O Coronavírus a chegar e o Governo Regional a visitar

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Dois dias bastaram para desfazer as dúvidas que assolavam muitos portugueses desde que a crise epidémica do Coronavírus (Covid-19) eclodiu na cidade de Wuhan, na China e, mais recentemente, na Europa. Iria ou não chegar a território português o Coronavírus? E quando?
Em três dias (2, 3 e 4 de março) confirmaram-se em Portugal continental cinco casos e um esgotamento nos hospitais de referência do norte da capacidade de internamento em quartos de pressão negativa para doentes suspeitos de infeção por Covid-19.
Esta notícia, já de si bastante preocupante, ganha ou poderá ganhar contornos muito relevantes se a transportarmos para os Açores. A responsável pela área da saúde na Região falou há uns dias da existência de um determinado número de quartos para isolamento nos três hospitais regionais e de vários quartos com pressão negativa no Hospital da ilha Terceira, sem, todavia, nunca referir a quantidade exata.
Se num ápice foi assim no continente, como será nos Açores? Quantos quartos de pressão negativa existem naquele hospital? E, se repente, tivermos um surto de casos suspeitos e esgotarmos aquela capacidade? Acredito plenamente que as autoridades regionais de saúde já tenham pensado nesse cenário e preparado o chamado “plano B”.
Felizmente que tivemos ainda apenas dois casos suspeitos.
No entanto, é estranho que, após a apresentação das medidas de contenção a adotar, os responsáveis políticos pela saúde nos Açores tenham desaparecido por completo, deixando a população açoriana à mercê de circulares que ninguém percebe, de comunicados que ninguém lê, compreende ou tem acesso.
Seria fundamental, agora, o desenvolvimento de uma ampla campanha regional de informação aos cidadãos, dando conta dos cuidados e recomendações a adotar perante um caso suspeito.
E o restante Governo Regional como tem atuado? Não ligou nada à Covid-19 e à sua rápida proliferação em Portugal continental. Como é que perante uma quase pandemia que a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma ser mais mortal que a gripe, o Governo Regional decide ir visitar a ilha de Santa Maria, para reunir com entidades, inaugurar espaços e anunciar investimentos?
Ninguém entende.
Numa altura em que a Comissão Europeia criou um gabinete de crise para acompanhar em permanência o evoluir da Covid-19, destacando para o efeito cinco comissários, no continente português os ministros se desdobram em reuniões com os vários setores da economia, por aqui continuamos como se nada nos atingisse.
É essencial que o Governo, no seu todo, olhe de forma preocupada não só para o potencial de surgimento da Covid-19 na Região, mas, sobretudo, para os efeitos colaterais resultantes desse surto e equacione medidas urgentes a tomar.
Apesar de ainda não se registar um pânico generalizado, já é visível a escassez e, na ilha do Faial, a falta de equipamentos e materiais de proteção, como sejam, máscaras, luvas, gel desinfetante e álcool.
Efetivamente, basta a confirmação do 1.º caso para os alarmes dispararem e passarmos a figurar no mapa como um dos locais com infetados pela Covid-19.
E, com certeza, as consequências serão imediatas.
Desde logo, reconhece-se que, no pior cenário, o turismo, alavanca essencial da nossa economia, começará a notar sinais de abrandamento, resultado de restrições de viagens por parte de alguns países aos seus cidadãos, da redução e/ou cancelamentos de reservas para o período da Páscoa, e cujas repercussões económicas dependerão da maior ou menor duração do surto.
Também na indústria a falta de fornecimento de matérias-primas às empresas que laboram no continente e que se estende certamente à Região, pode causar sérios constrangimentos à sua normal atividade, com consequências inevitáveis em termos de rentabilidade.
Os planos de contingência a implementar são fundamentais para evitar a disseminação do vírus, mas há que acautelar atempadamente e de forma vigorosa os eventuais impactos negativos que o alastrar da Covid-19 possa provocar na economia açoriana. E isso não se compadece com visitas.

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