O lugar do Monte está de parabéns, a sua Irmandade de Santo António do Monte completou 110 anos de vida.
Esta Irmandade tem sua sede no Monte, freguesia da Candelária, concelho da Madalena do Pico e foi legalmente instituída há precisamente 110 anos, conforme se pode constatar na sua acta da Sessão de Instalação, “…No dia tres do mez de agosto de mil nove centos e dois se reuniu pelas seis horas da tarde na casa denominada O Oratorio, no logar do Monte da freguesia da Candelaria da ilha do Pico, a Irmandade de Santo António do Monte para o fim de proceder á sua legal instalação visto haverem já sido aprovados pela autoridade competente os estatutos d’esta Irmandade…”, “…Sendo pois de cincoenta eoito o numero dos Irmãos instituidores d’esta Irmandade…”.
Após a sua legal instituição e admissão de novos Irmãos, a sua Assembleia procedeu de seguida à eleição da 1.ª Mesa Administrativa, sendo eleito para primeiro Mordomo Presidente o Irmão Manoel Rodrigues Dias, carpinteiro.
Inicialmente esta Irmandade teve por principais objectivos a construção de um templo dedicado a Santo António, ao qual, a população do lugar era já muito devota, permitindo assim, a celebração de missa aos Domingos e dias Santos no Monte, pois a Igreja Paroquial era algo distante e não havia caminho bom, conforme se pode constatar no artigo 2.º dos seus Estatutos: “Os fins d’esta confraria são os execicios e praticas religiosas da egreja catholica, reciproco auxilio material e espiritual dos associados, e a opportuna construção de um templo para veneração do culto de Santo Antonio de Pádua.”.
Tinha também por objectivo, a realização anual da festa em honra a este taumaturgo português, na sua Igreja e no terceiro Domingo do mês de Agosto, como se constata no artigo 23.º dos Estatutos da Irmandade, “No terceiro domingo do mez de Agosto de cada anno, celebrar-se-ha a festividade de Santo Antonio no Templo que em sua homenagem e para o esplendor e prosperidade da nossa Augusta Religião lhe for edificado…”, pois até então os festejos realizavam-se na Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Candeias. A Irmandade de Santo António, verificando que o dinheiro conseguido nas arrematações das oblatas oferecidas por altura das festas e a receita das jóias e pautas pagas pelos Irmãos, não ser suficiente para fazer face às despesas da construção da Igreja, bem como, o facto do povo do Monte ter poucas posses, levou a que muitos dos seus Irmãos e suas esposas fossem pedir esmolas e donativos nas freguesias vizinhas, na ilha do Faial, bem como junto das comunidades imigrantes.
Devido à grande falta de recursos financeiros, muitos foram os trabalhos e sacrifícios feitos pelo povo do Monte, para que a sua Igreja fosse sendo construída. Contudo, por altura da Legal Instituição da Irmandade, bem como durante os vários anos da construção da mesma, tiveram a sorte de poderem contar com variados apoios de abastados proprietários faialenses, alguns também devotos e Irmãos de Santo António, que na época estival costumavam passar alguns meses no Pico, nos seus solares junto às suas propriedades de vinhas e figueiras.
José Augusto de Sequeira, republicano, residente na Horta, tinha propriedades no Calhau. Este Irmão era dono do barco “Capricho” e muito ajudou com as esmolas recolhidas junto dos passageiros do seu barco, em caixas próprias para esse fim. Nesta embarcação existia uma caixa de esmolas junto a uma pequenina Imagem de Santo António e uma outra estava colocada na porta de um dos seus armazéns do Calhau.
José Augusto de Sequeira deu também muitos donativos, arrematou a pedra de uma portada e a do arco da Capela-mor da Igreja do convento da Glória da cidade da Horta, que se encontrava em ruínas, bem como um púlpito e uma pia para água benta.
Este Irmão mandara consertar a primeira Imagem de Santo António que foi venerada pelo povo do Monte, e que, em tempos fora ofertada ao mestre do barco “Capricho” pelo Reverendo Vice Vigário da Candelária Manoel Muniz Madruga. Ofereceu também o respectivo resplendor de prata e andor.
Esta imagem terá pertencido à ermida de Nossa Senhora da Boa Morte no lugar do Guindaste e tinha sido recolhida à Igreja, porque os proprietários ou interessados da ermida, que havia sido destruída, não a quiseram reedificar.
Foi este Irmão quem presidiu à Mesa da Assembleia de Instituição da Irmandade de Santo António. A companha do barco “Capricho” tirava meia soldada para a Irmandade, bem como trabalhava diariamente na construção da Igreja. O barco “Boa Fé” também do Calhau tirava um quarto de soldada.
O Irmão António Silveira de Lemos, secretariou a mesa da Assembleia de Instituição da Irmandade, era residente na Horta e era Oficial do Governo Civil.
Este Irmão foi maçon na loja “Amor da Pátria e tinha casa, alambiques e demais propriedades no Calhau.
Pagou o papel selado com que em Abril de 1901, terá elaborado os primeiros Estatutos da Irmandade e foi provavelmente quem os registara no Governo Civil. Deu donativos e pagou o transporte de materiais para a construção da Igreja. Dos seus alambiques oferecia ainda uma parte de aguardente à Irmandade de Santo António.
A Irmandade recebeu também muitos donativos dos Estados Unidos da América. De João Pereira do Amaral recebeu um rico Pontifical, bem como outros acessórios.
Laureana Bettencourt de Azevedo e Castro, filha da “morgada” das Lajes do Pico, foi sem dúvida uma das grandes benfeitoras da Irmandade de Santo António do Monte. Muito ajudou com dinheiro, materiais de construção, ofertou algumas Imagens e utensílios para celebração da eucaristia, bem como pagou muitas das obras e pinturas realizadas. Seu marido, Gaspar Vieira das Neves ajudou e colaborou também com a Irmandade. Dos seus alambiques tirava também uma parte de aguardente para a Irmandade. D. João Paulino de Azevedo e Castro, 19.º Bispo de Macau e irmão de Laureana Castro, fez também algumas ofertas e donativos. D. João Paulino foi o primeiro picoense a ser ordenado Bispo.
Othon Pereira da Silva ofereceu o terreno necessário para a construção da Igreja, que segundo o ponto único do artigo 2.º dos Estatutos, seria “…em terreno confinante com a estrada real, ficando pelo Norte do mesmo Templo o povoado do Monte de baixo e pelo Sul o do Monte de cima”. O Visconde de Leite Perry, Governador do Distrito e o Conselheiro António Emílio Severino d’Avelar seu sogro, conseguiram do Governo de Sua Majestade um avultado subsídio para a construção da Igreja de Santo António do Monte.
Francisco Caetano de Sousa confeccionou gratuitamente o projecto e orçamento da Igreja. O Director das Obras do Distrito, António da Cunha de Meneses Brum, também colaborou e ajudou a Irmandade de Santo António do Monte.
Muitos outros também colaboraram e ajudaram com os seus donativos e ofertas para que, a construção da Igreja e o seu recheio fosse possível. O fruto dessas diversas ajudas está à vista de todos.
No entanto, nem tudo correu bem na construção da Igreja. Infelizmente houve um acidente grave que resultou na morte do Irmão Manuel Gonçalves Corrêa. A acta da Sessão da Mesa Administrativa de 5 de Setembro de 1909 relata o seguinte: “Aberta a sessão disse o presidente que antes de se entrar no assumpto para que ela tem logar nos termos dos estatutos, desejar ouvir a mesa sobre se é de opinião que na acta da presente sessão e antes de se tratar de qualquer outro assunpto, seja consignado um voto de profundo sentimento d’esta meza e de toda a Irmandade, que assim o tem manifestado, pelo fatidico acontecimento que teve logar na manhã de dia 23, isto é, pela queda accidental de cima dos tirantes da Egreja e a morte quasi istantanea sobre o pavimento interior, do mestre de pedreiro Manoel Gonçalves Corrêa, nosso infeliz irmão que apenas conseguiu ver encimado com o symbolo da Nossa Augusta Religião, o Frontão da Egreja que tantos cuidados lhe merecera, para logo, ao desarmar a cabrea de que já não carecia, e, provavelmente, devido a um imperdoável descuido se precipitar, ainda nos risos da vida, no pélago immenso da infinita eternidade… A meza, bastante contristada ainda, por si e como fiel interprete do sentir de todos os nossos Irmãos, por unanimidade se associou á exposição da presidência.”.
O jornal “O Telegrapho” no seu número 4.658, de 24 de Agosto de 1909, noticia o seguinte: “Hontem de manhã o mestre d’obras da ermida de Santo Antonio do Monte, Candelaria do Pico, Manoel Gonçalves Corrêa, caiu de um andaime para o lado de dentro, fracturando o craneo, o que lhe resultou a morte quasi instantanea. O infeliz que era solteiro contava apenas 30 anos. Tal acontecimento causou profunda impressão, a todas as pessoas que d’elle tiveram conhecimento.”
Segundo reza a história, a construção da Igreja do Monte terá sido pensada e iniciada em finais do século XIX, no entanto, só no início do século XX é que se deu todo o processo da legal instituição da Irmandade e legalização da construção da Igreja, conforme se pode constatar nos jornais da época.
Segundo o jornal “O Telegrapho”, a 17 de Agosto de 1902 efectuou-se “…a primeira festa realisada no logar do Monte a Santo Antonio de Padua, sob a denominação de Santo Antonio do Monte, pela irmandade d’este nome, legalmente constituida ultimamente e cuja festividade tem de ser celebrada no 3.º domingo do mez d’Agosto, conforme determinam os seus estatutos…” e a 23 de Agosto de 1903, procedeuse à “…colocação e bênção da primeira pedra para edificação da ermida que a mesma irmandade mandara construir…”.
A 25 de Maio de 1929, depois de verificadas todas as formalidades legais, bem como da Igreja ter todas as condições exigidas, sendo elas a posse de sacrário decente e de todas as alfaias precisas para a boa prática do culto católico, recebe da Diocese de Angra do Heroísmo “Carta de Sentença para a colocação permanente do Santíssimo Sacramento” na Igreja de Santo António do Monte.
Em 1952 concluiu-se a torre Sul da Igreja, ficando a torre Norte por construir. A 19 de Julho de 2006, passou o Monte a Curato Independente.
Após a sua conclusão, verifica-se que a Igreja do Monte é um bonito templo, muito digno e funcional, que dispõe de três altares, sendo que no altar principal e ao centro tem uma das mais belas imagens de Santo António, seu patrono. Os altares laterais são dedicados ao Sagrado Coração de Jesus e ao Sagrado Coração de Maria.
Em 1965, dá-se início ao processo de construção do “Salão da Irmandade de Santo António do Monte”, em terrenos oferecidos por Manuel Joaquim Laranjo e sua esposa Isabel Conceição Dias, residentes na Califórnia. Durante muitos anos, foi o maior espaço do género na ilha.
Este salão tem servido para dar apoio aos festejos e eventos realizados no lugar do Monte. Para além de apoiar as festividades de Santo António, do Divino Espírito Santo, bem como a realização do já tradicional 1.º de Maio do Monte, serve também de sala de ensaios ao Grupo Folclórico da Casa do Povo da Candelária, fundado a 22 de Maio de 1949, sendo este, o grupo folclórico mais antigo dos Açores legalmente constituído.
Em tempos, salientam-se ainda os ensaios e as actuações de famosos teatros, cujos ensaiadores, se destacam alguns, tais como José da Rosa e seu filho Hélder, Manuel Goulart Serpa e Manuel Inácio Fonte, não esquecendo também, todos os actores, tocadores, autores das músicas e das letras utilizadas nos actos de variedades. Destacam-se ainda os ensaios e as actuações do conjunto musical, “Canal 73”, bem como alguns do conjunto “Pedras Negras”.
Hoje em dia, a Irmandade de Santo António do Monte tem como grande objectivo, dar continuidade a todos os eventos e festividades em prol das tradições, da cultura e da religiosidade do povo do Monte, tentando manter sempre em boas condições a sua Igreja e o seu património, bem como continuar a trabalhar para receber bem, todos os que visitam o aprazível e simpático lugar do Monte.
É também objectivo da Irmandade, proceder à remodelação do seu salão, para assim melhorar as condições de utilização a oferecer aos seus Irmãos, aos demais utilizadores e população em geral, dignificando assim todos os eventos e actividades nele realizadas.
As festividades de Santo António foram sempre muito concorridas, muito era o povo que acorria ao Monte por esta altura. Muitos vinham de quase toda a ilha do Pico, bem como muitos romeiros e algumas filarmónicas chegavam também ao porto do Calhau vindos da ilha do Faial.
Hoje em dia esta festa continua a ser um dos marcos importantes do calendário religioso da ilha do Pico, onde muitas pessoas continuam ainda a acorrer ao lugar do Monte, em devoção a Santo António.
Não querendo esquecer, todos os Mordomos, Irmãos, suas famílias, bem como todos os que já partiram e que de alguma maneira, contribuíram para que a Irmandade de Santo António do Monte completasse hoje os seus 110 anos de vida, gostaria deste modo, dar os parabéns a todos os que de corpo e alma trabalham voluntariamente em prol da sua Irmandade, da sua terra e das suas tradições, perpetuando assim o culto e a festa em honra a Santo António do Monte.
Parabéns Monte! Um bem-haja a todos vós!













