
De seu pai – o cidadão ilustre João José da Graça Júnior, que foi jornalista de pulso, introdutor da imprensa no Faial e na Graciosa, professor competente, político sagaz, advogado hábil e administrador inovador – José Filipe da Graça herdou o gosto pelas letras, pelo ensino e pela política.
Tendo nascido em Angra a 1 de Abril de 1865 – no período (1862-1865) em que o seu progenitor ali viveu e trabalhou, e onde fundou e redigiu os jornais “A Terceira”, “O Eco Açoreano” e “O Eco Agrícola” – José Filipe da Graça veio para a Horta ainda criança, aqui fazendo o seu percurso escolar. Ele foi um dos 22 jovens matriculados no Liceu em 1875, curso que veio a concluir alguns anos depois, conforme testemunho do seu próprio pai. Este, numa das várias cartas dirigida ao Conde Ávila (António José d’Ávila Júnior, político faialense que em Lisboa advogava os interesses colectivos e particulares de muitos dos seus conterrâneos que com ele se correspondiam) escreve o seguinte:
(…) “Até aqui tenho incomodado muito V.Ex.ª por cousas da nossa pátria comum e isso tenho eu feito com atrevimento, porque enfim V.Ex.ª também ama a sua terra como eu. Agora venho com muita vergonha, em razão da minha falta de merecimentos, pedir-lhe a sua proteção para meu filho, José Filipe da Graça. Este rapaz concluiu este ano o seu curso do Liceu e só em Janeiro que vem é que entrará no recrutamento. Estou certo que nenhuma inspecção conscienciosa o julgará apto – porque não tem forças – é excessivamente débil. Na presente conjuntura e pela promoção de Domingos de Silos – 1º oficial da repartição da Fazenda a Escrivão de Fazenda – vaga o ínfimo lugar da escala naquela repartição, creio que de amanuense ou aspirante. Venho pois com grande acanhamento pedir a V. Ex.ª que me diga com franqueza de amigo se é da sua vontade e se é possível alcançar aquele lugarinho para o dito meu filho. Habilitações tem-nas e boa letra – o que ele não tem é protecções, porque eu nada peço aos amigos desta localidade – só peço a V. Ex.ª e pedirei ao Dr. Barbosa a fim de que não se comprometa em sentido contrário”(…)
Note-se que esta é uma carta datada, própria de uma época em que “a protecção” era já condição essencial para se conseguir um ingresso ou uma promoção na função pública e mesmo em outras instituições. A consulta do extenso espólio constante dos Arquivos Particulares de Ávila e Bolama existente na Torre do Tombo, fornece-nos inúmeros testemunhos sobre esta matéria. O próprio João José da Graça Jr. recorria com frequência aos favores daquele nobre – e também aos de outro influente faialense o médico e conselheiro Dr. António Maria Barbosa – não só para o seu filho José Filipe da Graça, mas também e sobretudo em assuntos de interesse colectivo como sejam as diligências para o estabelecimento “do cabo submarino tocar no Faial”, para a criação da Biblioteca Municipal, para o desenvolvimento do Grémio Literário Faialense, da Sociedade Humanitária da Literatura e da Agricultura ou da Sociedade de Regeneração das Crianças2. A mais importante de todas as suas diligências epistolares feitas quando exerceu o cargo de presidente da Câmara Municipal teve total êxito com a publicação em 20 de Outubro de 1883, dia em que foi aprovado, por decisiva intervenção do Dr. António José de Ávila Júnior, o decreto que definitivamente concedia ao Município da Horta a propriedade plena do edifício que ainda hoje ocupa.
Entretanto, José Filipe da Graça foi sucessivamente, fiscal do selo na Horta, professor da escola elementar e complementar de S. Roque do Pico e escriturário da Fazenda, primeiro nas Lajes do Pico e depois na Horta. Quando na década de 1890 se fixou definitivamente na Horta acumulou aqueles modestos empregos públicos com o de advogado de provisão o que, provavelmente, lhe permitia uma vida digna mas sóbria, tanto mais que casara na Matriz da Horta a 29 de Agosto de 1889 com Virgínia Pinheiro, nascendo desse consórcio Ludgero da Graça em 3 de Novembro desse ano e que já em Janeiro de 1890 era para João José da Graça Jr. o “netinho a quem estremeço”3. Teve mais dois filhos: Filipa da Graça, nascida na Madalena a 17.3.1891 e João José nascido a 21.7.1894, prematuramente falecidos.
A par do desempenho daqueles empregos públicos que as vicissitudes da política rotativista lhe iam permitindo, José Filipe da Graça entregou-se às lides jornalísticas, seguindo assim as pegadas de seu pai. Temos notícia de ter sido, em 17 de Outubro de 1886, redactor do semanário “A Semana”, na companhia de João Pereira Forjaz e de oito anos decorridos haver fundado e dirigido, em 7 de Outubro de 1894, “O Museu”. Este semanário teve uma difícil existência e foi de curta duração. Apenas saíram oito edições já que – é o próprio que o escreve – a partir daí foi “desagradavelmente surpreendido pela notícia de que ele não podia sair na tipografia onde era impresso, por assim o haver determinado o dono da mesma”, assim procedendo “por influências particulares a que não era estranho o medo de certos figurões meus patrícios, cujos erros e más acções não convinha fossem combatidos”. Naquele tempo já havia quem se convencesse que o uso daqueles processos censórios sufocavam a verdade, “esmagando o mais sagrado de todos os direitos – a liberdade!”4
Se é certo que conseguiram encerrar “O Museu”, não calaram José Filipe da Graça. Assumidamente adepto do partido regenerador, revelou-se um indomável lutador por aquilo em que acreditava escrevendo no diário “O Globo” surgido em 3 de Outubro de 1896. Redactor e mais tarde editor deste órgão oficioso dos regeneradores do distrito da Horta, José Filipe da Graça deixou-nos inúmeros e contundentes textos em que numa linguagem fluente, corajosa e profundamente sarcástica defende o que considera serem os interesses locais e, por contraste, combate os adversários progressistas, personificados no seu líder distrital, o deputado e governador civil Miguel António da Silveira. Esta figura controversa, comerciante pouco escrupuloso – estaria envolvida no contrabando dos milhos americanos, no favorecimento da emigração clandestina e até no desaparecimento das 70 libras esterlinas vindas do Brasil para auxílio de sinistrados e que nunca chegaram aos destinatários – era o alvo preferido das “Glosas” e das extensas “Crónicas” que de 1897 a 1899 quase diariamente surgiam na primeira página de “O Globo” assinadas por J. G. e sobretudo por Ri-Cardo, ou seja, por José Filipe da Graça.
Aquele diário – onde também foi redactor José Maria da Rosa, professor e conceituado jornalista, então um desiludido progressista que se passara para os regeneradores – terá deixado de publicar-se em 10 de Agosto de 1899 tendo então por administrador Manuel Rodrigues Luís, marido de Helena da Graça, e por editor José Filipe da Graça. Este não sobreviveria muito ao encerramento daquele jornal, pois “após longo sofrimento e vitimado por uma tuberculose pulmonar” faleceu numa casa da Rua Advogado Graça a 8 de Dezembro de 1899. “O Telégrafo”, ao noticiar este decesso, assinala que “José Graça foi durante algum tempo redactor do colega ‘O Globo’, onde escrevia com o pseudónimo de Ri-Cardo”5. Tinha apenas 34 anos de idade e deixou viúva e um filho.
1 ANTT/APAB, antiga caixa 4, nº 10, de 14 Agosto 1885
2 Idem, antigas caixas 2 e 4, cartas de 1884 e de15 Abril 1885
3Idem, antiga caixa 4, nº10, carta de 29 Janeiro 1890
5 O Fayalense, 25 Novembro 1894
(O autor escreve segundo
a antiga ortografia)












