Aos olhos chegam-me sons e cores e músicas magníficas, formas unidas de sedução e amor. O sonho ouve-me contemplativo do esotérico olhar ao qual não descubro feições. Ele não se pode ver só se pode supôr. Conformo-me. Sinto-me trémulo e confuso perante o seu silencio. Não houve um vento que me desse uma premonição de que contestava o que lhe dizia. Apenas uma aragem dispersa, um vazio igual ao próprio sono quando nos lembramos dele. Observa-me como se me trespassasse ou me houvesse esquecido. Não. Eu é que olho energicamente sem o ver. Multiforme, mas distinto, como um ponto cintilante cegamente a espreitar. Está perto e posso ouvi-lo como o pulsar do meu coração, como o arfar do pulmão.
E tendo a noite como única certeza, rebolo-me no sono e pouso a cabeça, sem gastar depressa o devagar, na imensidão humana do silêncio. No sono tudo é longe mas cresce tão perto, turvo e tão nítido, presente e tão passado, concreto e tão dissolúvel, vivo e tão perecível. Dôo-me como se isto me arrancasse à carne que não sou dormindo. Impuro para o que penso e frágil para o que por ventura poderei lembrar de tudo aquilo.
Não é o mistério a semente de todas as questões? Veste-me. Estou nu dentro do meu sonho. Falemos. Ponho um chapéu e estendo a mão para que a toques e a acaricies e a ames. Vem para dentro das mobílias que tenho com os olhos para ti recolhidos, e senta-te. Quero falar-te ao lado mais humano, abrir as aspas da minha angústia, estender as asas das alegrias.
Vive. Consuma-te. O perdão não existe para perdoar. Existe para exercê-lo, não para enterrar mas para fazer nascer, não para silenciar mas para se fazer ouvir. Muitas vezes confundes a liberdade com essa unidade pela qual medes o lugar onde te prendes. Não há nada mais errado. Pensa. Um limite é um muro na retina, um obstáculo para o que sonhas. Lugar onde vais esperar o corpo estendido para a morte. O limite mede-se nos seus algarismos. Portanto, se olhares em volta põe uma mão na frente para fingir que te perdes. É sempre melhor do que estares seguro na outra embriaguez que te bebe, que seres redondo e imprudente, que seres distante só em números.
O sono insiste em ser cinzento onde haveria de haver a subtilidade das árvores, ou uma tenda simplesmente, ou uma cónica vela ardendo, ou uma panela, ou um murmúrio de vozes, ou uma criança gritando embirrada por a estarem a adormecer, ou um cão vagueando, ou o gado mugindo, ou uma estrela em movimento, ou tudo aquilo fazendo esse trabalho tão intenso de estar vivendo. Mas não, e eu não compreendo porque se desenha sempre esse compendio das primitivas e trágicas coisas pensativas, dos desumanos estrumes do sangue?
No entanto, este caminho que desenho por entre os frementes espaços do sono têm o dom de me adormecer o sangue. Vive demasiado incendiado durante o dia e há nesta visão enigmática uma claridade tranquilizante, um extenuar gratificante. O escuro do dormir é o intestinal da vertente do acordar. Vagueio por este retrato interior como se um vento me espalhasse. Penso num homem boreal que trabalha as mãos como harpas e na rosa que é inesgotável em suas pétalas brancas. O silêncio cá dentro assinala festivo a minha conclusão enferma. Preciso tocar aquelas pétalas, ver-lhes a hibernal função que são no meu sono. Estão porém longe.
O silêncio comunicante deste sono amplo e fotografado no desdescanso, percorre-me o corpo semiquente, o sangue que corre misturado pelas veias como se brilhasse uma tempestade, como se fosse todo eu um persistente arrojo de chuva, um processo magnético mas rubro, uma existência para lá dela mesma. E o azul que vejo não é o azul que vejo mas que toco, como se fosse verdade compreender as suas formas detalhadas, como se viesse eu distante num insepulto cometa, numa longa e regressada viagem. Sinto a vida formular-se de outra maneira, fundir-se à fosforência que por mim se espalha, adormecida, voada, calma, transparente, visionária.
Agora são as palavras que eu queria tivessem mãos. Mãos precisas e suspensas sobre todas as cores, uma casa privada dentro do seu silencio. Vejo-as, então, contemplando-te como se fosses um ângulo e dentro dele houvesse ouro e um homem com o meu nome procurando-o. Nasces e acho no mapa dos teus cabelos o menino que fui agora dentro deles sem dormir. Visto a bailarina que és, tão antiga e formosa nas músicas que tenho. Descubro, depois, que tenho medo em dizer-te tudo isso, que há uma espada afiada e ocasional a vigiar-me. Amargo-me, queria que fosses hoje e nem sei e, por demais ignoro, se podes ser um amanhã. Não interessa, respeito a tua seda e é por ela que o meu coração é uma véspera. Estás tão longe e demora tanto a tua voz.












