Livro de Fernando Melo lançado na Horta – “Um livro escrito com os olhos da memória”

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Livro de Fernando Melo lançado na Horta – “Um livro escrito com os olhos da memória” Quem conheceu e privou com o professor Fernando Melo dificilmente se esquecerá da sua pessoa. Amante das letras, homem dos jornais e deste nosso Tribuna das Ilhas. Com dois livros lançados estava, à data do seu falecimento a escrever uma série de contos que pretendia levar à estampa. A vida pregou lhe uma partida e partiu de entre nós sem ter conseguido editar o tão almejado livro. Hoje são os seus filhos que, numa clara homenagem, puseram mãos à obra e trazem até nós os seus contos. O lançamento do livro aconteceu domingo na biblioteca Pública e Arquivo João José da Graça na Horta . O auditório da biblioteca da cidade da Horta recebeu domingo a apresentação do livro de Fernando Melo, picoense de nascimento, faialense de coração e, acima de tudo, um homem do Canal. A apresentação do livro coube a Victor Rui Dores, curiosamente seu vizinho da frente que disse aos presentes: “mantive uma longa relação de amizade e camaradagem literária com Fernando Melo (1932-2012), pois fui seu vizinho de porta aberta durante mais de três décadas. Picaroto “criado aos pés da montanha”, homem de agudíssima sensibilidade, cidadão do empenhamento cívico, foi um observador infatigável do real que se lhe oferecia em palco. Possuía a lucidez de uma consciência crítica e sempre o conheci em permanente desassossego criativo…” Referência indelével e figura incontornável, era conhecida a sua relação fascinada com as ilhas do Pico e do Faial. Foi sempre um acérrimo defensor da “Comunidade do Canal, na feliz expressão de Tomás Duarte, ou seja, uma relação histórica entre as ilhas do Faial e do Pico, uma permuta de afectos, uma identidade de pertença a um mesmo lugar, a uma mesma cultura, a um mesmo imaginário. Tendo exercido, durante largos anos, actividade docente, Fernando Melo cedo começou a escrever para os jornais: poemas, artigos de opinião e crónicas. Mais tarde enveredou pelo conto, sendo ainda de referir a sua colaboração de escrita e de produção radiofónica e televisiva, sem nunca perder de vista o jornalismo que, até ao fim dos seus dias, o manteve em constante diálogo e reflexão com o mundo que o rodeava. Como prosador, Fernando Melo esmerou-se no cultivo da língua de Camões, sendo purista e escrevendo sempre no melhor vernáculo. Publicou dois livros de contos: “Fragmentos da memória” e “A prenda de Natal… e outras histórias”. Escrevendo na primeira e terceira pessoas, e assumindo-se quase sempre como protagonista-narrador, Fernando Melo tinha o engenho e a capacidade de contar histórias, com princípio, meio e fim, de modo escorreito, eficaz e eficiente, ele que nunca embarcou em semióticas da diegese do texto e que às escritas barrocas e gongóricas sempre disse não. E, com olhar atento e mão certeira, escreveu a sua (e nossa) memória insular, numa escrita de evocação nostálgica, caracterizada pela fluidez e frescura narrativas. Nos contos aqui reunidos, Fernando Melo dá-nos a conhecer retalhos vivenciais dos seus verdes anos. Isto é, ele recria, evoca, (re)percepciona a infância insular, de forma ora idílica ora naturalista, mas sempre com uma inegável sinceridade. São memórias iniciáticas do despertar para a vida, para o mundo e para o conhecimento das coisas. É, acima de tudo, a memória maior da sua relação inocente e fascinada com os outros – os familiares, os amigos, os conhecidos. O narrador interioriza as regras da vida, lembra gente e recorda “serões de histórias e peripécias”, bem como “casos” contados pelos velhos, naquela fase em que as fantasias e as ilusões da infância ainda se não perderam no confronto com a realidade. E, ao longo de todas as histórias, rememora pessoas, coisas e acontecimentos que lhe povoavam o imaginário, recordando bons tempos que não foram necessariamente tempos bons, dadas as circunstâncias da época a que se reportam as narrativas. A ilha deixou em Fernando Melo uma memória indelével e retroactiva: nela ficou o paraíso irremediavelmente perdido da infância e da adolescência. Daí a revisitação que ele empreende à geografia sentimental, afectiva e humana da terra que lhe deu berço, o Pico, com especial destaque para afreguesia de São João, “engastada entre dois mistérios” –e ao espaço onde ele cresceu e se fez homem, a cidade portuária da Horta. LEIA A REPORTAGEM COMPLETA NA EDIÇÃO IMPRESSA DO TRIBUNA DAS ILHAS

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