
O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho
O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo
Chico Buarque, letra da música: O que será (À Flor da Terra)
Li com interesse, na última edição do Expresso, uma entrevista de Madeleine Albright, antiga secretária de Estado dos EUA, a propósito do seu mais recente livro “Fascismo — Um Alerta”, agora publicado em Portugal*. A autora olha com preocupação para o mundo e analisa a ascensão de regimes isolacionistas e antidemocráticos. Nesta entrevista ao Expresso diz, entre outras coisas, que “um fascista é alguém que se identifica fortemente com — e fala em nome de — toda uma nação ou um grupo, não se importa com os direitos dos outros, e está disposto a usar quaisquer meios necessários, incluindo violência, para atingir os fins desejados. Nessa concepção, um fascista será provavelmente um tirano, mas um tirano não é necessariamente um fascista”.
Não consegui deixar de estabelecer um paralelo com o que se passa agora no Brasil, a braços com as eleições mais conturbadas da sua história democrática e a perspectiva de eleger um candidato absurdo para a presidência. Se é um fascista ou não deixo ao leitor a pergunta. Mas seja qual for a palavra usada para o classificar é bom não esquecer que, como disse Juremir Machado da Silva (um professor da Universidade Católica do Rio Grande do Sul):
“Jair Bolsonaro não é um candidato como outro qualquer. É pior.”
Bolsonaro é um imaginário, uma mentalidade, uma visão de mundo. O seu método de leitura do que acontece na vida é a simplificação. Torna o complexo falsamente simples por meio de uma redução a zero dos factores que adensam qualquer situação. Se há violência contra os cidadãos, que cada um receba armas para se defender. Se há impunidade, que a justiça seja sumária e sem muitos recursos. Se há bandidos nas ruas, que a polícia possa matá-los sem que as condições de cada morte sejam examinadas. Se há corrupção, que não se perca tempo com processos. Bolsonaro encarna o pensamento do homem medíocre, o homem mediano que não assimila explicações baseadas em causas múltiplas. Se há miséria, a culpa é da preguiça dos miseráveis. Se há crime, a culpa é sempre da má índole. Se há manifestações, é por falta de ordem. A sua filosofia por excelência é o preconceito em tom de indignação moral, moralista. A sua solução ideal para os conflitos é a repressão, a cadeia, o cassetete. Bolsonaro corporifica o imaginário do macho branco autoritário e denuncia uma suposta dominação do mundo pelos homossexuais. Com pretensa convicção amparada em evidências jamais demonstradas, diz:
“Não se pode mais ser homem neste país. Vamos ser todos gays.”
Jair Bolsonaro tem a cara de todos aqueles que consideram os índios indolentes, dormindo sobre latifúndios improdutivos, e os beneficiários de apoios sociais preguiçosos que só querem mamar nas tetas do Estado. É o sujeito desinformado que sustenta que na ditadura não havia corrupção. É o empresário ambicioso que se for para ganhar mais dinheiro abre mão da democracia. É o produtor que vê exagero em certas denúncias de trabalho escravo. É o homem que acha normal, em momentos de stress, chamar a mulher de vagabunda. O eleitor padrão de Bolsonaro sonha com uma sociedade de homens armados nas ruas, sem legislação trabalhista, sem greves, sem sindicatos, sem liberdade de imprensa. O projecto de Bolsonaro é o retorno a um regime de força por meio do voto. Aparelhamento da democracia. Na parede do imaginário e de certas propagandas suas e dos seus fiéis aparecem ditadores. O seu paraíso é o da paz dos cemitérios e das prisões para os dissidentes. Um imaginário é uma representação que se torna realidade. Uma realidade que se torna representação. Bolsonaro é um modo de ser no mundo baseado na truculência, na restrição de liberdade, na eliminação da complexidade, no encurtamento dos processos de tomada de decisões. Bolsonaro usa a democracia para asfixiá-la. É um efeito perverso do jogo democrático. Condensa uma interpretação do mundo que não suporta a diversidade, o respeito à diferença, a pluralidade, a dissensão, o conflito, o embate. Inculto, ignora a história. Não há dívida com os escravizados e seus descendentes. A culpa pela infâmia da escravidão não é de quem escravizou. O presente exime-se do passado. Bolsonaro é a ignorância que perdeu a vergonha. Contra ele só há um procedimento eficaz: o voto. Se necessário, o voto útil.”
Mas se o professor Juremir define bem o projecto de Jair Bolsonaro, e o que ele representa para o Brasil, as últimas sondagens não parecem indicar que os eleitores brasileiros vão usar o voto para afastar essa enorme ameaça à democracia brasileira. A confirmarem-se as sondagens, na segunda volta das eleições, Bolsonaro só não ganha entre os mais pobres dos pobres e entre os eleitores menos escolarizados. No Brasil os mais pobres normalmente também são os menos escolarizados. Não me surpreende a divisão entre ricos e pobres nas intenções de voto ali, até faz sentido. Mais intrigante é não se observar semelhante tendência ao nível etário e Bolsonaro ser o preferido dos eleitores de todas as idades, ter a maior percentagem de votos entre as mulheres, também no grupo de pessoas com escolaridade superior e ficar na frente mesmo entre a classe média e média baixa. A sondagem, do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, é perturbadora… Será apenas uma reacção à governação de esquerda de Lula da Silva, o único ex-presidente brasileiro preso por corrupção? Será a falência das instituições democráticas? Será a situação económica e social? Será o medo da violência associada ao crime e ao narcotráfico que alastra pelo Brasil? Será o feitiço das “fake news” e da manipulação das massas? Será aquela mania de imitar os States? “O que será que será?” Já cantou o Chico Buarque que “todos os avisos não vão evitar”…
P.S. Esta semana complemento a observação do que se passa no Brasil e a leitura da entrevista de Madeleine Albright ao Expresso com o livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt**, ambos professores em Harvard, dedicaram mais de 20 anos ao estudo da queda de democracias na Europa e na América Latina, de leitura obrigatória nos dias que correm. Embora motivado pela ascensão de Trump ao poder, e o actual estado da política norte americana, o livro está longe de ser apenas sobre isso. É um olhar revelador sobre o fim das democracias em todo o mundo e um guia para as resgatar. Explica, através de exemplos históricos, como ascendem ao poder de forma democrática os populistas e como a própria democracia pode ser minada a partir de dentro, de forma aparentemente legitima, pelos autocratas que a desprezam. Aborda os calcanhares de Aquiles da democracia e de como ela se deve proteger com base nas lições do passado. Vale a pena. Pouco mais de 200 paginas de leitura fácil e muito informativa. Faz reflectir sobre tudo aquilo que implica uma democracia saudável: a participação, a separação de poderes, os mecanismos de contrapoder (institucionais e da sociedade civil), o pluralismo e o reconhecimento da legitimidade do adversário politico, entre outras coisas. Dizem os autores que “As democracias já não se desmoronam mediante uma revolução ou golpe de Estado, caem aos poucos, através do enfraquecimento das instituições fundamentais, como os tribunais e os órgãos de comunicação social, e do desgaste gradual de normas políticas de longa data. Mas nem tudo está perdido. O autoritarismo pode ser revertido.”
* “Fascismo – Um Alerta” de Madeleine Albright. Edição: Clube do Autor, 2018.
** “Como Morrem as Democracias” de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Edição: Vogais, 2018

Apoiantes de Bolsonaro fazem a saudação nazi. Fotografia de autor desconhecido.













