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Retalhos da nossa história – 280 – Ouvidor José de Freitas Fortuna

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Digno sucessor dos ouvidores da Horta que o antecederam, o padre José de Freitas Fortuna nasceu na freguesia dos Cedros da ilha das Flores a 12 de Abril de 1929 e nela foi baptizado a 14 do mesmo mês e ano. Foram seus pais Maria de Lourdes Vieira Fortuna e Nestor Machado Fortuna.
Ingressou no seminário diocesano a 3 de Outubro de 1942, destacando-se como um aluno brilhante. Doze anos de intenso estudo e de preparação para uma vida pastoral inteiramente dedicada ao serviço de Deus e das pessoas, culminaram na ordenação sacerdotal a 30 de Maio de 1954.
Colocado na Matriz da Horta em 13 de Outubro desse mesmo ano como vigário cooperador do inesquecível pároco e ouvidor Pe. José Pereira da Silva – mais tarde Vigário Geral da Diocese e Prelado Doméstico de Sua Santidade com o título de Monsenhor – o padre José Fortuna foi nomeado, decorridos apenas 10 meses, vigário da Candelária da ilha do Pico (12.08.1955) e ouvidor substituto da Madalena (11.01.1956).
Em 4 de Setembro de 1958 assumiu o cargo de vigário e ouvidor da Matriz da Madalena, aí permanecendo até à sua vinda para a Matriz da Horta em 1967.
No Pico deixou bem vincada a sua acção apostólica e a sua forte personalidade de sacerdote, traduzidas em profundo dinamismo pastoral de que seriam expoentes as Festas Centenárias da Igreja de Santa Maria Madalena e o V Centenário do Povoamento da Ilha do Pico (13 a 24 de Julho de 1960), a fundação do jornal “Bom Combate” (11 de Outubro de 1962), a participação na génese do Externato da Madalena, o exercício do cargo de provedor da Santa Casa da Misericórdia e outras actividades de índole social e caritativa.
Em 15 de Outubro de 1967 voltou à Matriz da Horta, agora como pároco nomeado pelo bispo D. Manuel Afonso de Carvalho que, na mesma data, o designou ouvidor substituto do Faial, cargo que assumiu plenamente em Setembro de 1973 pelo falecimento de Monsenhor Medeiros e que ininterruptamente exerceu até 1997.
Entretanto havia sido nomeado em 16 de Março de 1970 vigário episcopal para as ilhas de Faial, Pico, Flores e Corvo, nomeação que seria sucessivamente renovada até 1997.
Delegado na Ouvidoria dos Secretariados Diocesanos para a Educação Cristã da Infância e Adolescência e para a Pastoral Familiar, foi durante muitos anos Director Espiritual dos Cursos de Cristandade e dos Cursos de Preparação para o Matrimónio, bem como professor de Religião e Moral Católicas no Externato da Madalena, e de 1967 até 1999 no Liceu e Escola Secundária da Horta e também na Escola do Magistério Primário até à sua extinção em 1988.
Além do semanário “Bom Combate”, editou e dirigiu, desde 6 de Janeiro de 1968, “Vigília”, como boletim paroquial da Matriz, o qual se transformaria de 1975 a 1997 em semanário da Ouvidoria da Horta. Sucedeu-lhe, em 10 de Janeiro de 1998, “Ekklesia” o “novo semanário sócio-cultural-religioso que pretendia ser a voz e o espaço de diálogo da paróquia e freguesia que são o centro vital da cidade e da ilha”. Findou a 25 de Junho de 2005, no mesmo dia em que o padre Fortuna cessou funções de responsável pela paróquia da Matriz, onde durante 38 anos em assinalável atitude de serviço, prodigalizou o dom do sacerdócio que livre e conscientemente abraçava havia 51 anos, no já longínquo 1954.
Como ainda recentemente foi assinalado pelo esclarecido paroquiano Fernando Campos na sessão de homenagem que em 20 de Janeiro último lhe tributou a paróquia da Matriz, por iniciativa do actual pároco e ouvidor padre Marco Luciano e em que estiveram presentes o bispo diocesano D. João Lavrador e a presidente da Assembleia Legislativa dos Açores, Drª Ana Luís, aquelas duas publicações revestiram-se de “inegável interesse, de qualidade elevada, dado o seu espírito e conteúdo” tendo sido “um instrumento formativo e informativo imprescindível na vida da comunidade que serviu”. Verdadeiros “Anais da Paróquia e da vida da Igreja” neles estão registadas “toda a história da nossa família humana, desde o nascimento para a vida da graça (o Baptismo), até à derradeira viagem, rumo à eternidade, passando por todos os actos eclesiais em ordem à caminhada e vivência da Fé (Primeira Comunhão, Profissão de Fé, Confirmação, Ordem ou Matrimónio) bem como os principais acontecimentos da Igreja Universal (ouvidoria, diocese e todo o mundo católico) – uma verdadeira enciclopédia em conta-gotas”.
Entretanto, o padre Fortuna fora agraciado pela Santa Sé com o título honorífico de Monsenhor, distinção que sempre soube relativizar, e distinguido com expressivas homenagens que lhe proporcionaram os fiéis da Candelária, da Madalena do Pico e da Horta nas horas das despedidas ou nas celebrações festivas das suas bodas de prata e de ouro sacerdotais.
Estas últimas foram comemoradas, a 30 de Maio de 2004, a convite do bispo de Angra, D. António de Sousa Braga, numa eucaristia solene na Sé catedral e em que participaram outros colegas seus que, 50 anos antes, também haviam recebido o sacramento da Ordem.
Também a 18 de Julho desse ano, no 50.º aniversário da sua Missa Nova, foi a vez da paróquia da Matriz laurear o seu pastor. A concelebração eucarística de acção de graças foi presidida pelo bispo emérito de Angra, D. Aurélio Granada Escudeiro, que em sentida e sincera homilia intitulada “Página de uma vida sacerdotal” testemunhou de forma eloquente, o que foi a vida ministerial do homenageado, salientando o seu zelo apostólico e a firmeza das suas convicções, sempre buscando “as melhores formas de ser útil espiritual e pastoralmente às almas a si confiadas e a quantos precisavam do seu auxílio, incluindo os presos, os doentes e os imigrantes tanto dos países do Leste europeu como do Brasil, cujas aspirações e projectos de vida tem apoiado e a cujas necessidades no campo social e espiritual acorre com singular zelo e muitas generosidade”. E finalizava assim o bispo emérito de Angra: “Como Professor, como Pároco, como Ouvidor e até como Vigário Episcopal, sempre Monsenhor Fortuna se esmerou em bem servir, rompendo a marcha à frente de todos quando tal se impunha”.
Por mais um ano permaneceu o Padre Fortuna à frente da paróquia da Matriz da Horta, até que em 26 de Junho de 2005 foi substituído pelo Pe. António Saldanha. No dia imediato seguiu para Lisboa a consultas médicas de vigilância na sequência de intervenções cirúrgicas anteriormente efectuadas. O que se supunha ser uma viagem rápida e de mera rotina, transformar-se-ia, afinal, na sua última viagem. Um Acidente Vascular Cerebral (AVC) prostrou-o durante três meses no leito do Hospital Santa Maria e na Clínica de Recuperação de S. João de Ávila, onde faleceu a 30 de Setembro de 2005. Transladado para a Horta o seu funeral realizou-se a 2 de Outubro e, tanto na igreja Matriz como no cemitério do Carmo, uma multidão de amigos, vindos de toda a ilha do Faial e também do Pico testemunhou a sua estima e gratidão, prestando-lhe uma última homenagem que foi deveras sincera e comovente. O “Correio da Horta” de 3 de Outubro de 2005 – jornal que era propriedade da Diocese e que durante quase três décadas tanto ficou a dever à dedicação e aos apoios materiais do Pe. Fortuna – ao descrever o funeral sublinha que “ontem à tarde a Matriz da Horta foi pequena para acomodar todos quantos quiseram prestar uma última homenagem ao sacerdote que, durante cerca de quarenta anos, foi o seu dedicado Pároco”. Escreve que “a missa solene de sufrágio, que teve a participação da Capela da Matriz sob a regência do engenheiro Norberto Oliveira, foi presidida por D. Arquimínio Rodrigues da Costa, bispo emérito de Macau, e concelebrada pelos padres Júlio da Rosa, Raimundo Bulcão Duarte, José Alvernaz, Marco Luciano e António Saldanha, sendo mestre de cerimónias o padre Marco Martinho, pároco da Madalena. Em dois momentos da celebração eucarística, o tenor Kurt Spanier, acompanhado pela orquestra do Conservatório da Horta, interpretou ‘Panis Angelicus’ de César Franck e ‘Ave Verum’ de Mozart. No final da cerimónia, a assembleia numa prolongada salva de palmas testemunhou o seu sentido apreço, amizade e gratidão ao Padre Fortuna que, ao longo de tantos anos, tão devotadamente serviu a comunidade paroquial da Matriz e a Igreja que está no Faial e nos Açores”. Além de membros do clero, de instituições religiosas, de estabelecimentos de ensino, de meios de comunicação social e de tantos amigos, igualmente os órgãos de poder regional e local – Assembleia Legislativa dos Açores, Assembleia Municipal e Câmara Municipal da Horta e Junta de Freguesia da Matriz – assinalaram, através de expressivos votos de condolências, a morte do Padre Fortuna. E a registar o reconhecimento pelo testemunho de uma vida dedicada ao serviço de Deus e dos irmãos, o seu nome ficou perpetuado na toponímia da cidade da Horta, em cerimónia de descerramento da lápide da “Rua Monsenhor José de Freitas Fortuna” (antiga Rua do Arco), no dia 4 de Julho de 2006. 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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