O 1.º grande azar de Salazar foi há 50 anos

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O ano de 1961 foi tido como um ano de grande azar para Salazar. Nele deu-se início ao desmoronar do Império Português, que o antigo Presidente do Conselho Português, Prof. Dr. António de Oliveira Salazar (1889-1970), apesar de contrariado, não soube evitar. Foi mesmo o principal culpado. Na sequência do Golpe do Estado de 28 de Maio de 1926, com a alteração constitucional em 1933, foi instituído o Estado Novo. Por outro lado, na sequência da II Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas, cuja Carta, aprovada em 1945, estabeleceu a obrigação de todos os países, detentores de colónias, dar-lhes as suas independências. Para o efeito, deviam desenvolver os seus povos e prepará-los para se autogovernarem. A pouco e pouco todos o fizeram. Porém, Salazar, fazendo “vista grossa” dessa disposição, alterou a Constituição, acabando com as Províncias com que era dividido Portugal Continental, e passou a designar de Províncias as antigas Colónias que o País possuía no Ultramar. Assim, na sua ideia (que ele procurava ensinar ao País), Portugal deixara de ter Colónias. Contudo, mantinha nelas a mesma política de subdesenvolvimento dos negros, designadamente a falta de instrução. O Mundo e a ONU, porém, não viam as coisas assim e ajudavam a contrariar essa farsa política. Portugal entrara nas Nações Unidas apenas em 1955. Os azares atrás referidos são temas sintetizados em artigos que oportunamente desenvolvemos ou desenvolveremos em efemérides.

1. O Assalto ao paquete “Santa Maria” (Janeiro de 1961)

No dia 22 de Janeiro de 1961, dias depois de recuperar de uma ligeira pneumonia, Salazar e o Mundo tomaram conhecimento que o importante paquete português “Santa Maria”, havia sido assaltado, cheio de passageiros, conforme referimos no último artigo deste jornal de 21 de Janeiro.

2. O Início da Guerra em Angola (Março de 1961)

Depois dos primeiros distúrbios causados em Luanda pela guerrilha angolana do MPLA de Agostinho Neto em 7 de Fevereiro de 1961, onde terão ocorrido várias mortes, entre os dias 13 e 15 de Março desse ano, a UPA, de Holden Roberto, causava elevada mortandade de brancos em “fazendas” no Norte de Angola.

            Dava-se, assim, início à guerrilha nacionalista – ou terrorista como afirmavam os defensores do regime – contra as tropas Portuguesas. Essa guerrilha, que se propagou a Moçambique, através da FRELIMO, e à Guiné (Bissau), com o PAIGC, só viria a terminar com a descolonização, depois do Golpe de Estado do “25 de Abril de 1974”.

Para uns essa descolonização foi “exemplar”, mas, para outros – talvez os mais realistas – foi considerada uma desgraça para os povos dessas antigas colónias portuguesas de África, quer portugueses, quer africanos. Deu origem à saída apressada da maioria dos portugueses e causou muitas mais mortes de africanos negros do que aquela guerrilha. Os principais culpados disso, para além de alguns responsáveis pela descolonização, foi Salazar! A esses quero juntar todos os que se opuseram aos projectos de Norton de Matos e de António Spínola.

3. O Golpe de Estado Frustrado de Botelho Moniz (Abril de 1961) O Presidente Americano, John F. Kennedy (1917-1963), que havia tomado posse do cargo em 22 de Janeiro (2 dias antes do ataque ao “Santa Maria”), parecia disposto a não tolerar qualquer tipo de colonialismo. Por esse motivo foi sempre um adversário terrível das políticas de Salazar. Este despresava o novo Presidente Americano, situação ainda hoje patente na aversão de muitos continentais portugueses relativamente aos americanos. Assim, a administração Kennedy, com a ajuda do embaixador americano em Portugal, Elbrick, procurava uma solução para retirar Salazar do poder, caso ele recusasse a libertação das várias colónias portuguesas. De resto, quase todos os países que haviam possuído colónias já tinham procedido à sua libertação. Em 1961 Portugal e a França eram praticamente os últimos colonizadores e, na ocasião, já o Presidente De Gaulle sabia que tinha de libertar a Argélia, facto que veio a ocorrer no ano seguinte. Assim, nas reuniões da ONU, até a França, que havia estado ao lado de Portugal, passara a abster-se quando se tratava de discutir o colonialismo português.     

 Elbrick passou a desdobrar-se em reuniões com os diversos representantes do Governo Português, onde as votações na ONU começavam a causar as suas crises estruturais. Outros governantes americanos vieram a Lisboa nesse sentido, alguns encontrando-se com o Presidente do Conselho Português. Depois das sugestões do seu Ministro da Defesa, o General Júlio Botelho Moniz (1900-1970), Salazar continuava irredutível. Assim, foi Botelho Moniz, homem inteligente e culto que, depois de diversas diligências, se propôs a chefiar o Golpe de Estado para forçar Salazar e Américo Thomaz a deixarem o poder. Moniz contava para o efeito com o apoio de vários altas individualidades, incluindo membros do Governo, e o grupo comprometia-se a preparar a independência das Colónias dentro de 10 anos, e os americanos ajudariam financeiramente Portugal a desenvolver os problemas do seu atraso. O Golpe de Estado estava a ser preparado para o dia 13 de Abril. Nesse dia, após denúncia traiçoeira, todos os membros do Governo envolvidos foram demitidos dos seus cargos e substituídos, quando faziam no Ministério da Defesa a última reunião preparatória do “golpe palaciano”. Nem já carros oficiais do Estado tiveram para regressar nesse dia a suas casas. Com aviões já preparados para levarem Salazar e Américo Thomaz para a Suíça, a notícia da sua demissão chegou-lhes pela rádio, surpreendendo-os nessa reunião.

E, apesar de todas essas peripécias, a grande maioria dos portugueses nem soube nesses dias que o poder havia estado por um “fio”. A censura, sempre fiel, conseguira “abafar” tudo. Deste modo, a “Raposa” havia vencido o “Leão”, graças à ingenuidade de Botelho Moniz e à traição de alguém que fora sondado para entrar no seu grupo, como referiremos oportunamente.

4. Goa, Damão e Diu são ocupados pela União Indiana (Dezembro de 1961)

Mas o desastre mais grave desse ano para Salazar, de que ele se mostrou politicamente incapaz, foi a perda do Estado Português da Índia, Goa, Damão e Diu, que ocorreu em 18 de Dezembro. Nesse dia tropas da União Indiana tomaram esse Estado, depois de bombardearem e prenderam as tropas portuguesas que lá existiam. Estávamos naquelas paragens há cerca de 500 anos, e as ameaças de ocupação vinham há muito tempo a ser feitas pela União Indiana, sobretudo através do seu presidente Pandita Nehru, mesmo nas Nações Unidas.

O próprio Governador-Geral, General Vassalo e Silva (1899-1985), e o Arcebispo ou Patriarca dos territórios, o nosso Bispo açoriano, D. José Vieira Alvernaz – também feitos prisioneiros – haviam diligenciado para que o Governo Português dialogasse com o Governo da União Indiana. Procuravam recomendar uma saída honrosa, que evitasse bombardeamentos e perdas de vidas.

Salazar, que forçara o primeiro-ministro inglês W. Churchill a invocar a “Velha Aliança de Portugal com a Inglaterra” para os “Aliados” entrarem nos Açores no tempo da II Guerra Mundial, pedira, em vão, ajuda aos ingleses, invocando essa aliança, ajuda solicitada também aos americanos. Cumprindo a Carta das Nações Unidas nenhum país esteve disponível para ajudar Portugal.

No seu último telegrama Salazar escrevia ao Governador-Geral que “O Governo confia que todos saberão cumprir o seu dever”…

Bibl: “Antunes, José Freire, “Kennedy e Salazar-o leão e a raposa”, (1992), Círculo de Leitores; B. da  S., “Dossier” Goa – Vassalo e Silva, a recusa do sacrifício inútil”, (1975), Edição: LIBER. 

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