Foi sol de pouca dura

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Quando, na madrugada do passado dia 27 de Outubro, os chefes de governo da zona euro alcançaram um acordo para combater a já longa e muito grave crise do euro e das dívidas soberanas, respirou-se um alívio generalizado. A confiança regressou não só aos 17 Estados Membros da zona euro, mas a todos os 27 que constituem a União, assim como aos grandes blocos financeiros e económicos mundiais, como a América do Norte e a Ásia. No mundo globalizado em que hoje vivemos, todos dependemos de todos.

O sentimento que então se gerou chegou mesmo a ser de euforia, o que a subsequente reacção muito positiva dos mercados mundiais contribuiu para alimentar. É verdade que, entretanto, pouco a pouco, os analistas políticos e financeiros, iam apontando algumas das dificuldades subjacentes ao acordo e os receios daí advenientes. Mas a esperança de vivermos o princípio do fim da crise prevalecia.

Um comentador televisivo estrangeiro, numa apreciação que reputei de bastante realista, resumia a sua análise afirmando que estávamos perante um doente que havia sofrido uma cirurgia a coração aberto, bem sucedida, mas que faltava ainda acompanhar o período de recuperação e de convalescença o qual, neste tipo de intervenção, comportava sérios riscos.

Os mais optimistas, porém, viam já neste acordo a recuperação da estabilidade da zona euro há tanto almejada; os mais críticos, invocando o slogan bem europeu de que o “diabo está nos detalhes”, apontavam que as medidas acordadas eram vagas, incompletas e complexas, manifestando preocupações sobre a operacionalidade do projecto.

O que ninguém, mas mesmo ninguém podia supor era que em poucos dias o acordo seria abrupta, desleal e irresponsavelmente posto em causa e exactamente pelo maior beneficiário: a Grécia com o surpreendente anúncio do seu Primeiro-Ministro de um referendo sobre o acordo. Esta singela notícia mergulhou a Europa num caos financeiro que contagiou as grandes economias mundiais e, ainda mais grave, se é possível, aniquilou toda a esperança de saída desta crise tendo-a aprofundado até um nível de consequências hoje imprevisíveis. É que, quer o referendo se venha a realizar ou não e, realizando-se, quer o acordo venha a ser votado favoravelmente ou não, a mais ousada intervenção na crise do euro tornou-se inexoravelmente ineficaz, a insegurança na Europa e no Mundo agravou-se, o espectro da recessão intensificou-se e qualquer boa-fé em negociar com a Grécia, por parte dos Estados europeus como de outros financiadores, desapareceu por completo.

Alguns poderiam dizer que o referendo é um procedimento democrático emblemático e que até devia ser mais comum numa democracia popular efectiva. Não nos deixemos enganar. O referendo poderia justificar-se antes de a Grécia ter recebido a primeira tranche de ajuda no valor de 110 mil milhões de euros, em Maio de 2010, ou até antes do segundo pacote de ajuda no valor de 100 mil milhões de euros ter sido aprovado. Porém, depois de largas, intensas e dolorosas semanas de negociações aos mais diferentes níveis, e do sucesso de um acordo que prevê o perdão de 50% da dívida grega e aprovação de uma terceira tranche no valor de 130 mil milhões de euros, o referendo que Papandreou propôs não passa de um ignóbil acto de desresponsabilização partidária na assunção de um caminho sem alternativa que não passe pela exclusão da Grécia da zona euro; é também uma injusta chantagem para com o povo grego que dificilmente votará a favor da continuação da austeridade e a quem não lhe é dada a prerrogativa de optar assumidamente pela saída do país da zona euro, a que equivale o anunciado referendo, e o que, em todo o caso, atiraria a Grécia para um isolamento de dificuldades inimagináveis; é, por fim, uma tentativa egoísta de sobrevivência política de uma pessoa contra uma nação (a grega), contra um projecto (o europeu), contra a estabilização dos mercados e a perspectiva de recuperação económica de muitas nações, comunidades e milhões de pessoas.

Não sei se no dia em que esta minha crónica for publicada a proposta de um referendo se consolidou ou desvaneceu, se o governo grego caiu e arrastou com ele o referendo, mas já não poderemos regressar à madrugada do dia 27. Foi sol de pouca dura…

4.11.2011

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