Início Artigos de opinião Fernando Faria Furtados, uma família de artistas (7)

Furtados, uma família de artistas (7)

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Marcelino Lima, o consagrado autor dos “Anais do Município da Horta”, pertence igualmente a esta numerosa e destacada família de escritores, músicos e historiadores.  

Nascido na freguesia Matriz da Horta a 12 de Março de 1868, um lamentável descuido impediu que o seu baptismo, realizado um mês depois na mesma paróquia, ficasse registado no livro respectivo. Só em 1892, um mês antes do seu casamento com D. Maria de Lacerda Mendonça, é que obteve do bispo diocesano, D. Francisco José Ribeiro Vieira de Brito, a certificação daquele acto, ficando assim preenchida a inexplicável omissão. Porque é um documento inédito, aqui se arquiva o essencial dessa sentença episcopal:

 “Vistos os autos mostra-se que o justificante Marcelino d’Almeida Lima, filho legítimo de Marcelino d’Almeida Lima e de Maria Madalena Bettencourt Furtado Lima, naturais e recebidos na freguesia Matriz da cidade da Horta, neto paterno de João d’Almeida Lima e de Gertrudes Constança e materno de Maria Madalena Madruga e de avô incógnito, nasceu na freguesia Matriz, cidade da Horta, ilha do Faial, aos doze dias de Março de mil oitocentos sessenta e oito e foi baptizado no dia doze de Maio do dito ano pelo presbítero Tomás César da Silva, então beneficiado daquela igreja. Mostra-nos mais que os padrinhos do mencionado justificante foram João Jacinto Rebelo e sua mulher Amélia Sena Rebelo. Portanto e pelo mais do que dos autos consta, julgamos por sentença provado o baptismo do justificante Marcelino d’Almeida Lima. Passe carta de sentença, arquivem-se os autos, pagas as custas pelo justificante e da causa. Paço de Angra, dezassete de Junho de mil oitocentos noventa e dois. Francisco José, Bispo de Angra (…)” .

Este era um documento imprescindível para a realização do seu casamento com D. Maria de Lacerda Mendonça e que ocorreu a 16 de Julho desse ano na Matriz da Horta.

Marcelino Lima contava então 25 anos de idade, fizera a instrução primária, cursara o Liceu, era funcionário da Estação Telégrafo-Postal da Horta e já revelava acentuada inclinação pelas lides culturais. 

Com apenas 17 anos, fundou, com Júlio de Bettencourt Lacerda, o “Bibliófilo” (1885), um semanário literário que, apesar de ter durado apenas um ano, projectou Marcelino Lima para aos trabalhos jornalísticos. De facto, continuou a escrever para outros periódicos, sendo, inclusivamente, redactor principal da “Revista Faialense” (1893), semanário literário e desportivo e, conjuntamente com Florêncio Terra e Rodrigo Guerra, desempenhou igual função na 2.ª série de “O Fayalense” (1899), conceituado semanário literário e noticioso. No decurso da sua longa vida continuou a manter intensa e assídua colaboração em outros jornais, sobretudo em O Telégrafo, A Democracia e Correio da Horta.

Participou intensamente na vida da comunidade faialense, como membro activo e presidente do Grémio Literário Faialense e do Ginásio Clube, instituído a 18 de Maio de 1889, e que foi a primeira associação de educação física e de desporto que existiu na Horta. Começando pela prática da ginástica sueca, manteve um curso nocturno regular de exercícios físicos atingindo enorme frequência. Grande novidade na capital faialense, o Ginásio Clube visava “proporcionar aos seus associados” – conforme estabeleciam os estatutos – “diversos meios de educação física, pelo estudo e prática de todos os exercícios capazes de conservar e desenvolver o seu organismo”. Esses exercícios eram assim especificados: “ginástica, jogos ao ar livre, esgrima, natação, velocipedia, remo, passeios de resistência, e quaisquer outros de reconhecida vantagem”. Dedicando-se “devotadamente aos desportos”, construiu o primeiro campo de ténis no Faial, estabeleceu uma carreira de tiro ao alvo e, obteve “o magnífico escaler” Alcion para a prática de “exercícios náuticos à vela e a remos”. E, como já se assinalou, publicou a Revista Faialense – “meio literária, meio consagrada a todos os assuntos de instrução física” .

Homem de múltiplos saberes, Marcelino Lima foi uma das mais brilhantes personalidades do meio cultural faialense. Interessou-se, igualmente e desde novo, pela arte dramática, sendo não só um dos vários autores que escreveram para o teatro da Horta, mas também actor, declamador e encenador. Da sua obra O Teatro na Ilha do Faial retira-se a informação de que escreveu: A feiticeira, drama em quatro actos, de V. Sardou (trad.), O Sr. Comissário, arranjo da comédia Le comissaire est un bon enfant, de Courteline e O Jugo, comédia em dois actos (trad.). É ainda desse seu trabalho que o “vemos” entrar em cena pela primeira vez a 27 de Novembro de 1886 na comédia Beijinho das criadas, ao lado do consagrado Francisco Augusto da Silveira, de Paulo de Castro, de D. Catarina Santos e D. Celina Santos. Nessa estreia em palco recitou a poesia O Melro, de Guerra Junqueiro. Desde então e até à década de vinte do século XX, Marcelino Lima revelou-se apreciado declamador e assíduo intérprete de peças teatrais, designadamente nas comédias Os dois tímidos e Dois estudantes no prego, nos dramas de António Baptista O Abade de São Romão, extraído do romance Mário de Silva Gaio, e em Branca de Clermont, extraído do Livro Negro do Pe. Dinis, de Camilo Castelo Branco. Segundo ele próprio escreve, seria em O amigo Fritz, adaptação de António Baptista do romance homónimo de E. Chatrien, que conquistaria “a sua coroa de glória de amador”. Protagonista dessa peça, contracenou com António Baptista, Silva Cardoso, Humberto Correia, Pato Moniz, D. Celisa Santos e D. Maria Barata, e, nostalgicamente orgulhoso, não resistiu à transcrição dum artigo de  jornal publicado a propósito: “O reaparecimento de Marcelino Lima no palco deu-me infinita satisfação, porque com este poderoso elemento podem os nossos amadores dar-nos mais noites como a de 22 de Junho”  [de1905]. E os êxitos sucederam-se. Ainda, em Novembro desse ano, teve papel destacado na revista De calva à mostra, de António Baptista, a 13 de Maio de 1906 foi um dos intérpretes da Ceia dos Cardeais – na festa de homenagem a Francisco Augusto da Silveira, um dos grandes amadores teatrais faialenses – a 27 de Janeiro de 1909 tomou parte numa festa de caridade contracenando com sua prima D. Silvina Furtado de Sousa na peça Madrugada de F. Caldeira. As peças que adaptou e traduziu foram estreadas no Teatro Faialense na segunda década do século XX: em Dezembro de 1911, a comédia O Jugo; em Dezembro de 1912 o drama A feiticeira e em Abril de 1916 a comédia O Sr. Comissário.

A par da colaboração na imprensa e no teatro e da valiosa intervenção cívica, Marcelino Lima dedicou-se também, sobretudo na primeira metade do século XX, à investigação de figuras, instituições e acontecimentos da história faialense. Como ele próprio escreve, foi “no decurso de escavações que me dei a efectuar no âmbito dum certo período da história faialense” que “começaram rolando pela primeira vez sob a minha vista afanosa e surpresa, e de dia para dia mais regozijada, nomes, factos, datas, esclarecimentos, indícios (…) acerca de pessoas e casos, em toda a idade evolutiva da ilha” . Esse “cabedal grosso” que foi amontoando, permitir-lhe-ia publicar uma notável série de obras que o consagrariam como genealogista, romancista e historiador.

 

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