FERNANDO DE FREITAS SILVA (1922-2003) – Político, Fiscal e Conservador de Obras Públicas

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Nasceu a 3 de Julho de 1922 na freguesia da Fazenda, concelho de Lajes das Flores, filho de José Furtado Silva e de Maria de Freitas Silva, ele agricultor e ela doméstica. Dos irmãos distinguiram-se o Francisco, como funcionário do Fundo de Desemprego, a Maria do Coração de Jesus, como cozinheira improvisadora popular, o Fernando, político e chefe de conservação de estradas. Fez com distinção o Ensino Primário na escola da sua freguesia natal, com exame final em Lajes das Flores. Mais tarde, quer na vida militar, quer depois na cidade Horta, viria a frequentar aulas de formação onde valorizou esse ensino com matérias do Ensino Secundário. Depois de passar pela vida rural do pai, começou por trabalhar com vários engenheiros e topógrafos ajudando-os a fazer o levantamento topográfico da ilha para a construção de estradas. Após cumprir o serviço militar em Angra do Heroísmo, no tempo de II Guerra Mundial, quando os “Aliados” ali chegaram à Terceira em 1943, regressou às Flores em 1945, voltando para o serviço de Obras Públicas onde já estivera como ajudante de topógrafo. Casou em Novembro de 1946 com Elisa Elvira da Câmara Silva, com namoro já anterior ao serviço militar, de cujo casamento nasceram os filhos Hélio Fernando, que foi Chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Lajes das Flores, Maria Gabriela, Professora nas Flores e Escritora, José do Espírito Santo, Médico em Castelo Branco, e Maria Fernanda, Professora na Horta. No ano seguinte, depois de um curto estágio na cidade da Horta, fez exame e foi aprovado para Fiscal de Obras do Estado. Assim, em 1 de Setembro de 1947 foi empossado na categoria de Fiscal de Obras de 3ª. Classe da Junta Autónoma de Estradas e assumiu funções, numa espécie de estágio, como fiscal nas obras das estradas faialenses, nomeadamente na última fase da Estrada da Caldeira e na da Ribeira Funda. Entretanto, como se havia iniciado nas Flores, em 9 de Dezembro de 1946, a construção da estrada Ribeira da Cruz – Caveira, poucos meses depois foi aí colocado como topógrafo, onde trabalhou com diversos engenheiros. Assim, quando em Março de 1948 teve início a construção do troço da estrada Fazenda – Ribeira de Pomar, foi encarregado de fiscalizar essa obra, serviço que manteve praticamente em todas as estradas que o Estado foi executando na ilha das Flores. Mas a sua actividade profissional não se limitava a ser Fiscal de Obras, uma vez que, como aprendeu a dominar a topografia, desenvolveu muito trabalho nessa área, conforme as necessidades em diversas obras simples. O seu nome ficou assim ligado à maioria das estradas que durante o século XX foram feitas na ilha das Flores, nomeadamente às que nela se construíram entre os anos de 1947 e 1979. Chegou também a trabalhar na vizinha ilha do Corvo, nomeadamente, em 1958, no levantamento topográfico da Vila para instalação da rede de distribuição de água potável. Depois de ser promovido a Fiscal de Obras de 2.ª Classe, a Chefe de Conservação de 2.ª e 1.ª Classe, mediante concursos, ascendeu à categoria de Chefe de Conservação Principal, cargo que tinha quando se aposentou em 1 de Fevereiro de 1984. Durante a sua carreira profissional, para além de ter desempenhado simultaneamente outros cargos de natureza política a que nos referiremos a seguir, exerceu, por diversas vezes, as funções de Chefe da Delegação de Obras Públicas das Flores. Foi também louvado, por várias vezes, pelos distintos serviços profissionais prestados. Em 16 de Janeiro de 1961 assumiu o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Lajes das Flores, cargo que desempenhou simultaneamente com a sua profissão, durante doze anos de exercício, recebendo dessas funções uma pequena gratificação. Nesse cargo desenvolveu um conjunto de acções e empreendimentos, dos quais refiro os de maior projecção e interesse. A construção do edifício dos Paços do Concelho, onde ficaram instalados praticamente todos os Serviços Públicos da vila das Lajes foi a sua primeira grande obra. A seguir as escolas primárias de quase todas as localidades do concelho, designadamente das Lajes, Fazenda, Lomba, Fajã Grande, Fajãzinha e Costa, acabando-se assim com a secular situação de escolas instaladas em casas privadas sem o mínimo de condições dignas da sua importante missão, por vezes sem retretes ou latrinas. Essas obras ficaram praticamente Durante o seu mandato a Câmara Municipal construiu a Pousada de Lajes das Flores, o Posto Clínico das Lajes, o Largo do Rossio da Fajãzinha, o Largo de Santo António das Lajes, o Coreto do Largo Dr. Freitas Pimentel na Fazenda e procedeu à abertura de ramais da Costa e da Ponta da Fajã. Adaptou a Casa do Povo da Fazenda, ampliou a rede de águas das diversas localidades e realizou muitos outros empreendimentos que de momento não retenho de memória. O seu último mandato, à frente da Câmara Municipal de Lajes das Flores, terminou em Janeiro de 1973. Assim, terá sido nesse ano que foi agraciado com a comenda da Ordem de Benemerência, como reconhecimento pelos relevantes serviços públicos que prestou na ilha das Flores. Mas, graças à sua acção junto do Governador Civil da Horta, seu tio Dr. António de Freitas Pimentel, foi constituída a Federação dos Municípios da Ilha das Flores, de que foi o primeiro Presidente do Conselho de Administração, na sequência da construção da Central Hidroeléctrica e da rede de distribuição de energia eléctrica, levando-a, praticamente, a todas as localidades da ilha. A sua inauguração foi feita em 15 de Outubro de 1967. Esteve por duas vezes naquele cargo. Para tratar directamente de assuntos da ilha, deslocava-se, por vezes, a Lisboa, quer sozinho, quer na companhia do Governador da Horta. Mas a sua acção também se desenvolveu em actividades de interesse social, cultural e desportivo. Assim, foi membro da Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz das Flores para a qual foi eleito em 12 de Abril de 1970, ocupando, por várias vezes, o lugar de Vice-Provedor, em substituição do respectivo Provedor, administrando então o Hospital das Flores. Na música foi músico fundador da nossa Filarmónica “União Portuguesa da Califórnia”, onde por vários anos foi excelente executante de contra-baixo. Fez parte também como cantor do grupo coral da nossa igreja. Para além disso, colaborou em diversas peças de teatro e revista levadas à cena na nossa freguesia e que percorreram as principais localidades da Ilha. Foi um dos fundadores e fez parte dos órgãos directivos do Centro Recreativo e Cultural Lajense, que existiu no lugar da Passagem, em Lajes das Flores, nas décadas de 1950 e de 1960, tendo feito parte da Tuna que nele foi organizada pelo faialense Luís Duarte, mais conhecido por Luís “Galinho”, dedicada à música clássica. No desporto integrou a Comissão que em 1953 fundou a “Académica”, isto é, o Grupo Desportivo Fazendense, tendo sido então o financiador dos seus primeiros equipamentos. Mais tarde, voltou a fazer parte dos corpos gerentes do Fazendense, durante vários anos, nomeadamente quando esta equipa fez parte da FNAT/INATEL. Durante a sua vida trabalhou gratuitamente para muitas instituições ou serviços públicos das Flores, umas vezes durante as suas horas de trabalho, outras vezes com prejuízo das suas horas de descanso, nomeadamente nos Serviços Florestais, Posto Agrícola e vários outros. Com competência e dedicação, superava qualitativamente as habilitações literárias que tinha. Depois de ter sofrido acidente cerebral grave, faleceu na sua terra natal a 22 de Outubro de 2003, tendo sido sepultado no cemitério da freguesia da Fazenda, concelho de Lajes das Flores, localidade onde praticamente sempre viveu. Sobre ele Francisco A. Medeiros, de S. Roque do Pico, que o acompanhou em trabalhos topográficos na ilha do Corvo, escreveu que “quando pedia para entrar nalguma propriedade para fazer medições, ou pedir informações a algum habitante, homem ou mulher, sobre a estrutura do imóvel, tinha sempre um dito e uma forma agradável de tratar com as pessoas que lhe abriam todas as portas”. Efectivamente, era dotado de grande sentido de humor e de simpatia, sendo, assim, um excelente animador de conversas junto dos amigos com quem convivia, possuindo um excelente repertório de anedotas e de graças de diversa ordem, muitas delas por ele brilhantemente improvisadas. Engenheiros e doutores seus conhecidos pasmavam a ouvi-lo em tertúlias de amigos. Onde ele estava não havia tristeza. (O autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico) BIBL: “Florentinos que se Distinguiram”, 2004, p. 263, ed. da C. M. de Lajes das Flores, de José Arlindo Armas Trigueiro; Trigueiro, José Arlindo Amas,”Fazenda das Flores Um século de Sucesso 1900-2000”, (2008), pp 327, ed. da Câmara Municipal das Flores.

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