Padre Marco Luciano, diretor do Museu de Arte Sacra da Horta – “Queremos que este seja um museu vivo”

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Parte integrante do Complexo do Carmo, o Museu de Arte Sacra da Horta (MASH) é inaugurado amanhã, 29 de maio, a partir das 20h00, com a presença do Bispo de Angra. A cerimónia é restrita, fruto da época em que vivemos, no entanto será
transmitida na página de Facebook do município da Horta.
A dias da inauguração, fomos conhecer o espaço, guiados pelo Padre Marco Luciano Carvalho, diretor do Museu, que pretende fazer dele uma entidade viva, e não um simples repositório de obras de arte.

A dias da inauguração do MASH, visitar o espaço que o acolhe, no Complexo do Carmo, implica uma cuidadosa gincana entre obras que aguardam o seu destino e elementos à espera de serem finalizados para o grande dia, na confusão típica que antecede as inaugurações. A conduzir-nos, o Padre Marco Luciano segue como peixe na água. Os seus pés sabem de cor onde pisar, ligeiros, e na sua boca há algo para dizer sobre cada uma das peças. A sua dedicação de anos a este património revela-se na sabedoria que partilha, e no entusiasmo com que o faz.
A chegada do MASH ao Carmo é um longo regresso à casa que nunca o chegou a ser. Em 1996 iniciaram-se obras no convento para acolher o então Museu de Arte Sacra e Etnografia Religiosa (MASER), sedeado em São Francisco, no entanto o sismo de 1998 deitou por terra essas aspirações. Com o retomar da reabilitação do Carmo, 2020 surgiu como uma nova esperança para o projeto. No espaço de um ano surgiu o MASH, uma instituição com estatutos próprios, que ganha agora uma casa física, para um projeto novo e singular.

Museografia em criação partilhada
“Queremos que seja um museu vivo; não um espaço onde se coloquem coisas, mas um lugar onde as pessoas podem ir até às raízes da presença deste povo nesta ilha, com este ADN religioso que temos”, explica Marco Luciano, enquanto apresenta a sala que dá o ponto de partida à visitação, no antigo consistório do Carmo. Com imagens que remontam ao povoamento da ilha, a sala convida não apenas à visita ao museu, “mas também a participar da sua construção”. “Queremos que as pessoas contactem connosco, que nos deem ideias, ajudem a construir os temas…”, exemplifica.
Com cinco salas de visitação, a que acresce a Igreja do Carmo, parte integrante do museu, o MASH permite também uma visitação demorada, com consulta de bibliografia ou visionamento de vídeos, para quem estiver interessado em aprofundar conhecimentos.
Descendo do consistório, encontramos a exposição “Ao ritmo da liturgia”, com duas salas, uma de paramentaria e outra de ourivesaria, com alfaias religiosas, amostras daquilo que é o espólio do MASH, peças de grande valor não apenas material mas também histórico, algumas delas ilustrativas de ritos litúrgicos que hoje já não se utilizam. Isto vai ao encontro do objetivo didático do museu: “não vamos ter só peças expostas, mas dizer às pessoas para que é que serviam e servem”, explica o diretor.
Também a exposição “A fé que gera a Arte”, com esculturas do período barroco, tem um objetivo que vai além da exibição de peças de arte: “queremos dar a conhecer a vida destes santos, por isso cada um terá uma nota biográfica, para que as pessoas desfrutem não apenas das lindíssimas esculturas, mas que tirem lições das suas histórias para a sua própria vida”, refere.
A sala de exposições temporárias abrirá com a exibição “Maria na Arte”, que procura refletir a iconografia da Mãe de Jesus ao longo dos tempos, numa homenagem ao cariz mariano do convento que acolhe o museu.
De notar a integração da Igreja do Carmo no circuito museológico, onde estão patentes várias exposições, destacando-se os Santos da Penitência da ordem Terceira Franciscana e a coleção do Triunfo do Século XVIII da Igreja do Carmo.
Todavia, o MASH não se esgota, alerta Marco Luciano, na exaltação do passado: “a arte sacra também existe na contemporaneidade, e queremos fazer um trabalho com artistas do nosso tempo, para apresentar peças contemporâneas. Queremos mostrar a vivência religiosa do ontem mas também do hoje, que nos projeta para o futuro”.

Um novo projeto para o Faial

Admirador do trabalho de recolha de Monsenhor Júlio da Rosa que originou o MASER, o diretor do MASH alerta para o facto deste novo museu não poder ser entendido como uma continuidade desse projeto. “O MASER foi um projeto que teve a sua conclusão. Este não é a sua continuidade, mas um novo projeto com objetivos específicos que, todavia, goza da recolha que foi feita nessa época pelo Monsenhor Júlio da Rosa”, explica. Essa recolha, património da Diocese de Angra, constitui um dos espólios do MASH, mas existem outros: os espólios das Ordens Terceiras do Carmo e de São Francisco, e o espólio da Matriz do Santíssimo Salvador da Horta. Além disso, o novo museu conta já com algumas peças próprias, entretanto doadas.
O MASH será aberto à visitação do público já na segunda-feira, dia 31. As visitas podem ser feitas de segunda a sexta, entre as 14h00 e as 18h00, com encerramento ao sábado. Ao domingo, depois da missa das 09h00, é possível fazer uma visita guiada ao espaço.

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