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Retalhos da nossa história – CLIII – Furtados, uma família de artistas (5)

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Silvina Furtado de Sousa, neta do consagrado organista e mestre da capela da Matriz, João José Furtado, era dotada de uma requintadíssima sensibilidade artística. Nasceu na cidade da Horta, precisamente na rua da Areia (actual Conselheiro Miguel da Silveira) a 19 de Janeiro de 1877. Filha de Virgínia Adelaide Furtado de Sousa e de Cândido Maria de Sousa, funcionário da Alfândega e talentoso amador teatral, foi baptizada na paroquial da Matriz no dia 16 de Julho desse ano, tendo como padrinhos seus avós maternos – o mencionado João José Furtado e D. Maria Madalena Madruga – herdando, naturalmente, dos seus maiores invulgares qualidades que seriam desenvolvidas por uma esmerada educação que ela, nos seus 96 anos de vida, soube e quis prodigalizar a várias gerações de discípulos.

Personalidade de destaque nas letras, no teatro, na pintura e na música, D. Silvina Furtado de Sousa foi sempre uma mulher gentil, insinuante e simpática. Com um físico delicado e frágil, possuía uma energia inesgotável e, apesar das doenças que a atormentaram, conseguiu, “pela sua cultura e inteligente desenvolvimento, ocupar um dos lugares mais elevados adentro da Arte e da Literatura açoriana” . 

Devido à separação dos progenitores, ela acompanhou o pai quando este se transferiu para Lisboa, em 30 de Outubro de 1882, trocando o cargo de aspirante da Alfândega pelo de escrivão do crime no Tribunal da Boa Hora, ficando sua mãe, Virgínia Furtado de Sousa, então com 25 anos, a residir na casa n.º 2 da rua de Jesus com os outros dois filhos do casal – Heitor de Sousa Pimentel (27.4.1879 – 13?.4.1947) que viria a ser igualmente um músico distinto e Asdrúbal Furtado de Sousa, (nascido a 7.4.1881) além de seu sogro, José Maria de Sousa de 78 anos e do enteado Virgílio de Sousa de 12 anos. São estes os elementos que constam do Rol de Confessados da Matriz da Horta de 1883, ano em que Virgínia de Sousa obtém passaporte para o Brasil . Viajou desde Lisboa no paquete “Equateur” desembarcando no Rio de Janeiro a 24 de Outubro levando consigo seu filho Asdrúbal de 2 anos de idade. Em apenas um ano (1882-1883) a família Furtado de Sousa desfez-se, dela ficando a marca do mistério e do sofrimento, um e outro ciosamente guardados pela família e pelos amigos mais próximos.

Estranhamente, a própria D. Silvina Furtado de Sousa – que tinha 5 anos quando foi com o pai para Lisboa – jamais se referia a sua mãe, “que perdera em criança”, o que fazia, que mesmo os mais próximos, erradamente presumissem haver falecido ainda bastante nova. Aquela viveu com o pai na capital portuguesa, aí deve ter feito os estudos liceais, bem como os de piano, de pintura e de dactilografia, que bem úteis lhe seriam quando, no dia em que fazia 16 anos de idade – portanto a 19 de Janeiro de 1893 – seu pai faleceu repentinamente, sucumbindo a uma “tísica pulmonar”. A dor provocada pela morte do pai que ela idolatrava, a forçada ausência da mãe que a confortasse, o regresso à Horta e a sua vida no seio da família do tio José Cândido Bettencourt Furtado, os amores não correspondidos, os seus êxitos e fracassos, desencadearam nela uma tal sentimentalidade que dela fez a Iracema – “a poetisa dos sonhos desfeitos, a prisioneira da Saudade, da Incerteza, das visões sempre fugitivas, da Alegria e da Ventura, essa Iracema que nunca realizou, que nunca viveu, que nunca foi compreendida e que, agora, quase a terminar a ‘romagem’ só tem, diante dos olhos da alma, a paisagem fria e nua do fim”  . Afinal, ela continuou a sina da família Furtado, onde, a par de desafogada (mas efémera) vida material e de elevado estatuto social, estiveram sempre presentes os momentos difíceis que levaram à discórdia e à separação e provocaram infelicidade e tragédia.

Testemunha perene desse prolongado sofrimento é a sua obra literária, que sob o pseudónimo de Iracema, ela foi produzindo e publicando nos mais diversos órgãos da imprensa açoriana: “O Telégrafo”, “A Ordem”, “Sinos da Aldeia”, “Correio da Horta”, “Horta Desportiva”, “Diário dos Açores”, “Correio dos Açores”, “O Dever”, “Bom Combate”, “Vigília” e outros. Escreveu contos, os primeiros insertos em “O Telégrafo” de 1904, (v.g. “Trio”, “Berço Celeste”, “No Cemitério”) sendo apresentada como uma “nova colaboradora” e “distintíssima senhora da nossa da nossa sociedade, senhora dos mais raros e primorosos dotes literários e cujo nome guardamos por enquanto em atenção à sua modéstia que se vela por detrás de um pseudónimo” . Era já a Iracema, a autora de muitos artigos em prosa que publicou ao longo de toda a sua longa vida, quase sempre sob o título genérico de Aguarelas, e de vasta obra poética dispersa por variadíssimas publicações, alguma dela reunida em Saudade, editada em 1960 pela “Coimbra Editora Limitada”, sob os auspícios de um grupo de amigos micaelenses, que  felizmente para as letras açorianas, tiveram procedimento bem mais esclarecido do que a direcção do Núcleo Cultural da Horta que, no ano de 1959 e em resposta a um pedido de apoio, deliberou não o dar com o infeliz argumento de não poder “abrir precedentes”; seis anos depois, e talvez na procura de uma tardia redenção, uma outra direcção do Núcleo Cultural da Horta, aproveitando a entrega das insígnias de Cavaleiro da Ordem da Instrução Pública concedidas pelo Presidente da República, entregou a D. Silvina Furtado de Sousa o diploma de sócio-honorário!

O talento poético de Iracema, foi devidamente realçado por quem, como ela, “procura fazer da sua vida uma obra de arte, impregnando tudo de um hálito de beleza e de espiritualidade” em especial nos sonetos, género literário que mais cultivou e onde, à moda dos poetas parnasianos, consegue vazar todo o lirismo da sua alma idealista e nostálgica . Porque o livro Saudade se esgotou num ápice e uma vez que ela merece ser conhecida pelas novas gerações, aqui se publica o seu último soneto escrito aos 96 anos, uns meses antes da sua morte e significativamente intitulado

“IRACEMA!

“sabes quem és? – Ninguém! Os corações vencidos

passam, como os velhinhos tristes e cansados,

pelas margens da vida, mudos, recolhidos, 

na longínqua saudade os olhos mergulhados …

 

Ninguém os vê chorar … Ninguém os vê rendidos

à dor que os atormenta e que os leva arrastados

por esse atalho incerto em que os sonhos perdidos

não são mais do que rastos cinzentos, apagados …

 

Meu coração doente! Porquê esta saudade?!…

porquê esta tristeza? Porquê esta ansiedade?…

que esperas tu ainda, meu louco sonhador?…

 

Bem sabes que, na vida, só tens a solidão.

Bem sabes que és ‘Ninguém’… que esperas, tu, então?!…

Sofre sozinho … É tarde … Esconde a tua dor…

Silvina

Horta, 26 de Janeiro de 1973 / Data do aniversário natalício do meu querido pai, falecido há 81 anos, no dia em que completei 16 … Este soneto é uma recordação da minha tragédia.”

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            (continua)

 

 

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