LÁ SE FOI A MAGIA DA INFÂNCIA

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Não sou obcecado com rotinas, mas este fim de ano fui obrigado a cortar com duas delas que me acompanhavam há muito e que me trazem bastante desconforto.

A primeira foi a do presépio. Há uns anos atrás fiz uma experiência com o meu filho, montando o que chamámos um presépio radical. A razão para tal invenção foi simples e objetiva. Nas feiras mais populares, os bonecos eram tão disformes que o camelo parecia uma girafa, uma ovelha assemelhava-se a um suspiro e o burro nem pelos familiares seria reconhecido. Nas lojas mais finas da capital, para além do preço exorbitante, as imagens eram tão estilizadas, tão descarnadas, tão desprovidas de alguma humanidade que depressa as rejeitámos.

 Pelas razões apontadas, optámos por utilizar os brinquedos que ele tinha. Mantivemos a imagem do Menino Jesus, religiosamente guardada pela minha sogra, como relíquia de família. Deitámo-lo numas palhinhas de ráfia, dentro de uma saboneteira, a fazer de manjedoura. E ali ficou ele todo satisfeito protegido por Nossa Senhora, uma elegante Barbie emprestada pela minha sobrinha; o Robocop assumiu a atitude paternal de São José; a vaca e o burro da Playmobil desempenharam perfeitamente o seu papel, sem qualquer tipo de reclamações, e os Reis Magos travestiram-se de Tartarugas Ninjas.

A cabana, tivemos que construi-la com ripas de madeira, o que lhe deu um ar bastante rústico, bastante nazareno. Sobre ela, a servir de estrela brilhante, nada mais apropriado do que o ET, de olhos esbugalhados, completamente atordoado com tudo o que se passava ali à volta. Pelas encostas foram espalhados índios e cow-boys, spiderman, rato mickey e muitas outras figuras da nossa sociedade de consumo contemporânea.

Dirá o leitor mais conservador que foi uma perfeita heresia. Inicialmente, tive o mesmo pensamento, mas o gosto e o carinho que depositámos em todo aquele trabalho tirou-me qualquer peso da consciência. Estava tudo perfeito, tudo nos seus lugares, com todas as figuras míticas como manda a tradição. Não houve tiroteio entre índios e cow-boys nem qualquer tipo de discriminação nem reclamação.

Este ano nem tentei armar o presépio, porque o vendaval que varreu a tradição, eliminando toda a magia da minha infância, deixou-me sem forças nem imaginação. Quem vier visitar-me não encontrará presépio, mas o “meu menino mija”. Em cima da mesa estará uma bela aguardente da terra e um prato de figos passados. Espero que o rei Gaspar não resolva taxar este costume.

Outra rotina que repetia com imenso prazer era desejar um Próspero Ano Novo aos amigos e a todos que encontrasse.

As Festas Felizes ainda posso desejar, porque a felicidade, mesmo que “pechinchinha” poderá emergir no meio de tanta desgraça. Um sorriso, um abraço, um sussurro de esperança podem ser suficientes para não deixarmos cair os braços e sentir o calor humano que felizmente ainda subsiste.

Não tenho é coragem para apregoar um Próspero Ano Novo. Corro o risco de levar alguma resposta menos apropriada ou, quiçá, uma bolacha na cara. O próximo será velho, carrancudo, miserável, mas vamos ter que enfrentá-lo, que remédio!!!

O mais que vos posso desejar é força de vontade e coragem para meter um pauzinho na engrenagem que nos anda a triturar. Acima de tudo não percamos a esperança de voltar a escrever PRÓSPERO num dos próximos cartões. Acho que merecemos. 



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