O emergente caos no transporte marítimo de mercadorias

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O Furacão Lorenzo, de má memória para os açorianos, veio colocar a nu muitas das debilidades com que as nossas ilhas se confrontam hoje em dia. Desde infraestruturas portuárias desadequadas, passando por infraestruturas rodoviárias em mau estado de conservação, até ao ultrapassado modelo de transporte marítimo de mercadorias, tudo veio ao de cima com aquele fenómeno da natureza.
Nas ilhas do Grupo Ocidental tais factos foram sentidos de maneira particularmente significativa, com ruturas no abastecimento de mercadorias e de combustíveis, bem como no escoamento do gado.
Foram semanas e semanas de espera por mercadorias que tardaram em chegar, que se acumulavam em outros portos da Região, que se deterioravam em contentores, a aguardar por um navio que tardou, por melhorias do estado do mar e pela reparação das infraestruturas destruídas.
Esse preocupante problema do abastecimento de mercadorias estendeu-se há uns dias atrás à segunda ilha mais populosa da Região, a ilha Terceira. A falta de fruta, de ovos, de vegetais e legumes fez-se sentir com grande intensidade e causou relevantes prejuízos à economia da ilha, o que levou inúmeros empresários a reclamar contra o modelo vigente neste tipo de transporte marítimo.
E quando se pensava que essa dificuldade no abastecimento de carga apenas atingia as outras ilhas, eis que a ilha do Faial se viu também confrontada, nas duas últimas semanas, com o mesmo problema.
Efetivamente, quem por esses dias se deslocou aos nossos hipermercados para fazer compras, rapidamente deu conta da falta diária de variados produtos essenciais para a sua alimentação, como sejam hortícolas, legumes, iogurtes e fruta, entre outros.
Não só os consumidores, mas também os agricultores faialenses sentiram na “pele” este desnorte no transporte marítimo de mercadorias, já que muitos animais que foram abatidos nesses dias e que tinham como destino o exterior, não conseguiram seguir viagem devido aos constantes adiamentos e cancelamentos do transporte, com as consequentes perdas e custos para esses profissionais.
Como é que o Governo Regional deixou chegar o transporte marítimo de mercadorias a este estado calamitoso?
Num momento em que proliferam os grandes entrepostos logísticos na ilha de São Miguel, onde com certeza os consumidores não sentem a falta de mercadorias nas prateleiras dos estabelecimentos comerciais, é inaceitável a existência de um défice de transporte marítimo de mercadorias para as restantes ilhas.
Há muitos anos, lembro-me, a Câmara do Comércio e Indústria da Horta tomou uma posição pública contrária ao modelo de transporte de carga que hoje vigora. Assumiu uma posição frontal e séria, demonstrando que o mesmo prejudicava na altura e prejudicaria no futuro a ilha do Faial.
Estava certa.
Mas, ao invés do que aconteceu no passado, aquela relevante instituição ainda hoje não se ouviu, não se manifestou nem tomou posição perante tamanha afronta aos empresários e aos consumidores faialenses.
É fundamental marcar posição acerca desta problemática – o próprio Conselho de Ilha deveria reunir-se extraordinariamente para a debater – para não corrermos o risco de, a breve trecho, nos equipararem em termos de abastecimento de mercadorias às ilhas das Flores e do Corvo.
Todas estas dificuldades sentidas no abastecimento às ilhas são a prova evidente do falhanço do atual modelo de transporte marítimo de mercadorias instituído pelo Governo Socialista, num setor estratégico para o desenvolvimento articulado de todas e de cada uma das ilhas dos Açores, e promotor da criação de riqueza e de emprego.
Há, por isso, que pensar urgentemente em criar um novo modelo, não que sirva apenas “razoavelmente a Região”, mas sim que cumpra a missão de um desenvolvimento harmónico e integrado das parcelas que a compõem.
Se assim não for a breve prazo, manter-se-á o cenário calamitoso a que temos tristemente assistido, com claro prejuízo para a economia regional e, essencialmente, para todos nós consumidores.

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