Recordando figuras marcantes d’outrora – O Professor Faria

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Conheci-o, quando dei entrada no Liceu da Horta, e comecei a ser frequentador da sua sala de explicações situada na Rua do Meio, da freguesia das Angústias.
Logo, à partida, a sua condição de “invisual” impressionou-me fortemente, já que me era difícil compreender que uma pessoa, sujeita a tal condicionalismo, pudesse orientar-nos e elucidar-nos sobre os temas inerentes aos currículos ministrados nas aulas liceais.
O Professor Faria era uma figura alta, magra, de cabelos brancos e óculos escuros que, ordinariamente, se passeava pela sua sala de explicações, enquanto nos ia elucidando sobre as nossas dúvidas e dificuldades que, no momento era motivo da nossa preocupação.
Curiosamente, aquilo que mais me impressionava naquele velho mestre, é que, apesar da sua condição de “cego”, conseguia fazer-nos perceber e resolver tantas e tão complicadas dificuldades, particularmente nas áreas da Matemática e Geometria.
Recordo, também do, então, meu professor liceal de Matemática, por certo já falecido, um coimbrão divertido e assumido, me dizer, numa aula, que gostava de conhecer o Professor Faria.
Na altura não me foi difícil levar o dito professor liceal a casa do Professor Faria e, recordo, como se fosse hoje, as palavras que ele proferiu, que terão sido, mais ou menos, estas: – “Caro Professor Faria, ansiavam há algum tempo, conhecê-lo, pessoalmente, já que a sua condição de “cego” impedia-me de pensar e admitir a ideia de que pudesse ensinar e resolver tantos e tão variados problemas, delicados e intricados, contidos nos manuais escolares, então utilizados”.
Recordo, com saudade, este idoso esclarecido cidadão que, nas horas de lazer, tanto apreciava “saborear” um cigarro, da marca “Alvo” e de nos contar lindas e atraentes histórias sobre a vigência da primeira República, que ele tanto sublimava, na sua condição de democrata convicto.
Lembro-me, ainda, de estar presente, por sinal bem jovem, ainda, na sede do Angústias Atlético Clube, aonde se promoveu uma sessão cultural, exaltando as suas capacidades teatrais.
Fiquei a saber, ainda a seu respeito, que este prestável cavalheiro havia exercido, na Horta, as funções de Inspector Escolar.
Era um cavalheiro que, apesar de “cego”, gostava de passear, ostentando a sua bengala, e, também, acompanhado por um seu sobrinho dedicado, que me recordo, falava inglês, com muita qualidade.

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