NÃO CAUSAR DANO AOS MAIS POBRES

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1. Estamos em vésperas de mais um Natal. E este é celebrado pelos Cristãos Católicos no contexto do Ano da Fé, proclamado por Bento XVI, precisamente, conforme declarou o Papa, “para dar um impulso renovado à missão de toda a Igreja de conduzir o homem do deserto, onde frequentemente se encontra, para o lugar da vida, para a amizade com Cristo, que nos dá esta vida em plenitude”, sendo “um momento de graça e de compromisso para uma conversão sempre mais integral a Deus, para reforçar a nossa fé e anunciá-la com alegria aos homens dos nossos tempos”.

Mas, nas vésperas deste Natal de 2012, um conjunto de comentadores apressados criou um “caso” a partir daquilo que Bento XVI escreveu no seu recente livro «Jesus de Nazaré – A infância de Jesus», Princípia Editora, 2012, à volta da questão da presença da vaca e do burro no presépio de Belém. Beneficiando do estrutural desconhecimento de muitos, empolou-se de tal modo essa questão como se ela fosse, de facto, uma grande questão ou, sequer, uma questão de fé. Falar da vaca e do burro do presépio, para muitos, foi mais importante do que se dispor a renovar neste Natal o encontro radical com Jesus de Nazaré “o rosto de Deus, que desceu do seu Céu para entrar em cheio no mundo dos homens, no nosso mundo” (Bento VXI).

Abundaram, por todo o lado, as mais diversas sentenças e as mais díspares opiniões sobre um livro que, aposto, a maioria que sobre ele opinou, não o leu. Por isso, e desde logo para os crentes, em contexto do Ano da Fé, mas também para todos, nada melhor do que a leitura deste livro neste Natal. Ajudará uns, seguramente, a ter uma Fé renovada e mais esclarecida. E a outros abrirá novas portas ao conhecimento. E a todos ensinará a não repetirmos pela nossa boca e pelos nossos pensamentos os disparates de outros!

2. E, bem a propósito, neste nosso tempo presente, em que as dificuldades a todos atingem, mas com especial crueldade aqueles que menos têm, importa que todos conheçamos a atualidade, a profundidade e a pertinência da Mensagem de Bento XVI,para a celebração do Dia Mundial da Paz, de 1 de Janeiro de 2013.

Só o desconhecimento pode justificar as críticas de alguns à “alta hierarquia da Igreja Católica” sobre a questão dos direitos sociais das pessoas. Por isso, nada melhor do que ler esta parte da Mensagem de Bento XVI, que muita Opinião Pública omite e quer esconder:

 

 “ (…) O obreiro da paz deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Ora, há que considerar que estes direitos e deveres são fundamentais para a plena realização de outros, a começar pelos direitos civis e políticos.

E, entre os direitos e deveres sociais atualmente mais ameaçados, conta-se o direito ao trabalho. Isto é devido ao facto, que se verifica cada vez mais, de o trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não serem adequadamente valorizados, porque o crescimento económico dependeria sobretudo da liberdade total dos mercados. Assim o trabalho é considerado uma variável dependente dos mecanismos económicos e financeiros. A propósito disto, volto a afirmar que não só a dignidade do homem mas também razões económicas, sociais e políticas exigem que se continue «a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manutenção».Para se realizar este ambicioso objetivo, é condição preliminar uma renovada apreciação do trabalho, fundada em princípios éticos e valores espirituais, que revigore a sua conceção como bem fundamental para a pessoa, a família, a sociedade. A um tal bem corresponde um dever e um direito, que exigem novas e ousadas políticas de trabalho para todos. (…)

De vários lados se reconhece que, hoje, é necessário um novo modelo de desenvolvimento e também uma nova visão da economia. Quer um desenvolvimento integral, solidário e sustentável, quer o bem comum exigem uma justa escala de bens-valores, que é possível estruturar tendo Deus como referência suprema. Não basta ter à nossa disposição muitos meios e muitas oportunidades de escolha, mesmo apreciáveis; é que tanto os inúmeros bens em função do desenvolvimento como as oportunidades de escolha devem ser empregues de acordo com a perspetiva duma vida boa, duma conduta reta, que reconheça o primado da dimensão espiritual e o apelo à realização do bem comum. Caso contrário, perdem a sua justa valência, acabando por erguer novos ídolos.

Para sair da crise financeira e económica atual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico. O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa ótica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspetiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom.Concretamente na atividade económica, o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes e os usuários. Ele exerce a atividade económica para o bem comum, vive o seu compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as gerações presentes e futuras. Deste modo sente-se a trabalhar não só para si mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos.

No âmbito económico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de modo que não causem dano aos mais pobres. A solicitude dos diversos obreiros da paz deve ainda concentrar-se – com mais determinação do que tem sido feito até agora – na consideração da crise alimentar, muito mais grave do que a financeira. O tema da segurança das provisões alimentares voltou a ser central na agenda política internacional, por causa de crises relacionadas, para além do mais, com as bruscas oscilações do preço das matérias-primas agrícolas, com comportamentos irresponsáveis por parte de certos agentes económicos e com um controle insuficiente por parte dos Governos e da comunidade internacional. Para enfrentar semelhante crise, os obreiros da paz são chamados a trabalhar juntos em espírito de solidariedade, desde o nível local até ao internacional, com o objetivo de colocar os agricultores, especialmente nas pequenas realidades rurais, em condições de poderem realizar a sua atividade de modo digno e sustentável dos pontos de vista social, ambiental e económico. (…) ”

Com esta longa citação de Bento XVI concluo da melhor forma esta minha última crónica de 2012 no Tribuna das Ilhas, desejando a todos os leitores Festas felizes. 



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