Histórias de Vida | Mestre Manuel Humberto Neves: “O salto maior foi a passagem das lanchas de madeira para os ‘Cruzeiros’ de ferro”

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Nascido no Pico, em 1958, Manuel Humberto Neves já cresceu navegador. Ainda menino rumou ao Faial, fez a Escola de Pesca e tornou-se marinheiro. Seguiram-se décadas de serviço ao Canal, primeiro nas lanchas de madeira e, a partir de 1986, nos modernos “Cruzeiros”.
Aos comandos da Espalamaca, da Calheta e da Velas, fez frente ao mar tumultuoso para evacuar doentes do Pico, numa época em que os melhores instrumentos de navegação eram a cabeça e os olhos do homem do leme.
Já reformado, não dispensa uma visita diária ao Terminal Marítimo da Horta, para observar o movimento e conversar com os companheiros que se mantêm no ativo. Acompanha a evolução do transporte marítimo de passageiros e viaturas, e preocupa-se com a preservação da sua história, desejando, por exemplo, ver a sua Espalamaca no mar.
Ao Tribuna das Ilhas, recordou o seu percurso enquanto marítimo, e as aventuras que viveu.

 

Tribuna das Ilhas (TI) – O mar está presente na sua vida desde sempre. Após concluir a escola primária, veio do Pico para o Faial, para a Escola de Pesca. Que sentimentos recorda desse tempo em que, ainda um menino, teve de deixar o lar para rumar a outra ilha?
Manuel Humberto

(MH) – Na altura foi difícil porque tinha feito a escola primária e tive de vir para a Casa de Pescadores que era a Escola de Pesca aqui na Horta, em 1970. Eu tinha 12 anos. O curso era mais ou menos de dois anos, saí com 14 anos.
Quando saí da Prainha, vim para a Horta porque a vida obrigou-me a isso. O meu pai deu-lhe uma trombose. Na altura eu só tinha meses. E a vida era muito difícil naquele tempo. O meu pai tinha 43 anos quando ficou doente. Eu tinha duas irmãs mais velhas; elas tinham uma diferença de mim de 20 e tal anos: uma casou na Horta, e outra foi para Moçambique e a minha mãe estava sozinha comigo e com o meu pai. Eu para as terras não me ia virar com aquela idade, então abriu-se essa oportunidade aqui na Horta e eu vim, mais dois ou três rapazes da minha freguesia.
Quando vim para a Casa dos Pescadores, comecei a andar logo ali de roda das lanchas do Pico. Era um rapazinho, gostava do mar e andava sempre de roda das lanchas e dos mestres; da Calheta, da Espalamaca, da Velas…
Eles viam e diziam: “este miúdo é espertinho, vem lá da Prainha do Pico, mas é espertinho.” Andava sempre com eles. Quando tinha um bocadinho, quando saía das aulas ou ao fim de semana, metia-me nas lanchas e ia com eles ao Pico, à Prainha, a São Mateus, nas viagens que se faziam.
Quando acabou o curso, tive de ir a bordo de uma traineira seis meses. Ainda não tinha acabado a época do atum. Um dia estava mau tempo, o barco estava encostado, estava em terra, e eu apareci junto das lanchas e eles disseram: “Ó rapazinho! Tu não querias vir para as lanchas?”, e eu disse que sim.
O Sr. Quaresma e o seu filho que está na América reuniram com os diretores na altura e disseram: “a gente havia de tentar pôr aquele rapazinho aqui. Ele é muito esperto, anda aqui de roda de nós há um ano ou dois e o pai é uma pessoa aleijada; devíamos tentar pôr o rapazinho de marinheiro.”
Foi aí que começou o meu caminho nas lanchas do Pico, primeiro na Velas.

TI – Como foi sair e estar longe de casa e da família?
MH – Foi difícil. A minha mãe ficou para lá sozinha com o meu pai. Mas mais tarde, depois de já estar a trabalhar, consegui trazê-los para cá.

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TI – Com 14 anos, tornou-se marinheiro nas “Lanchas do Pico”. O que recorda desse tempo?
MH – Muitas recordações, umas boas, outras menos boas… Eu gostava muito daquilo. Fiquei feliz. Mas naqueles tempos era muito difícil. Fui marinheiro durante cerca de sete anos. Comecei com 14 anos, e depois, aos 21, tirei carta de Mestre. Mas daí até chegar a Mestre, tive vários anos de marinheiro.
Naqueles anos era muito difícil. Não havia portos. O da Madalena, antigamente, era naquele buraquinho. Quando o mar estava mau de noroeste ia-se para a Prainha do Sul, para São Mateus, para todo o lado. Quando chegávamos ao cais para ir trabalhar as pessoas diziam: “olha a lancha hoje não vai à Madalena, vai para o Calhau.” O Mestre dizia: “Rapazinho! – como era o mais novinho – Vai ali à rampa e enche dois baldes de areia.” Eu ia, mas no primeiro dia fiquei a pensar para que seria a areia, porque ele não disse. Era na altura o Mestre Feijó. Eu venho com os baldes de areia e perguntei: “Ó Mestre! Para que são estes baldes de areia?” E ele disse: “A areia é para quando chegarmos ao Pico, a escaleira vai estar verde com limos e tem de se pôr areia para saltar para cima e não escorregar e ajudarmos os passageiros.”
De inverno, o Pico cheio de neve e frio e quase a chegar ao porto os mestres chamavam por nós, mais novatos, e diziam: “Toca a descalçar os sapatinhos e a arregaçar as calças.” Pronto, eles já estavam a ver que o mar lá dentro estava mau, e já nos mandavam preparar para quando chegássemos ao porto ajudar a desembarcar as pessoas.
Na Prainha do Sul tenho várias histórias, se fosse para contar todas um dia inteiro aqui sentado não dava. Foram 40 anos que andei no mar e nunca enjoei.

TI – Conhecia as lanchas Calheta e Espalamaca como as próprias mãos, e foi o Mestre que trouxe os “Cruzeiros” do estaleiro, na segunda metade da década de 80. Foi uma grande mudança?
MH – Para mim foi uma grande mudança. Acabámos de falar que nós fazíamos estas viagens em lanchinhas de madeira, sem portos. Nós, nas lanchinhas, naquela altura não tínhamos muitas condições. Quando apareceram os cruzeiros, na minha opinião, esse foi o maior salto. É claro que não há dúvidas nenhumas de que as atuais são grandes embarcações com enormes condições de segurança e conforto. Mas o salto maior foi a passagem das lanchas de madeira para os cruzeiros de ferro.
Naqueles anos nós não tínhamos condições, não tínhamos segurança, não tínhamos nada. Quando os cruzeiros chegaram, em 1986, já tinham uma grande segurança de navegabilidade, tinham e têm, continuam a ter grande segurança, são barcos de duas máquinas, barcos de aço. Quando fazíamos viagens más com a Espalamaca, a Calheta ou a Velas, andávamos sempre foge daqui, foge dali, para evitar muita pancada. Eram lanchas de madeira e já com alguns anos e tínhamos de ter cuidado. Com os cruzeiros deu-se um salto: assentos estofados, rebatíveis, era muito diferente, para nós, mas principalmente para os passageiros. Ainda fiz muitas viagens com o Cruzeiro a São Miguel e às Flores, com excursões: íamos à Festa do Emigrante nas Flores, ao Santo Cristo a São Miguel…

TI – Como viu a chegada dos novos ferries à Região?
MH – Isso foi uma grande evolução para os passageiros, principalmente ao nível do transporte de viaturas entre as ilhas. O transporte de carros deu aqui um salto enorme. Já havia uma pequena ideia. O Cruzeiro das Ilhas, quando veio, transportava carros, há muita gente que já se esqueceu. Tinha uma grua e à ré transportava cinco carros pequenos bem arrumadinhos.
Estes ferries foram uma evolução, e se calhar nos próximos tempos já não vão servir. Este verão tem sido uma enchente no transporte de viaturas em todas as viagens, praticamente.

TI – O Mestre ainda acompanha a atividade dos barcos. Tem saudades?
MH – Todos os dias vou ao terminal. Não sei andar em mais sítio nenhum. Quando venho para a cidade – eu moro em Pedro Miguel -, não vou a mais lado nenhum sem ir ao cais. Primeiro é aquele hábito, depois tenho uns colegas ali que trabalharam comigo, tem marinheiros, tem quatro rapazes, três que eram marinheiros e quando eu saí passaram a mestres. É tudo gente que trabalhou comigo e me chama a atenção. Eu converso com eles, eles conversam comigo. Trocam-se algumas impressões, quando pedem. Já fiz manobras com um dos barcos. Manobram muito bem, são barcos que tem aparelhagens boas, uma capacidade grande de manobra.

TI – Navegou por todas as ilhas dos Açores, muitas vezes em condições tempestuosas. Que peripécias recorda com mais nitidez?
MH – Tenho várias, mas quando foi o sismo de 80 em São Jorge, aquilo ficou um bocado mau e teve de se evacuar pessoas aqui para a Horta, feridos também. O salva-vidas aqui da Horta foi a São Jorge e a Espalamaca também foi. Eu é que fui de Mestre. A certa altura, isto já de noite, o salva-vidas vinha para o Faial e trazia um médico. Estava já aqui perto do Pico, mas estava mau tempo, estava um bocado fresco e recebo um comunicado, a perguntar qual era a hipótese de fazer um transbordo a meio do mar de um médico para a Espalamaca para este retornar a São Jorge.
Eu falei com o patrão do salva-vidas, na altura era o Patrão Manuel Espínola. Ele disse que estava um bocado mau, como é que íamos fazer isso? Eu disse: “vamos tentar fazer isso, mas vamos encostar-nos mais para a costa do Pico”. O vento era sudoeste, forte. “Vamos encostar o que puder lá para dentro para a costa e vamos tentar. O senhor vai parar o salva-vidas de popa para o vento e eu vou tentar fazer a manobra com a Espalamaca. Vamos ver. O homem tem de estar de colete vestido e preparado, vou pôr dois marinheiros na borda a ver se conseguimos fazer”. E conseguimos; à segunda tentativa conseguimos pôr o homem na Espalamaca.

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TI – Alguma vez temeu pela sua vida durante essas viagens e no exercício da sua profissão?
MH – Não. Mas houve duas duas vezes que eu vi que podia haver azar. Uma foi na entrada na Madalena com o Cruzeiro com muito mau tempo. Uma ondulação muito alta, ali perto da altura do Natal. Outra foi uma viagem que fizemos de Aveiro, em que apanhámos um temporal. Tínhamos ido com o navio fazer a manutenção, eu e o comandante Ruben, que era aqui do Faial, que já faleceu.
Correu muito bem, mas podia ter corrido muito mal. Só até Ponta Delgada, levámos cinco dias para estar à abrigada, e tivemos lá mais três, só chegamos à Horta ao fim de oito dias, uma viagem que se faz em três dias e umas horas, como hoje os ferries fazem.

TI – Qual era a sua maior preocupação e receio quando ia para o mar?
MH – Há duas coisas distintas: primeiro, em manobras nos portos. Na altura os barcos não tinham as grandes condições de manobras que estes têm hoje, que são os impulsores de proa que os Cruzeiros nunca tiveram. Se tivessem, também manobravam bem. Nós trabalhávamos muito com a força dos ventos. Depois, lá fora, quando está mau a sério, é a ondulação, que quando está forte requer muita atenção.

TI – O papel do transporte marítimo no Canal como apoio ao setor da Saúde era, no seu tempo, ainda mais importante do que hoje. Fale-nos um pouco dessa componente do trabalho, em que se faziam ao mar muitas vezes em perigo para ir ao Pico trazer doentes para o Faial.
MH – Isso era muito difícil. Naquele tempo transportava-se os doentes em más condições. Não havia outras melhores. Mas estamos a falar do tempo ainda das lanchas, porque nos cruzeiros já melhorou muito. Nas lanchas, os doentes que evacuávamos vinham na salinha da ré e a qualquer hora do dia ou da noite, à hora que éramos chamados. Eu cheguei a vir para casa e ser chamado logo a seguir. Aliás, houve uma época em que era quase só eu a transportar os doentes, pois tinha feito um acordo com os outros mestres, que tinham outros trabalhos e eu não tinha. Íamos buscar os doentes ao porto da Madalena antigo e, quando estava mau, íamos à Prainha e isso era um martírio para a pessoa que vinha doente pois era uma viagem de uma hora e tal a duas horas. As macas entravam na salinha, havia uns bancos sobre o comprido e nós colocámos uns barrotes de madeira em cima para se ver a maca e para ela não vir no chão pois naquelas lanchas a água entrava frequentemente. As condições de transporte deixavam muito a desejar e como muitas vezes os doentes vinham em macas antigas, de lona, queixavam-se da madeira dos barrotes que lhes trincava as costas. Isto para não falar das condições da própria viagem, viagens às vezes de noite, com muito mar e com embarcações que não tinham as condições de navegabilidade e de segurança de navegação: era uma navegação “a olho” – só se tinha a bússola e mais nada. Não havia nem GPS, nem radar nem nada: o radar era a cabecinha e os olhinhos.

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TI – Nessas noites de mau tempo como sabia o rumo?
MH – Era tudo feito pela bússola. Quando víamos costa, com a nossa experiência sabíamos orientar-nos. Mas em noites de chuva e trovoada, em que não víamos terra, tínhamos de navegar mais longe da costa para não haver azares. Era complicado. Mas tarde, quando se introduziram na Espalamaca e na Calheta os radares, isso tornou as viagens mais fáceis para os mestres.

TI – Qual a sua opinião sobre a recuperação que se está a fazer da Espalamaca?
MH – Eu acho que tudo isso devia ter sido mais bem pensado. Na altura, deixou-se degradar aquilo até ao fim. Depois, pensou-se em fazer a recuperação – o mestre João Alberto, e muito bem, fez a reparação, que eu acompanhei por várias vezes, quando fui a Santo Amaro. Está uma embarcação praticamente construída de novo, e muito bem construída. Mas fico triste porque acho que ela vai tornar a degradar-se. A Associação dos Amigos do Canal é que estava à frente do processo, mas com o falecimento do Mestre João o processo parou um bocado e eu não estou a ver qual é a maneira de se pôr aquilo a funcionar.
Aquela embarcação, se tivesse sido bem pensada na altura, podia fazer turismo aqui. Não é para uma carreira regular de passageiros, mas dar voltas às ilhas do Triângulo, e, ao mesmo tempo, não se deixava morrer a História, um pouco como se fez com os botes baleeiros.
Com as embarcações é assim: elas são feitas para andar no mar. Pôr uma embarcação em terra, a apanhar sol e chuva não há hipótese: ou são resguardadas dentro de um armazém ou então não há hipótese – em três anos degradam-se. E eu ainda há pouco tempo falei com algumas pessoas e nenhuma me deu a esperança de que isto agora vai caminhar.

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TI – Gostava de vê-la novamente no mar?
MH – Pouco tempo antes do Mestre João morrer ele chamou-me lá para dar uma ideia sobre uma zona da casa da máquina, e eu estive lá a conversar com ele e ele disse-me: “isto vai andar e aguenta-te aí porque é que tens que vir aqui buscá-la”. Mas agora estou a ver isto um pouco escuro. Se o Governo ou alguém não deitar a mão àquilo, não estou a ver. É que ainda falta muita coisa para ela poder voltar a trabalhar: classificações, vistorias, não tem os motores dentro… As pessoas vêem-na assim por fora mas ainda está a faltar muitas coisas para que possa funcionar.

TI – Se o chamassem novamente para ir para o mar, ia? Sente-se com força e energia para isso?
MH – Isto já não está como era. Mas trabalhar efetivo já não quero. Agora fazer uma viagenzinha para experimentar eu proponho-me bem a isso e até me propunha a entrar num porto com uma aguinha. Também fazia ainda.

TI – Por que razão não dispensa as suas caminhadas matinais?
MH – Depois de me aposentar passei a ter muito pouca atividade. Não sou pessoa de trabalhar a terra nem nada disso. É o mar, quando está bom, para me distrair para apanhar um peixinho, ou então, quando me dá aquela fervura, lá vou mais eles dar um passeio, mas não tenho grande atividade. Por isso, da parte da manhã nunca dispenso os meus passeios: se os não fizer, o dia vai estar mau. E é só de manhã! Levanto-me e já tenho dentro de mim o propósito de fazer a minha caminhada. Só depois faço o resto do meu serviço.

TI – Nascido no Pico, estabelecido no Faial e com 40 anos de vida profissional no mar dos Açores, diz-se hoje um picaroto ou um homem do Canal?
MH – Eu quase diria um homem do Canal. Picaroto sou sempre porque é o meu local de nascimento, mas assumo-me mais como um homem do Canal, no sentido de ser homem destas duas ilhas pois grande parte da minha vida tem sido já aqui na Horta.

 

Nome completo:
Manuel Humberto Neves
Data de nascimento:
26 de fevereiro de 1958
Naturalidade:
São Roque do Pico
Estado civil: Divorciado
Filhos e netos:
Cinco filhos e quatro netos
Desporto preferido:
Futebol
Clube do seu coração:
Sport Lisboa e Benfica
Filme de que mais gostou:
Não sou muito de filmes, mas gostei muito de “O Pátio das cantigas” e da frase que me ficou “Ó Evaristo, tens cá disto?”
Livro preferido:
Livros sobre navegação
Música preferida:
Música portuguesa
Animal de estimação:
Cão
Flor que mais gosta:
Girassol
Virtude que mais aprecia:
Sinceridade
Defeito que mais o incomoda:
Mentira
Personagem histórica que mais admira
Vasco da Gama
Personagem histórica que mais detesta:
Putin

 

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