O Dia dos Açores

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O Dia da Região – em que comemoramos a açorianidade e a autonomia dos Açores – foi instituído em 1980, tendo sido escolhida para o efeito a Segunda-Feira do Espírito Santo.
Esta escolha representa bem a relevância de dois pilares que marcam a vida nos Açores: a fé no Espírito Santo e a autonomia política e administrativa da região.
Relativamente à primeira componente, a realização das cerimónias oficiais no concelho da Calheta, na ilha de São Jorge, permitiu-me conhecer uma forma muito peculiar e muito forte de praticar e sentir a crença. Ver os jorgenses junto à estrada a convidar todos os que passam para entrarem nos seus impérios, e observar o gosto que têm em receber bem e partilhar o queijo, o pão e o vinho com os seus convidados, que são todas as pessoas que por ali passam – a maioria dos quais perfeitos desconhecidos – não deixa ninguém indiferente. Este contacto reforçou a noção que já tinha, de que a fé no Espírito Santo é uma das grandes pedras agregadoras do povo dos Açores e uma verdadeira marca identitária das gentes das nossas ilhas.
A autonomia política, por seu turno, foi o instrumento nuclear para os Açores conquistarem órgãos de governo próprio. Desta forma, o projeto autonómico colocou mais próximos governantes e governados, representantes e representados. E esta é precisamente uma das questões-chave da autonomia dos Açores, não deixar aumentar a distância entre eleitos e eleitores, e lutar com toda a determinação para não permitir que o centralismo de Lisboa seja substituído por outros centralismos.
A grande Natália Correia iniciou a letra do hino dos Açores – que a esmagadora maioria não conhece – da seguinte forma: “Deram frutos a fé e a firmeza, no esplendor de um cântico novo, os Açores são a nossa certeza, de traçar a glória de um povo”.
Para que este nosso desafio seja cumprido, em cada dia e em cada momento, todos temos que trabalhar, pois há ainda um longo caminho a percorrer. Temos dado passos, é certo, mas deveríamos estar já noutro patamar de desenvolvimento. Ao fim de 43 anos de autonomia, não é aceitável que continuemos na cauda do país e da Europa em vários parâmetros sociais e indicadores de desenvolvimento regional.
E as diferenças entre ilhas, quanto à velocidade a que se desenvolvem, são cada vez mais preocupantes.
Há ilhas que crescem em investimento, em cuidados de saúde, em oportunidades de emprego e outros fatores associados. Mas a maioria das ilhas experencia uma realidade diferente, marcada pela estagnação, pela falência de vários negócios que outrora foram sólidos e deram emprego a muita gente, e pela saída dos seus habitantes na procura de trabalho e de melhores condições de vida. Nestas, o envelhecimento da população e o risco de desertificação são uma realidade, fruto da incapacidade de criar oportunidades para todos nas nove parcelas do arquipélago.
Os Açores não precisam de discursos cor-de-rosa, que não resolvem os problemas que as pessoas sentem diariamente. Precisam de medidas concretas para melhorar as suas vidas, precisam de oportunidades em todas as ilhas e não apenas para uma elite, mas para todos os que quiserem trabalhar. E precisam de uma política de desenvolvimento que considere as nove ilhas da região.
Os discursos otimistas devem resultar desta atitude positiva e de políticas públicas com dimensão regional e visão para o futuro.
Numa alusão ao discurso de João Miguel Tavares nas comemorações do Dia de Portugal, e realçando a feliz comunhão que o calendário este ano proporcionou, fazendo coincidir o Dia da Região e o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, sublinho que os açorianos também precisam de ter algo em que acreditar.
Não podemos passar ano após ano a debater-nos com o mesmo problema, quer seja de transportes ou de saúde. Precisamos de ver qual o caminho a percorrer, precisamos de saber que podemos trabalhar para lá chegar, e precisamos de saber que é possível ter um futuro na ilha em que nascemos ou que escolhemos para viver.

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