Já não seremos Açores

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O problema do envelhecimento da população e da alarmante desertificação da maioria das nossas ilhas dos Açores parece não interessar a ninguém!

Excetuando um ou outro articulista mais atento e um ou outro investigador universitário, este é um tema fora do debate político-partidário, fora das preocupações dos responsáveis governativos e, até, fora das propostas eleitorais do nosso tradicional espetro partidário. O que não deixa de ser estranho!

Sem gente, não há futuro! Sem substituição populacional, as ilhas tornar-se-ão desertas à medida que os idosos forem morrendo. Sem população jovem que garanta a economia, o funcionamento da sociedade e o equilíbrio da Segurança Social, não há velhice viável.
E, apesar de ano para ano os indicadores serem cada vez mais preocupantes e até mesmo alarmantes, isso não parece inquietar nem políticos nem governantes. Governa-se e decide-se investimentos pela força deste ou daquele dirigente mais ou menos influente ou desta ou daquela estrutura partidária mais ou menos poderosa, mas não se quer saber se os milhões que hoje se gastam, amanhã não terão uso por falta de gente!
E em vez de se olhar, de uma vez por todas, de frente para este problema gravíssimo, e agir, de forma integrada e consequente, faz-se o mais fácil e o habitual: assobia-se para o lado e espera-se que quem venha atrás feche a porta!…

Entre 2001 e 2018, excetuando S. Miguel, Santa Maria e Corvo, a população dos Açores diminuiu em todas as ilhas, e com números alarmantes sobretudo em S. Jorge e no Pico, ilhas que perderam, naquele período, mais de mil pessoas cada. Não relevando muito os casos de Santa Maria e do Corvo, que não têm muito significado em termos absolutos, a verdade é que o resultado demográfico das políticas desenvolvidas nos Açores nos últimos vinte anos trouxe como consequência o acentuar da macrocefalia populacional de S. Miguel e o declínio demográfico de todas as outras ilhas que veem a sua população reduzir. (ver Quadro)

Simultaneamente, o índice de envelhecimento da população dos Açores tem vindo consistentemente a aumentar nas últimas duas décadas. Em 2001, nos Açores, havia 0,6 idosos por 1 jovem até aos 15 anos; em 2018, o índice de envelhecimento passou para 0,9. Os indicadores são já preocupantes em ilhas como S. Jorge, Pico e Flores (1,5 idosos por 1 jovem), Graciosa (1,4), Corvo (1,3), Faial (1,2) e Terceira (1,1). S. Miguel é a única ilha em que o índice de envelhecimento é inferior à unidade (0,7 idosos por 1 jovem), mesmo assim, quase o dobro do que era em 2001. (ver Quadro 2)

Finalmente, outro indicador relevante do estado demográfico dos Açores: o saldo natural da população (a diferença entre o número de nascimentos e o número de óbitos). E, preocupantemente, o cenário assustador repete-se: excetuando S. Miguel, em 2018 o saldo natural da população foi negativo em todas as ilhas, isto é, em todas as ilhas exceto S. Miguel o número de pessoas que morreu foi superior ao número de nascimentos, o que constitui um indicador demográfico negativo e altamente preocupante. Neste particular sobressai a ilha do Pico, com um saldo natural negativo mais elevado, seguida da Terceira, de S. Jorge, Faial e Flores. (ver Quadro 3)

Como já escrevi nestas páginas, intervir urgentemente na mitigação deste gravíssimo problema é um dever de governantes e responsáveis políticos. E é uma intervenção cada vez urgente e necessária e que quanto mais for adiada, maiores serão as consequências e mais difícil e mais demorada será a recuperação.
Continuar a ignorar estes números e esta realidade é condenar a maioria das nossas ilhas à desertificação. E, quando chegar esse dia, já não seremos Açores!

 

 

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