Futebol – Correr por gosto não cansa

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Passam 20 anos desde que um grupo de veteranos do Angústias Atlético Clube se juntou para fazer o que gosta: jogar à bola, como se diz coloquialmente. Hoje há uma associação legalmente constituída, um grupo unido e gente que sem o futebol via a sua existência menos completa.

A viragem do milénio trouxe novidade para os lados das Angústias e a que lhe trazemos hoje é só uma delas. O velhinho – mas vigoroso – Angústias Atlético Clube (AAC) viu um grupo de ex-jogadores se unir para que o pendurar de chuteiras em termos competitivos não fosse o adeus a uma modalidade que os acompanhou durante décadas.
Um grupo começou, outros tantos se foram juntando, os anos sucederam-se, os treinos, os jogos, os jantares, as viagens e hoje podemos falar de 20 anos de Veteranos de AAC e em cinco anos de associação.
Foi na sede deste clube histórico que falámos com o atual presidente da direção, Horácio Goulart. Um homem que enquanto jogador passou pelos três clubes da Horta (Fayal SC, SC Horta e AAC) dando ainda uns toques na bola pelo FC Flamengos. No caso dos alvinegros, envergou a camisola na época de 1995/1996 por convite do treinador Mário Jorge. Entretanto foi treinador, presidente de um clube rival mas isso não foi impedimento de se juntar ao Veteranos das Angústias, porque há sempre mais que o confronto em campo. Há amizade fora das quatro linhas e essa abre portas em todo o lado.
Atualmente Horácio está no segundo e último ano de mandato, antevendo não dever continuar enquanto presidente porque “tentamos sempre renovar, há uma rotação entre os jogadores”. No ano de 2019 foram ao Norte do país, jogando em Fafe e em Vidago. Este ano vão receber três equipas e em junho deslocam-se a Anadia.
Ora para o presidente da AVAAC isto só é possível pelo companheirismo, porque todos colaboram e porque na sociedade faialense há um carinho grande pela modalidade, pelo clube e pelo desportivismo que a associação promove. “É um orgulho fazer parte desta família”, não esconde.
“Somos diferentes porque não abrandamos, só paramos em julho e agosto. O nosso foco é o convívio e não a competição. É exercício físico. Há outras equipas que levam isto para um lado que não nos identificamos. Há aqui um espírito diferente, mais amigável”, declarou entre palavras de apreço a todos os colegas e às memorias passadas no mundo do futebol local.
Um dos traços que rapidamente denotamos nesta associação foi um óbvio caráter social, tendo já apoiado a APADIF e os Bombeiros da Horta, por exemplo. Para Horácio Goulart isto é algo natural “por tudo o que fizemos enquanto jogadores da associação, em que praticamos pela competição, agora temos este dever de ajudar, contribuir, dar um pouco para fazer perceber também que não existimos só para dar uns pontapés na bola”.
Podemos considerá-lo um orgulhoso presidente perante tudo o que foi dito nas palavras que trocamos. É um homem que defende o direito ao desporto, à partilha e ao envolvimento na vida associativa.
Ao nível das viagens à poucas palavras para descrever: “os dias que vamos fora são algo que só quem passa sabe. Passamos aquela semana com uma boa disposição incrível. Andamos em grupo – temos um grupo unido – sempre com uma camaradagem fora de série. É um escape, uma terapia quase”, afirmou
Um facto, apesar de não ser verdade insofismável, é que a opinião generalizada sobre o futebol federado a nível local não é propriamente positiva. Não necessariamente pelas atitudes em campo mas pelo próprio empenho, envolvimento e capacidade de sacrifício e superação. Horácio considera que “os melhores anos do futebol local já passaram, mas tenho a plena convicção que cada um faz aquilo que pode. Hoje está-se muito aquém do que já foi”.
Solução? “Ensinem os miúdos a andar na rua, a estar com os outros, a não se meterem só em casa”. Fica a dica.
Antes de sair, e porque a vida urge, houve tempo para a pergunta “porquê o futebol?” quando poderia ter sido qualquer outra modalidade a captar a atenção Horácio tem dificuldade em apresentar uma causa, como seria de esperar. Lembra-se de ter começado no CD Lajense, ainda na INATEL, com 13 anos. Desde aí nunca mais parou, nem as fraturas o demoveram. “Porque é paixão e se calhar porque na altura não havia televisão. É uma loucura para mim”.
No meio da vontade de se manterem fisicamente ativos, de estarem com os amigos ou de sair de casa para apanhar um ar surgem as belas a aprazíveis viagens. Em 20 anos foram 197 jogos, 25 cidades visitadas, idas a outras ilhas dos Açores, à Madeira, Portugal de Norte a Sul e pelo menos três vezes aos Estados Unidos da América. Nos mais de 50 duelos defrontaram não só equipas portuguesas mas também americanas, brasileiras, espanholas, italianas e marroquinas. São experiências que se somam à vida deles, uma atrás da outra. São “coisas que só quem passa”, salientou Horácio Goulart.

Passados há muitos, mas todos os caminhos dão ao AAC

Chegou ao AAC numa fase tardia da carreira. Na época 2007/2008 vestiu de alvinegro em Futsal federado, mas já jogava nos Veteranos do clube. Hoje este picaroto de nascimento, aos 56 anos, sai de casa às 2.ª e 5.ª à noite, pelas 20:00, e desloca-se ao campo da Secundária Manuel de Arriaga “porque o desporto faz bem ao corpo e à mente”.
Carlos Fontes, que agora assume o cargo de presidente da Assembleia Geral, conta que o grupo de veteranos existente “há algum tempo” preparou a criação da associação legalmente constituída. Acabou por ocupar o cargo que hoje ocupa por ser um dos que há mais tempo está no grupo, contando com 14 anos de envolvimento neste projeto-hobbie-terapia.
De todas as viagens que fizeram apenas as aos Estados Unidos, por motivos de saúde, e a à Madeira não contaram com a presença de Fontes. “Todas as viagens são boas, é um grupo divertido e o espírito de camaradagem é uma constante. A ida a Caminha, a Beja e a Évora foram ótimas! Quando vamos a Portugal Continental ficamos por norma todos juntos no mesmo edifício o que permite outro tipo de convívio, coisa que nos EUA – como ficam em casa de particulares – não acontece tanto por estarmos dispersos”, disse-nos.
Já Filipe Vitorino acabou por chegar ao Faial e apesar de nunca ter jogado no AAC começou, ficou e cá está.
Aos 48 anos confessa-se um homem de qualquer modalidade mas a atenção ao futebol fala um pouco mais alto, tendo sido jogador nos distritais em Portugal Continental. Agora conta com oito anos de Veteranos do Atlético. Começou “a treinar por amizades e o espírito que encontrei aqui é ótimo, estou muito bem integrado com eles”.
“As viagens, essa parte cultural, é a melhor parte. O ambiente, o convívio com os outros jogadores e a população dos outros locais vale muito a pena”, afirmou Vitorino que deixou a promessa “enquanto conseguir-me mexer vou andar por aqui”.
Conseguimos interromper o treino a um outro jogador para tentar perceber melhor o que motiva a continuar no futebol passados tantos anos. Por esta altura o leitor já percebeu que a camaradagem é o elemento essencial, e Francisco Rosa não fugiu à regra.
É nascido e criado no Faial, de miúdo jogou no Atlético e um ano em Seniores, passou momentaneamente pelo União Vulcânico e pelo FC Flamengos, esteve alguns anos no GD Feteira e terminou a carreira aos 29 anos, com a camisola do AAC vestida.
Quase nem deu tempo para arrefecer já que no ano seguinte se encontrava no grupo de Veteranos. Aliás, Francisco Rosa lembra que foi depois de uma homenagem feita por uma antiga direção do AAC a uma equipa que tinha vencido tudo o que havia para vencer, na Associação de Futebol da Horta, que surgiu um grupo de Veteranos mais consistente. “A partir dai foram-se juntando mais pessoas e começou uma atividade regular. Desde o início estou eu, o Djalme, o Natalino e o Víctor Soares”, lembra o guarda-redes que nunca gostou de ser guarda-redes mas que pela mão de Roberto Serpa lá chegou e acabou por ficar.
Claro que as deslocações são sempre positivas, mas Rosa mencionou algo que não deixa de ser relevante: “somos todos adultos, há dias que estamos menos bem e até discutimos uns com os outros. No treino seguinte chegamos aqui e parece que nem aconteceu nada. Absorve-se e no outro dia nem à problema”. Ora muitos falam na capacidade do desporto – não só o futebol – facilitar a criação de personalidade, superação e resiliência face às mais diversas situações da vida. Pois Francisco confirmou isso mesmo, essa habilidade de separar as coisas e ultrapassar pequenos dramas da vida ganha-se fora de casa, em grupo, e aqui vemos isso.

Veteranos anfitriões de Torneio

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No próximo mês de abril a AVAAC traz ao Faial duas congéneres de Portugal Continental que tiveram oportunidade de visitar num passado recente e uma que estão para visitar: AD Paredes do Bairro (Anadia), Estômbarenses (Faro) e o Ribeira D’Oura (Vidago). O Torneio, que como se espera será um grande momento de convívio e nem tanto uma luta acérrima pela vitória dentro de campo, decorrerá de 30 de abril a 3 de maio deste ano.
Horácio diz que há por norma convites “às equipas que nos recebem”. Mesmo alertando que “não deixa de ser complicado albergar três equipas” sabe que é uma sorte organizar um evento desta dimensão no meio do Atlântico.
Nada melhor que unir o futebol paixão aos amigos.
Que venha a festa!

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