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Reflexões Crónicas | Sabor a Ferrugem

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Há poucos meses recebi uma mensagem do Francisco dando a conhecer “este outro lado” seu e informando que tinha acabado de publicar dois livros: Sabor a Ferrugem (“colectânea de contos”) e Caderno de Campo (“livro de poemas”). Conhecendo o Francisco não foi uma surpresa total – mesmo sem o ter visto escrever –, mas não deixou de ser inesperado. Sobre os poemas não falo, pois ainda os estou a digerir – e a Poesia é para comer, não para comentar.

Sobre os contos, cada um tem realidades diferentes e aparentemente independentes, que vão deixando fins em aberto. A leitura parece por vezes quase interrompida, suspensa de súbito, deixando-nos na inquietação de descobrir o que acontece a seguir e na agonia de não o poder saber. É um resultado secundário do artifício, mas à medida que se lê tudo vai tomando forma e valendo pela forma: pelos parágrafos e pelas palavras, pelas linhas e entrelinhas, pelos conteúdos subjacentes mais que pelo óbvio, por isso o percurso objectivo da personagem, de onde veio ou para onde vai, perde a importância imediata.

Vamos descobrindo o imaginário do autor, onde espécies de flora servem de metáforas, no cenário de ilhas onde circulam turistas, imigrantes e navios de várias eras, e ainda algumas personagens da História e da Literatura, “apropriadas” (expressão do autor) ou mais ou menos mitificadas. Outras poderão ser caricaturas de um quotidiano intemporal. Isto reduzido à superfície, mas a Literatura está na profundeza. E nestes contos há talvez tanto de profundeza quanto de profundidade. O imaginário expande-se para lá da ilha, da realidade, da verosimilhança e da cronologia do tempo presente, ou seja, para lá do permitido por estes limites. Se no início torci o nariz com referências a futebol ou o roubo dos dedos de Tutankhamon (sacrilégio!), avançando na leitura mergulhamos num universo onde as ilhas são o mero cenário onde acontece a vida, que é mais profunda que os barcos ou a vista do Pico. Desde um pai que mata um filho a um casal que decide transformar livros em palavras, passando pela vida difícil do século XVIII e pela podridão da política contemporânea, este conjunto de contos traz à tona as profundezas do bicho-homem e, numa boa analogia biológica, podia chamar-se Húmus, não estivesse o título já tomado. Talvez por isso se chama Sabor a Ferrugem – enquanto Raul Brandão nos deixou o cheiro à podridão da vida com a D. Procópia ou a D. Penarícia, o Francisco deixa-nos o sabor a ferrugem do filicida, mas também da Dona Clotilde, exilada por obrigação matrimonial na Fajã; da Marlene, que entrega o corpo ao presidente da câmara em agradecimento de favores políticos; do Vitorino, que assiste ao enterro de Margarida Clark Dulmo enquanto se queixa da construção de um hotel com vista para o cemitério; e de outras ferrugens para saborear.

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Leia-se: Francisco Medeiros, Sabor a Ferrugem e Caderno de Campo, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2026.

 

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