aprender rapidamente todas as técnicas a serem aplicadas aos mesmos. Há muita matemática envolvida porque as proporções têm de ser corretas, só construímos uma vez o figurino e este é o figurino final a ser apresentado, no entanto há espaço para pequenas alterações. Foi uma experiência única que guardo com muito carinho, porque para além da criação dos figurinos pude trabalhar em backstage como aderecista figurinista VIP de celebridades internacionais como a Michelle Williams (membro das Destiny Child), o ex-jogador do Manchester United e Real Madrid, Michael Owen, o cantor Aled Jones, ou a apresentadora Gloria Hunniford.
Aprendi imenso sobre toda a produção de um programa televisivo, o que me fez crescer como profissional. Foi uma experiência muito positiva.

TI – Recentemente criou o seu primeiro vestido para um concurso de beleza, que Cristina Carvalho utilizou e a ajudou à conquista do título de Miss Eco Europa. No processo contou com a ajuda da sua mãe. A peça que produziu é também uma homenagem à sua família, ilha e região?
AM – Uma pequena curiosidade: a peça não é a minha primeira homenagem ao Faial, aliás a coleção que apresentei em Nova Iorque foi e é inspirada nas pinturas da Marina da Horta e nas Aves Faialenses, não tão óbvia porque a interpretação que fiz foi mais fantasiosa. É uma das minhas preferidas pelo sentimento que tenho enraizada nela.
No entanto, o vestido da Cristina tem sem sombra de dúvidas representado tanto para os faialenses, para a região e até para mim porque através do seu design e da sua conceção o vestido tem Açores metaforicamente escrito nas hortênsias e nas cores dos tecidos. Ele transmite tudo o que sinto pelo meu porto seguro, que são as nossas ilhas e em especial o Faial. Também será para sempre um projeto de mãe e filha e que tem um valor inestimável.
TI – Enquanto designer de moda: acredita que é possível consolidar uma presença internacional sem sair do país? Quais as principais limitações em Portugal?
AM- Eu diria que tudo é possível, mas é bem mais complicado. O nosso país ainda não é um país que coloca a moda como um dos principais sectores financeiros do mesmo e um investimento a longo prazo. Logo aí torna-se tudo muito mais complicado. No entanto devo realçar que só pude marcar a minha presença internacionalmente em alguns dos maiores eventos desta indústria devido ao apoio dos Açores e principalmente das entidades, companhias e pessoas do Faial. Sem estes apoios nunca poderia levar o nome dos Açores e em particular do Faial mais longe. É algo que me faz ter orgulho quando apresento uma das minhas coleções, sinto-me apoiada pela minha gente e pela minha cultura. Cultura essa que quero levar aos quatro cantos do mundo. No que toca ao nível nacional as limitações são muitas sendo a económica a maior limitação, porque o público tem de ter poder de compra para poder comprar as nossas peças e em Portugal os salários são baixíssimos.
TI – O que mais se alterou entre a Ana que saiu do Faial para desbravar caminhos e a pessoa que é hoje?
AM – Muito se alterou. Este ano faço 12 anos de carreira e penso constantemente em tudo o que passei para estar onde estou. Sou sem sombra de dúvidas muito mais madura e experiente.