Mestre Simão vai parar sobre rochas, acidente não passa de susto

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Ao ver o navio Mestre Simão aproximar-se das rochas nada podia fazer senão dizer ao meu filho para se segurar e gritar “safa, safa ca—– f—- da p—”, nisto, ocorre o primeiro embate sobre bombordo e logo o rolo para estibordo que mete água pela borda. E segue-se o ruído da rocha a rasgar o ferro do casco indicativo de que estava-mos encalhados e à mercê da natureza no lado de dentro do molhe sul do Porto da Madalena.
Naqueles minutos iniciais ainda tinha alguma esperança que o comandante safasse o navio das rochas e embicasse na direcção do molhe frente à gare João Quaresma, já falecido dono da empresa das lanchas do Pico que durante muitos anos asseguraram a carreira entre Faial e Pico. Mas não tivemos essa sorte e ficamos ali a ver as ondas crescer, avançarem contra o navio e a ouvir o casco arrastar nas rochas.
Andámos todos aos trambolhões durante o que pareceu horas, mas que na realidade deve ter sido entre 30 a 60 minutos até chegarmos à velha gare no Porto da Madalena, já cercado por uma multidão a ver o decorrer da operação de salvamento, que, mesmo assim, correu muito bem. Pois, escapamos todos e houve apenas alguns ferimentos ligeiros e nódoas negras de bater contra cadeiras ou bordas do navio.
Minutos após o embate lembro-me de olhar para o lado da piscina e pensar se isto revira para cima daqueles bicos de rocha ficamos todos picados, os vagalhões vergalhavam-nos por entre as rochas como se fosse uma trituradora. Olhava para o lado dos ilhéus e a conclusão era quase a mesma, se nos atirarmos para ali, mais minutos menos minutos vamos vergalhar contra o navio ou contra as mesmas rochas, ou, então, a corrente arrasta-nos pela barra do porto fora.
Foi mais ou menos nesta altura que vi a morte a meus pés, mas sem nunca me aperceber que fazia quatro anos que minha mãe tinha morrido e o grande Eusébio tinha sido sepultado, quando, no dia 6 de janeiro de 2018, as vagas gigantescas vergalhavam com o navio contra a serra de rochas na frente da Piscina da Municipal da Madalena.
Pois não conseguia ver nada do outro lado do navio senão à poupa do navio, por isso, nem sabia que decorria o lançamento da balsa ao mar. Mas poucos minutos depois do estrondo inicial já se via a metade do barril que continha a balsa a flutuar direito à ponta do molhe do farol verde, onde as vagas rebentavam com mais violência e a grande massa de água seguia para sul por fora desse molhe.
Depois de umas primeiras rondas a acalmar as pessoas, surge um marinheiro a distribuir coletes de salvação e ajudar a atá-los e a nos mandar para o interior do salão do bar do navio, mas nem dava para pensar em tomar uma nevedazinha para acalmar os nervos.
Lá dentro verificava-se alguns destroços e equipamentos espalhados no chão, mochilas e outros bens que os passageiros tiveram de abandonar, pessoas a chorar, outras a gritar pelos santos mais queridos, outras a gritar aqueles nomes que não são de santos e não se devem repetir aqui. Valeu o profissionalismo e calma da tripulação, todos fizeram o seu papel com grande distinção, para que a saída para a balsa se efetuasse ordenadamente.
E como no meio de qualquer tragédia há sempre um pisco de sorte, a nossa foi que um operador marítimo-turístico estava-se preparando para ir ver baleias para o sul do Pico no momento da colisão e veio dar apoio num semirrígido, pois o semirrígido do navio nunca foi lançado ao mar, o por quê fica para os peritos averiguarem.
Desembarcamos todos no molhe velho e fomos conduzidos para a gare velha para contabilizar os passageiros e prestar os cuidados necessários. Ainda houve alguns passageiros que foram ao Centro de Saúde da Madalena receber algum tratamento. Mas, agora, havia lágrimas e abraços de alegria, e, claro, alguns contactos para avisar familiares da situação. Depois de termos alta, os responsáveis pela equipa do Futebol Clube da Prainha que esperava o seu adversário Futebol Clube dos Flamengos sobre o cais ofereceram um lanche à comitiva faialense. Pouco depois o Cruzeiro do Canal carregou os passageiros e transportou-os de regresso ao Faial.
Eu e o meu filho, Calvino Brum, fomos almoçar ao Parisiana por conta da Atlanticoline. Nunca uma garrafinha de vinho soube tão bem. E acabamos por ir passar a noite na casa onde nasci, o que foi quase como fazer o que nos disse uma senhora brasileira, “vocês estavam no barco?, então vocês nasceram outra vez”.

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