Por: Martim Medeiros e Simão Dias
Pedro Silva, atualmente treinador da equipa sénior do Sporting da Horta, começou a sua caminhada andebolística no Saavedra Guedes, associação cultural
e recreativa de Pardilhó, freguesia do município de Estarreja, distrito de Aveiro, de onde é natural.
Passou, depois, pelo Artística de Avanca, e pelo Estarreja AC, acabando finalmente no clube da Rua Eduardo Bulcão. Desde 2015 que veste a camisa riscada vermelha e branca, presenciando subidas e descidas, e ajudando a escrever a história do clube, como mais uma vez mostrou com a recente
requalificação.
Em conversa com o Tribuna das Ilhas fez um balanço da exigente temporada, levantou a ponta do véu do regresso à elite do andebol português e sublinhou
o importante trabalho que tem vindo a ser realizado na formação.
Tribuna das Ilhas – O que pensou inicialmente do seu plantel?
Pedro Silva – Eu montei o plantel. Uma construção, obviamente, ajustada às perspetivas e orçamento, quando passava pela manutenção na Divisão de Honra e por conseguir criar bases para, na época seguinte, tentar disputar a subida. Criámos um grupo jovem com uma média de idades de cerca de 21 anos, com a expectativa que eles pudessem crescer e desenvolver para que, no ano seguinte, pudessem ser os pilares da possível tentativa de subida à primeira divisão.
TI – Onde existiam mais lacunas?
PS – Eu acho que lacunas tínhamos em todo lado… A grande dificuldade do plantel era ser muito curto. Tínhamos qualidade, jogadores que acreditávamos que podiam crescer, mas que precisavam de tempo e de errar. Esse é o problema de termos de crescer em competição. É difícil dizer um sector ou uma posição, acho que era geral, era transversal. Os nossos atletas tinham pouca experiência e pouco nível competitivo para o qual fomos inseridos com a estruturação da Divisão de Honra. Penso que aqui a grande limitação era, claramente, a pouca profundidade do plantel. Sabíamos também que com lesões íamos ter problemas, e infelizmente elas aconteceram…
TI – E a nível de estrutura, quais eram as maiores dificuldades?
PS – Acho que elas são conhecidas. Existem muitas lacunas, muitos problemas, que advêm do passado, um bocado longínquo. A equipa técnica era eu, um pouco ajudado pelo Diogo Carvalho enquanto esteve lesionado, mas restringia-se a isso. Depois tivemos o Gabriel, enquanto fisioterapeuta, que também saiu por motivos pessoais, em março, e o Flávio no backstage, e pouco mais… Tudo o que eram dinâmicas, o Jorge Rosa tratava, acima de tudo em termos de papelada e burocracia, que é extensa e que é difícil. Mas, obviamente, há muitas lacunas na estrutura principalmente para o nível que estamos a competir.
TI – Esta temporada foi cheia de altos e baixos, alegrias e tristezas… Para si, qual foi o momento mais feliz?
PS – O momento mais feliz podemos dizer que foi o último, a subida… Mas eu julgo que, o mais feliz foi a nossa vitória contra o Porto B. Foi o gatilho e o catalisador de tudo o que aconteceu a partir daí. Nós, em fevereiro, estávamos em 11.º, com mais uma derrota ficávamos matematicamente afastados do grupo A, tínhamos perdido com o Almada em casa, fomos perder a Santo Tirso, e depois fomos jogar com o Porto B, no qual o Miguel Gomes não podia jogar, porque era um jogo adiado- ele não estava inscrito na altura, tínhamos as lesões – o Liberato tinha sido operado, o Diogo Carvalho ainda estava a recuperar da operação. Conclusão, fomos com seis seniores, e o Henrique Feio, um juvenil. Tivemos de disputar o jogo todo contra uma equipa com que tínhamos perdido em casa na primeira volta. Não sei se foi o mais feliz, mas o mais importante. Sempre que ganhamos é muito importante e muito feliz, obviamente que subir é o momento mais feliz, mas para mim o mais importante, juntando a importância e a felicidade, digamos assim, foi a vitória com o Porto B, por tudo o que desencadeou.
TI – E o momento mais triste/mais difícil de ultrapassar?
PS – Penso que isso é bem mais difícil… Foram muitos… Posso salientar o falecimento da Júlia, foi difícil, foi ainda por cima depois de uma derrota também difícil com o Benfica B. Foi uma semana dura para os atletas, chamámos-lhe a “Semana do Remember”, para eles se lembrarem de algumas coisas que custam. Eu diria que a perda da Júlia juntamente com a saída do Gabriel foram momentos muito difíceis. Com diferentes pesos, mas foram os momentos mais difíceis.
TI – Qual foi a maior motivação?
PS – Acho que isso é transversal, não há receitas, não há uma fórmula única. Acho que nós nos agarrámos ao trabalho, mas cada um tentou ultrapassar à sua maneira, uns melhor que outros… Obviamente que alguns elementos desta equipa não tinham uma afinidade tão grande com a Júlia, mas para os elementos mais velhos, como eu, o Gabriel, o Miguel Bagaço, o André Lourenço foi difícil… Fomos lidando, é esse o termo, não podemos dizer “fizemos isto e resolvemos tudo”, acho que fomos lidando e, mesmo no final, também foi um bocado a emoção misturada com o peso de pelo menos poder brindar a Júlia com esta subida.
TI – Sobre a subida, e olhando para os objetivos do início da época, (manutenção), achou que seria possível?
PS – Eu mentiria se dissesse que não. A verdade é que quando nós perdíamos, o meu discurso tanto dentro da equipa como fora era de que, em termos de jogo, em termos de complexidade, podemos entrar pelo caminho mais em termos andebolísticos, eu sentia que nós éramos uma equipa complexa, difícil de analisar, mas estávamos a falhar em pequenos pontos muito básicos, mas que eram essenciais e que nos estavam a tirar muitos pontos. A maior parte dos jogos que perdemos foi muito demérito, obviamente que há mérito do adversário, mas nós tivemos demérito em termos de finalização, em termos de falhas técnicas não provocadas, são coisas que não é suposto. Temos de puxar a fita atrás e lembrar-nos que só tivemos a equipa quase completa a primeira vez em outubro, foi quando o Quintino chegou. O Quintino foi um elo importantíssimo no sistema defensivo, passa a defender a terceiro, zona central, o próprio sistema defensivo 6:0 é completamente alterado em termos de comportamentos, apesar de ser o 6:0, foi um 6:0 com uma base de 3:3, por isso nós não defendíamos bem 6:0, era um 3:3. Muitas pessoas não percebiam porque é que nós defendíamos tanto tempo 3:3, no início da época, era porque estávamos a preparar este 6/0. Tudo isso leva tempo.
TI – Chegou ao Sporting como jogador, alguma vez achou que iria ser o treinador da subida?
PS – Nunca na vida…. Primeiro não pensava que fosse descer… Tenho de admitir, quando venho para cá em 2015, o objetivo era lutar pelos cinco primeiros lugares da Primeira Divisão. Esta era uma realidade muito diferente da que temos agora. O objetivo passava por estar aqui um ano ou dois e sair. Tive várias vezes para sair, mas nunca saí, talvez porque tinha mesmo de ficar, tinha de descer no último jogo da minha carreira como atleta, para depois ter de voltar sendo que também não posso esconder que a área do treino sempre me apaixonou e que esteve presente na minha vida.
TI – Enquanto jogador, e mais tarde como treinador, o que o realizou mais?
PS – Esta subida. Eu disse à Antena9, esta subida foi algo que eu nunca tinha vivenciado. Enquanto atleta fui quatro vezes campeão nacional, três enquanto sénior, com três subidas de divisão, mas nenhuma representa sequer um terço daquilo que foi esta. Lembro-me de muitos clubes dizerem em jeito de brincadeira, ou apostarem com atletas nossos que nós nem sequer íamos ao Grupo A. Gostava de salientar que não foi um acidente, porque uma equipa que contra as três primeiras classificadas e que tinham um objetivo de subida (Santo Tirso vinha da Primeira Divisão e reforçou-se, o São Bernardo acabou em primeiro na fase regular com mais cinco pontos que nós, o Dom Fuas que tem um investimento assustador), ganha cinco em seis jogos na fase final, e aquele que perdemos estávamos por um com posse de bola. Conclusão, até esse poderíamos ter ganho. Uma equipa que consegue bater de frente com estas tem de ter muito mérito.
TI – Os seus atletas foram parte muito importante desta conquista, aliás como já referiu… O que pode dizer deste grupo?
Não há palavras. São heróis, não consigo adjetivar de outra forma. São profissionais de excelência, um grupo extremamente unido, com uma capacidade de resiliência, de lidar com a dificuldade, acima da média. Acho que a melhor adjetivação é heróis, são uns profissionais gigantes.
TI – Qual é o perfil que um jogador do Horta deve ter?
PS – Eu acho que é a adjetivação da pergunta anterior. Profissionalismo é aquilo que nós pedimos. Quando assumi o clube há dois anos, quando descemos, uma das coisas que exigi aos atletas foi que não fossem apenas jogadores de andebol, que se envolvessem com a comunidade, se aproximassem da formação, que soubessem estar. Que fossem atletas do Sporting da Horta, que isso fosse um diferenciador. Têm de encontrar soluções e não problemas, porque toda a gente sabe que problemas temos nós e são muitos. Temos de olhar para os problemas e encontrar forma de os tornar pontos fortes. Acima de tudo o profissionalismo e ambição, foi tudo o que esta equipa teve.
TI – Quais as maiores dificuldades de gerir um plantel tão curto?
PS – As dificuldades são as óbvias, podemos perder um atleta, quer seja por problemas físicos quer, seja por problemas disciplinares. É preciso ter muita sensibilidade a gerir alguns momentos de crise. Aqui com a sobrecarga, é difícil continuar a exigir a esta equipa, ou como eu exigi a esta equipa, tendo um plantel tão curto. O que eu quero dizer é, tendo um plantel tão curto é fácil cair aqui na premissa de dizermos “temos de descansar mais”, “temos de dar maiores tempos de descanso”, a questão do treino da intensidade e do volume do treino serem reduzidos, porque corremos riscos. São sempre os mesmos a treinar, são sempre os mesmos a chocar, são sempre os mesmos a rematar e isso obviamente pode aumentar aqui os índices de risco de lesão, mas tive a sorte, a verdade é essa, tive a sorte de ter um grupo que não olhava para isso, não olhava para a limitação do plantel, aqui em termos de profundidade, e a exigência posso dizer que era como se estivéssemos um plantel de vinte. Eles treinavam a duzentos, nunca houve uma queixa de, “estamos cansados”, “estamos a treinar muito”, isso não existiu. Posso dizer que o descanso foi muito pouco e que treinámos mesmo muito. Poderia ser um problema, mas felizmente pelo grupo que temos, pelas características não o foi.
TI – Qual é a importância de um fisioterapeuta numa equipa destas?
PS – Quem me conhece sabe que, para mim, é muito importante. Tivemos a sorte, apesar de ele não ter terminado fisicamente, ele esteve sempre presente, o Gabriel. É determinante, foi papel importante, porque este ano acho que não tivemos nenhuma lesão muscular, obviamente que isso tem haver com o trabalho de prevenção que é feito no ginásio, mas muitas horas o Gabriel esteve com os atletas. Posso dizer que quase todos os dias, isto nos cinco dias da semana, quando não viajávamos à sexta, aí eram quatro dias, trabalhava com a maioria dos atletas, quando digo a maioria eram dez, oito, nove, que estavam constantemente na sala de fisioterapia a fazer o trabalho de reforço e prevenção, uma hora e meia a duas antes do treino. Isto obviamente permitiu-nos chegar ao final da época com jogadores totalmente recuperados, que vinham de operações ao joelho, e não termos nenhum tipo de lesão, a não ser traumáticas de curta duração e a que quanto a essas não há nada a fazer. Para mim é muito importante, mesmo muito importante ter um fisioterapeuta, porque permite reduzir ao máximo os índices de risco de lesão.
TI – O Sporting volta à elite, pode levantar o véu da próxima época?
PS – Há muito véu para levantar. O que eu posso dizer é que a comissão está a tentar criar formas e mecanismos de estabilizar o clube no seu espectro mais global. Relativamente à equipa sénior, estamos a trabalhar nesse sentido, o presidente da comissão, Carlos Morais, disse há uns dias que eu deverei continuar, está praticamente tudo certo, faltando basicamente uns pormenores e uns detalhes. Estou a trabalhar na construção do plantel, devo continuar. O plantel também vai ter, na sua maioria, a base do ano passado, tirando três jogadores que saíram por opção, por terem projetos mais ambiciosos. Será um bocadinho na linha desta época, manter a base, acreditar no trabalho que vai ser feito, no desenvolvimento dos atletas, que vão crescendo com a competição. Temos todos de ter noção que os primeiros dois a três meses serão muito duros para nós… será a adaptação a uma realidade e a um andebol totalmente diferente, com mais intensidade, mais choque. Isso leva tempo. Vamos chegar da Divisão de Honra, que já é um nível competitivo razoável, mas a Primeira Divisão é outra coisa. Estive na Primeira Divisão muitos anos enquanto atleta e não há comparação…
TI – Quais são os objetivos?
PS – O objetivo só pode ser um… é tentar lutar pela manutenção, sabendo que vai ser muito difícil. Vamos manter a base, 80% do plantel, que tinha como objetivo lutar pela manutenção na Divisão de Honra. Este ano vamos tentar a manutenção na Primeira Divisão, com esse plantel, obviamente vamos ter um pouco mais profundidade, mas vai ser na mesma linha, não vai haver aqui grandes contratações, jogadores muito batidos na Primeira Divisão, para trazer experiência, isso não vai existir. Neste momento está a criar-se um grupo com alguma qualidade, que nos faz crer que, mais uma vez com trabalho e uma pontinha de sorte, vamos conseguir a manutenção. Mais uma vez, sabemos que não vai ser nada fácil. Aqui não posso dissociar o facto de a Divisão de Honra terminar quase três semanas depois da Primeira Divisão. Quem sobe já tem dificuldade estruturais para criar um plantel competitivo, e o facto de nós termos terminado duas a três semanas depois da Primeira Divisão faz com que mesmo as equipas que se mantiveram na última jornada já estejam há duas semanas a contratar jogadores e a fechar contratos, que nós não poderíamos fazer porque não sabíamos se subíamos ou descíamos ou mantínhamos, neste caso. Obviamente é um fator muito importante.
TI – Acredita que a condição geográfica condiciona este clube relativamente aos clubes do continente?
PS – Eu acho que tem pontos positivos e pontos negativos, desde que cheguei cá que ouço muita gente a dizer que são uns coitadinhos porque estamos aqui, com pouca competitividade, mas isso também nos abre algumas portas… óbvio que cria muitas dificuldades, na questão da pré-época, na questão de trazer jogadores, …qualquer jogador para vir para o Faial é mais caro do que a jogar no continente, é mesmo uma diferença significativa, não digo o dobro, não nos pedem o dobro do que pedem a um clube do continente, mas pedem, se calhar, mais metade… faz peso no orçamento… Temos a questão das casas, todos os jogadores têm de ter casa, mais um custo, temos a questão dos voos… Mas também tem o outro lado, as equipas têm de vir cá, são viagens difíceis, apesar de nós fazermos isso semana sim, semana não, e termos esse desgaste acumulado. Mas sim, condiciona de certa forma, mais na preparação. Eu, por exemplo, estive a falar com um treinador que vai jogar contra nós para o ano e ele vai fazer oito jogos, na pré-época, só. Em quatro semanas faz oito jogos, nós vamos só começar, por essa lógica de ideias, à oitava jornada, quer dizer, é correr atrás, mas já tínhamos isso o ano passado e vamos, mais uma vez, procurar soluções, procurar minimizar esses problemas, sabendo que eles existem e que nós não vamos ter capacidade, de momento, para fazer uma pré-época com 1 ou 2 semanas no continente que nos permitisse realizar jogos de treino, isso não é viável neste momento. Como costumo dizer, “é o que é”, vamos encontrar soluções.
TI – Ficou algo por dizer?
PS – Acho que este ano foi feito um trabalho muito interessante, um bocado em contrassentido àquilo que vinha a ser feito. Estou aqui há dez anos, trabalhei, se calhar, sete ou oito anos como treinador na formação, este ano estive como coordenador, e acho que este ano foram desenvolvidas algumas coisas importantes que devemos salientar e manter para, no futuro, termos mais e melhores jogadores na formação. Gostava muito de salientar o trabalho do Fialho (Rui Alves, treinador dos sub-16 e dos sub-18), treinador de dois escalões, que conseguiu desenvolver claramente um grupo com qualidade, mas conseguiu, acima de tudo uma articulação entre os treinadores, que era algo que não existia, esta simbiose entre os treinadores. Isso aconteceu, conseguimos finalmente ir regularmente, todas as semanas, a partir de fevereiro, ao colégio (Colégio de Santo António) para fazer a captação de atletas. Conseguimos também criar vários momentos de treino individualizado, dado por mim e também por atletas seniores, acho que isso é algo importante, que já tinha acontecido o ano passado. Este ano, o facto de termos, por posto específico, os atletas seniores a participar num treino com a formação acho que foi importante, assim como o trabalho desenvolvido pelo Tiago Rocha, treino de guarda-redes todas as semanas, que também não existia há muito tempo, como um desenvolvimento do trabalho de ginásio, força física. Conclusão, houve aqui uma série de pontos que foram introduzidos, obviamente que há muito a melhorar também, não vamos dizer o oposto, há coisas a melhorar, no entanto houve essa preocupação tanto da minha parte como dos outros treinadores, o Fialho, o Diogo, o Miguel Bagaço e o Diogo Liberato. Gostava de deixar claro, que não há um desfasamento entre seniores e formação, antes pelo contrário, há cada vez mais uma aproximação e o objetivo é que cada vez mais a formação se espelhe nos seniores e vice-versa.















