Retalhos da nossa história – CCLXXV – Ouvidor José Leal Furtado

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Nascido na Horta, a 18 de Fevereiro de 1835, o padre José Leal Furtado sucedeu, em 1874, ao sacerdote Henrique da Pureza Greaves como pároco da Matriz e foi nomeado ouvidor eclesiástico em substituição do padre Dr. António da Terra Pinheiro.
Tendo exercido o seu ministério sempre na igreja mãe do Faial viria a ser figura de destaque na vida religiosa, social e política desta ilha.
Depois de uma longa e laboriosa existência, faleceu a 5 de Maio de 1914, com 79 anos. Pelo registo do seu óbito verificamos que os seus pais foram “José Leal Furtado, enfermeiro, natural da freguesia da Prainha do Norte da ilha do Pico e Francisca Isabel, de ocupação doméstica, natural da freguesia de Nossa Senhora das Angústias, deste concelho da Horta”1.
Fez os seus estudos preparatórios no Liceu desta cidade e Teologia em Angra, recebendo ordens de presbítero a 24 de Março de 1860. Beneficiado da Matriz da Horta por decreto de 20 de Agosto de 1862; vigário da mesma igreja, por decreto de 30 de Outubro de 1874 que o nomeou também para o cargo de ouvidor eclesiástico do Faial que exerceu até 1914. Durante algum tempo foi comissário da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco e capelão da Santa Casa da Misericórdia da Horta. Por motivos de saúde, renunciou à vigararia da Matriz em 1 de Abril de 1909, tendo três anos antes sido vítima de uma injustiça que o levou ao banco dos réus, mas de que acabou por ser absolvido. O caso, que deu brado na imprensa da época, levando inclusivamente o consagrado escritor Florêncio Terra a reportá-la para o “Século”, de Lisboa, esteve num generoso acto de “bem-fazer” que alguém, por maldade ou ignorância, não quis entender. O pretenso crime de que era acusado o padre Leal Furtado, juntamente com o regedor da Matriz, José Maria Cláudio, era o de terem atestado a pobreza de uma mulher que solicitara o atestado para não pagar umas custas. O Ministério Público teve conhecimento que ela possuía uma pequena casa térrea. Imediatamente processou o padre e o regedor! Tanto zelo não mereceu qualquer acolhimento no tribunal e, de acordo com o relato de Florêncio Terra para o “Século”, o juiz Alexandre Pinheiro da Costa Macedo decidiu-se pela absolvição pura e simples do “injustiçado sacerdote”. Ele que “os reverendíssimos bispos de Angra D. João Maria, D. Francisco Maria, D. Francisco José, D. José Manuel e o actual D. José Correia, bem como os revmos. Vigários capitulares e governadores de bispado Drs. José da Fonseca Abreu de Castelo Branco, José dos Reis Fisher e António Maria Ferreira, reconhecendo a sua ilustração e as suas virtudes, sempre o confirmaram no cargo importante de ouvidor e nele depositaram e depositam íntima confiança”2. Depois da sentença que o considerou inocente, foram muitas as pessoas que acompanharam o ouvidor Leal Furtado até à sua residência, na casa número onze da rua de Jesus.
Esporadicamente, participou na vida política local, especialmente nos últimos anos da monarquia quando os partidos tradicionais se foram fragmentando, dando origem a outras formações políticas, entre elas a dos nacionalistas liderados por Jacinto Cândido da Silva e que nas eleições de 1908 esperavam ter na hierarquia católica os seus principais apoios. Assim se explica que o ouvidor Leal Furtado tenha estado, em 1907, na fundação do Centro Nacionalista e haja assumido a sua chefia, que, diga-se, foi breve e de resultados insignificantes. Antes disso, quando o rotativismo ainda funcionava, em carta de 21 de Fevereiro de 1900 para o Conde de Ávila, mostra que alinha com os regeneradores, quando escreve: “Com a chegada do vapor das Flores soube-se que a eleição ali deu o resultado de 240 e tantos votos de maioria [partido regenerador]; no Pico houve também maioria, embora pequenina, mas de glória, porque o Pico era o baluarte contrário. A do Faial foi abandonada por aqueles [progressistas] que pressentiam a derrota certa. E bem o conheceram depois, vendo que à urna concorrera um número de eleitores muito superior à metade de todos os que podiam votar. Felicito, pois V.ª Ex.ª por saber quanto desejava o resultado obtido.”3
Não obstante esporádicas incursões na vida política, o ouvidor José Leal Furtado marcou pela sua fé e distinguiu-se pela sua bondade. Delas deram testemunho os seus contemporâneos nomeadamente o brilhante jornalista António Baptista, que no seu Álbum Açoriano, atesta que “este padre exemplar é um grande homem de bem, passa uma existência quase colocada fora da humanidade pela enérgica e violenta paixão da caridade, que arde constantemente no seu espírito e no fundo do seu ser.”4 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1Arquivo Paroquial da Matriz da Horta, Livro de Óbitos de 1914 a 1916, assento n.º 19, fls. 7 e 7-v.
2In “O Telégrafo” 1906, Março 2 (3.648) p.1
3PANTT/APAB, antiga caixa 4, n.º 9
4António Baptista, “Álbum Açoriano”, Lisboa, 1909, p. 517

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