Em todo o mundo, cada vez mais se caminha, pedala ou circula em trotinetes com o cabelo ao vento, parando para conversar, fazendo exercício e amigos ao mesmo tempo. Todos os anos, no final de Setembro, a Europa relembra-nos: as cidades foram feitas para as pessoas, não para os carros. O futuro urbano é silencioso, limpo e humano — mas, para isso, é preciso coragem política.

Na Horta, já vemos sinais positivos: bicicletas e trotinetes começam a surgir, sobretudo entre os mais jovens, libertando estacionamento e aliviando o trânsito. Passear na baía de Porto Pim ou no paredão da marina é das experiências mais bonitas que a nossa cidade pode oferecer, permitindo conversar, descobrir detalhes e cuidar da saúde. Com passeios mais largos, ciclovias seguras, sombra e bancos para descansar, andar a pé pode tornar-se mais agradável do que ir de carro.
Podemos ir mais longe, transformando ruas estreitas ou pouco usadas em espaços vivos: um passeio arborizado, uma esplanada no caminho para o trabalho ou um parque de bicicletas junto ao centro histórico. Pequenos investimentos podem criar percursos pedonais contínuos, incentivar o uso de transportes públicos e tornar a cidade mais acolhedora e dinâmica.
Lá fora, muitas cidades mostram o caminho. San Sebastián transformou o centro histórico em área pedonal e tornou-se um ponto de encontro para residentes e visitantes. O Funchal lançou autocarros elétricos que já fazem parte da identidade urbana. E Copenhaga prova que, mesmo com chuva, 62% da população vai trabalhar de bicicleta — mostrando que a mobilidade suave é sinónimo de saúde, liberdade e felicidade.
Infelizmente, também temos desafios. Há ruas na Horta com índices de poluição que se aproximam dos grandes centros urbanos. O excesso de carros gera congestionamento, stress, sedentarismo e isolamento. A solução não é apenas tecnológica, é cultural: criar cidades em que se possa viver bem sem automóvel. Na ilha do Faial existem quase dois carros por habitante. É insustentável e precisamos inverter esta tendência.
Há ainda absurdos visíveis: estradas com dez metros de largura, todas em alcatrão, sem um passeio sequer. Espaço a mais para o automóvel e para mais nada. O resultado é claro: o peão é empurrado para a berma, o ciclista para o risco e o transporte público perde competitividade. O caminho só pode ser um: reduzir o espaço do carro e permitir outras formas de transporte.
Falta também apostar a sério nos transportes públicos: mais regulares, mais rápidos, com uma campanha que lhes dê a aura de modernidade e confiança que merecem. Andar de autocarro devia ser uma opção de prestígio, não um recurso de último caso.
Quando o carro está à porta, é raro sairmos a pé. É como ter legumes frescos à mão e escolher comer fast food, mais fácil, mas pior para a nossa saúde e para a saúde da cidade.
Se quisermos, a Horta pode liderar nos Açores esta transformação. A mobilidade suave não é apenas transporte: é qualidade de vida, saúde pública e justiça social. Quanto mais depressa libertarmos espaço e o entregarmos às pessoas, mais aberta será a nossa cidade e mais risonho o futuro dos nossos filhos e netos!















