Início Edição Impressa Histórias de Vida | Profª. Luísa Santos: “Os Jogos Desportivos ...

Histórias de Vida | Profª. Luísa Santos: “Os Jogos Desportivos Escolares foi o projeto que maior satisfação me deu”

0
82

Acabada de se profissionalizar no ensino da Educação Física, já com duas filhas pequenas e perante a incerteza das colocações, a professora Luísa Santos e família decidem fazer as malas e vir para o Faial, onde a estabilidade profissional lhes garantia manter a família junta.

As dificuldades iniciais foram ultrapassadas e depressa a família concluiu que essa tinha sido a sua melhor opção de vida. Depressa a competência, jovialidade e espírito de iniciativa tornaram Luísa Santos querida e admirada na escola e na
comunidade.

Nas Histórias de Vida, ela recorda a sua infância, em Angola, onde imperou a liberdade que tinha de “brincar no nosso quintal, nos quintais dos nossos tios e vizinhos, na rua, num bairro onde raramente passavam carros.”

Depressa ganhou nesse ambiente as “experiências motoras” que a tornaram apta para a prática desportiva. E foi também em Angola que começou a sonhar ser um dia jogadora de basquetebol como as que via atuar no Sporting Clube de Novo Redondo. Daí a cursar Educação Física foi rápido e cumpriu a sua vocação não só de praticar desporto, mas, ao mesmo tempo, “lidar com crianças e jovens”.

No Faial exerceu responsabilidades de gestão administrativa e pedagógica na então Escola Preparatória da Horta e coordenou muitos projetos, dos quais a
participação nos Jogos Desportivos Escolares terá sido aquele que mais satisfação lhe trouxe, e foi uma das responsáveis pela introdução de classes de Ginástica Artística que grande sucesso tiveram entre nós.

Desempenhou ainda muitos cargos ligados à Coordenação da Educação Física e do Desporto nas ilhas do Faial, Pico, Flores, Corvo, S. Jorge e Terceira, nos quais
deixou a marca do seu dinamismo.

Teve ainda a oportunidade de desempenhar o cargo de deputada eleita pelos Açores na Assembleia da República, entre os anos de 2009 e 2011, “uma aprendizagem ímpar que durou apenas um ano e meio”.

O Tribuna das Ilhas conversou com Maria Luísa de Jesus Silva Vilhena Roberto Santos, uma professora que fez do desporto a sua vida, seguindo a sua máxima “sê tu próprio.”

Tribuna das Ilhas (TI) – É natural de Angola. De que localidade? Como foram os tempos da sua meninice numa Angola que era colónia de Portugal?
Luísa Santos (LS) – Nasci numa cidade pequena, no litoral de Angola de nome Novo Redondo, capital do distrito do Quanza-Sul. Depois da independência mudou de nome e hoje tem a designação de Sumbe.
A minha infância foi toda ela passada a brincar no nosso quintal, nos quintais dos nossos tios e vizinhos, na rua, num bairro onde raramente passavam carros. Na escola primária só tínhamos aulas de manhã e as tardes eram reservadas para a brincadeira. O clima propiciava as brincadeiras que incluíam rapazes e raparigas, saltávamos à corda (com concursos), fazíamos jogos com bola, trepávamos árvores, jogávamos ao ring (mata), fazíamos corridas na rua, andávamos de bicicleta. Aos fins-de-semana íamos à matinée ou aos jogos de basquetebol da equipa sénior feminina do Sporting Clube de Novo Redondo.

TI – Licenciou-se em Educação Física e Desporto. Como surgiu essa vocação?
LS – Desde miúda que adorava ver os jogos da equipa sénior de basquetebol e pensava que gostaria de saber jogar como elas.
Quando tinha 12 anos de idade, por razões profissionais do meu pai, fomos viver para Almada (na “Metrópole”) e lá ficámos 3 anos.
A vocação surgiu naturalmente. Penso que a diversidade de experiências motoras que vivenciei até aos 12 anos, permitiu adaptar-me com facilidade à variedade de desportos que se praticavam na escola que frequentava, no âmbito da disciplina de Ginástica (assim era a designação da disciplina de Educação Física). Para além disso, integrei a seleção da escola em campeonatos escolares. Com todo este envolvimento, e tendo como referência a professora de Ginástica que mais me marcou, cedo comecei a pensar que era isto que queria fazer. Quando regressámos a Angola, tinha eu 15 anos, comecei a jogar Basquetebol no Sporting Clube de Novo Redondo, até ir para Luanda tirar o curso de Educação Física. Profissionalmente consegui aliar a prática do desporto com o facto de gostar de lidar com crianças e jovens.

TI – Em que contexto acontece a sua vinda para a ilha do Faial?
LS –Depois de fazer a Profissionalização em Exercício no biénio 80/82, teria de concorrer a um lugar num quadro de escola e corria o risco de ficar separada do meu marido e das minhas filhas. Ora, com 2 crianças de 3 e 6 anos, tal situação era impensável pelo que optamos por dar uma volta na nossa vida familiar e concorrer para um lugar onde teríamos a certeza de manter a família junta.
Não conhecíamos os Açores. Mantínhamos um contato com o Faial através do Carlos Santos que tinha sido treinador de atletismo em Novo Redondo, cuja família ficámos a conhecer e que nos incentivou a vir para a Horta, onde havia falta de professores de Educação Física. Fizemos as malas e mudámos de vida.

TI – Como foi o seu processo de adaptação ao Faial?
LS – Inicialmente não foi muito fácil. Com duas filhas pequenas, preocupava-me a adaptação às respetivas escolas, novos ambientes, novos amiguinhos. Mas foi tudo normalizando e ao longo do tempo fomos percebendo que a mudança foi a melhor opção. Havia mais tempo livre para estarmos com elas e para realizar outros projetos profissionais.

TI – A sua competência profissional tornou-se rapidamente notada na ex-escola preparatória da Horta, onde exerceu o cargo de Presidente do Conselho Diretivo e do Conselho Pedagógico. Que memórias guarda desse tempo de docente e de gestora de uma escola?
LS –Profissionalmente foi excelente e guardo muito boas recordações das iniciativas e projetos desenvolvidos. Sempre a pensar nos alunos, nas aprendizagens e nas novas experiências que era possível proporcionar a todos eles.
Para além das aulas curriculares de Educação Física, que ministrávamos em instalações adaptadas, destaco os encontros desportivos com as escolas do Pico; o Projeto Itália 90, uma atividade proposta pelo Grupo de Educação Física ao Conselho Pedagógico e desenvolvida durante dois anos letivos, que teve como objetivo principal, a participação de duas equipas da escola, rapazes e raparigas, num torneio de Andebol em Teramo, Itália. Foi muito bem aceite por toda a comunidade escolar e nela participaram docentes, funcionários, pais, encarregados de educação, empresas locais e, obviamente, a Secretaria Regional de Educação e Cultura. Foi um projeto muito ambicioso, que resultou numa grande experiência para todos os alunos que nele participaram. Ainda hoje se fala nele.
A participação anual da escola nos Jogos Desportivos Escolares desde 1989, o ambiente interdisciplinar que se criou à volta desta atividade do Desporto Escolar, o empenho, a dedicação, a prestação não só ao nível desportivo, mas sobretudo social dos alunos, a alegria nas deslocações, fizeram deste projeto, provavelmente, o mais aliciante e completo que alguma vez se realizou.
Como presidente dos Conselhos Diretivo e Pedagógico, foi um desafio gerir a escola ao nível administrativo, pedagógico e financeiro. Foram muitas horas de trabalho para além do horário normal. Tinha um bom grupo de trabalho e professores motivados. Abrimos a escola à comunidade e demos a conhecer os projetos que desenvolvemos em todas as áreas curriculares.

TI – A Prof. Luísa Santos ficou ainda na memória dos faialenses pela criação de uma classe de ginástica, que ganhou grande simpatia e apreço da comunidade. Como surgiu esse projeto e como terminou?
LS –Foi um projeto aliciante e desafiador pois abarcou pessoas de todas as idades.
Na Ginástica Artística tivemos classes de crianças desde os 5 anos de idade, num total 80 praticantes, hoje, mulheres e homens na casa dos 40 a 55 anos de idade. A evolução foi tal que quando demos conta estávamos a participar nos campeonatos regionais e nacionais e realizávamos estágios nas férias escolares com técnicos credenciados na Ginástica Artística. Para além dos treinos e mais tarde das competições, as (os) ginastas empenhavam-se na preparação e realização do sarau no final do ano. Este projeto surgiu no Fayal Sport Club no início dos anos 80, tendo passado para o Clube Regional de Ginástica. Terminou em 1998 com a minha ida para a ilha Terceira.
Na então designada Ginástica de Manutenção, foi um grande prazer trabalhar desde 1982 com o grupo das “minhas senhoras”, muito interessadas e persistentes, nas quais, constato hoje, ficou “o bichinho” da prática regular de uma atividade física. Guardo as melhores recordações desse tempo.

TI – Desempenhou também muitos cargos ligados à Coordenação da Educação Física e do Desporto na ilha do Faial, Pico, Flores, Corvo, S. Jorge e Terceira. Dessa sua experiência há alguns projetos que tenha implementado e que lhe tenham deixado gratas recordações? Quais?
LS – Desempenhei a função de Coordenadora da Educação Física e do Desporto Escolar, do 1º ciclo ao ensino secundário nas ilhas do Faial, Pico, Flores, Corvo e S. Jorge e mais tarde com a minha ida para a Terceira, a coordenação dessa ilha.
Recordo com muita satisfação a formação dada aos professores do 1º ciclo, para que a Educação e Expressão Físico-Motora se tornassem uma realidade nas escolas. Tive o privilégio de trabalhar com uma excelente equipa de professores do 1º ciclo destacados como coordenadores de Educação Física neste ciclo de ensino. Estive também envolvida no processo de licenciatura para os coordenadores de Educação Física no 1º ciclo dos Açores, ministrado pela Escola Superior de Educação de Lisboa.
Os Jogos Desportivos Escolares, para mim o projeto-rei, o que maior satisfação me deu ao participar, no âmbito das funções que desempenhava, na criação, implementação, organização e realização. Foi muito gratificante perceber o interesse, o entusiasmo que as escolas punham na participação e organização das fases locais, zonais e regionais.

TI – Entre outubro de 2009 e junho de 2011, na XI legislatura, exerceu o cargo de deputada eleita pelos Açores na Assembleia da República. Como se adaptou ao exercício de tal cargo político? O que mais gostou e o que mais a dececionou?
LS –Estive sempre disponível para abraçar novos desafios, desde que os mesmos fossem enriquecedores do ponto de vista pessoal e profissional e que de alguma forma contribuíssem para a nossa comunidade.
Em julho de 2009 surgiu o convite do PS para integrar a lista de candidatos pelos Açores à Assembleia da República. Não estava à espera que tal acontecesse. Depois de conversar com a minha família e ouvir a opinião de alguns amigos aceitei o desafio de entender melhor o funcionamento da Casa da Democracia.
A adaptação não foi fácil. Não tinha muita cultura política, mas trabalhei muito e fui-me sentindo cada vez mais à vontade nas intervenções que fazia nas comissões parlamentares, nos grupos de trabalho e até no plenário.
Do que mais me dececionou não vou falar, mas do que mais gostei foi sem dúvida o trabalho de bastidores, as audiências com associações, individualidades e entidades da nossa sociedade que eram ouvidas nas comissões parlamentares e nos grupos de trabalho em que participei, de análise e preparação dos diversos projetos para posterior debate no Plenário e o contato com deputados dos vários partidos, pessoas com grande capacidade de trabalho, inteligência e defensores da causa pública.
Foi uma aprendizagem ímpar que durou apenas um ano e meio, uma vez que a XI legislatura terminou com a queda do governo da República.

Bilhete de Identidade

Nome completo
Maria Luísa de Jesus Silva Vilhena Roberto Santos

Data de nascimento
5 de maio de 1955

Naturalidade
Novo Redondo – Quanza Sul – Angola

Estado civil
Casada

Filhos e netos
Filhas: Rute e Nádia; Netos: Catarina e Rafael

Desporto preferido
Ginástica e Basquetebol

Clube do seu coração
Sport Lisboa e Benfica

Filme que mais gostou
“África Minha” com Robert Redford e Meryl Streep.

Livro preferido
Vários livros têm marcado a minha vida. Em vez de um, cito dois: “Viver para Contá-la” de Gabriel Garcia Márquez e “A Um Deus Desconhecido” de John Steinbeck.

Música preferida
Gosto de Música!!

Animal de Estimação
Cão

Flor que mais gosta
Buganvília

Virtude que mais aprecia
Honestidade

Defeito que mais a incomoda
Arrogância

Personagem histórica que mais admira Nelson Mandela e mais recentemente o Papa Francisco

Personagem histórica que mais detesta
Adolf Hitler

Lema de vida
“Sê tu próprio”.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!