Há exatamente um ano escrevi que “A Semana do Mar nasceu para celebrar quem somos e o lugar onde vivemos… com ambição, podemos (…) criar um evento que una gerações, envolva toda a cidade e mostre ao mundo…”
Passado um ano, continuo convencido de que esse é o caminho. Infelizmente, também continuo convencido de que estamos a afastar-nos dele.

Há muitas coisas que devem ser repensadas. O concurso da Rainha da Semana do Mar é um exemplo disso. Continua assente na eleição de uma mulher com base na elegância, no charme e na beleza. Este ano, a vencedora é menor de idade, o que torna esta ideia presa a uma visão muito redutora do papel da mulher ainda mais difícil de justificar. Não se trata de desvalorizar quem participa, mas este concurso, criado em 2013 por inspiração das Sanjoaninas, está totalmente desajustado aos dias de hoje. Curiosamente, não há problema nenhum em inspirarmo-nos noutras festas. A própria procissão marítima de Nossa Senhora da Guia nasceu da adaptação de uma tradição que existe em muitas comunidades marítimas pelo mundo e tornou-se um dos momentos mais marcantes da nossa Semana do Mar. Inspirarmo-nos no que os outros fazem bem nunca foi o problema. Temos regatas. Temos torneios aquáticos. Temos a travessia do canal a nado. Temos provas náuticas. São momentos únicos, mas sem enquadramento nem ligação tornam-se iguais a muitos outros pelo mundo fora. Neste momento nada parece fazer parte da mesma festa. São eventos que acontecem na mesma semana, mas raramente se cruzam.
Quem passa o dia junto às provas náuticas nem sempre acaba no recinto. Quem passa a noite no recinto muitas vezes nem sabe o que aconteceu no mar durante a tarde. Falta uma visão que una tudo isto. Uma Semana do Mar não pode ser apenas um recinto com concertos, bares e petiscos, enquanto as atividades que realmente justificam o seu nome decorrem como um programa paralelo. Para os jovens, parece que basta oferecer DJs e álcool. Para os mais velhos, concertos e álcool. Claro que também há petiscos. Mas isso existe em dezenas de festas populares. Não é isso que distingue o Faial. O que distingue o Faial é o mar.
Nós já temos todos os ingredientes. Não precisamos de os inventar. Precisamos de os ligar. Imaginem que a chegada de uma regata fosse recebida pelo recinto cheio. Que os participantes nas provas fossem apresentados no palco principal. Que a procissão marítima fosse promovida como um dos momentos altos da semana. Que os clubes náuticos, as associações, os pescadores, os navegadores e os comerciantes trabalhassem como parte de um mesmo projeto. A Semana do Mar deixaria de ser uma sucessão de eventos para voltar a ser uma experiência.
Também por isso o atual recinto no parque da alagoa parece perder capacidade de atração. Cada vez menos pessoas fazem dele um ponto de encontro obrigatório. Cada vez menos açorianos atravessam o canal para viver uma semana que, durante décadas, foi uma referência. A festa foi-se tornando semelhante a tantas outras. Talvez isso seja suficiente para cumprir calendário. Talvez até dê votos. Mas não cria identidade. Não desperta orgulho. Não faz ninguém viajar de propósito para viver algo que só pode acontecer no Faial. Ainda vamos a tempo de recuperar essa ambição. Porque o problema nunca foi a falta de mar. O problema é que deixámos de fazer do mar o centro da festa.
















