Ser mulher no Século XXI

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Dia da mulher 2022

Para assinalar a celebração do Dia Internacional da Mulher, na próxima terça-feira, o Tribuna das Ilhas procurou algumas mulheres da comunidade faialense para uma reflexão sobre os desafios de ser mulher em 2022.

Maria Bairos Menezes
29 anos
Médica (interna de Oncologia)

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DR

Na sua atividade profissional sente existir igualdade salarial e de tratamento entre os géneros?
Na minha atividade profissional felizmente há igualdade salarial entre os géneros e de tratamento entre pares. Poderá haver ainda algumas diferenças no tratamento, mas pela parte dos doentes na abordagem ou exposição de questões mais íntimas, sobretudo por pessoas mais idosas. Todavia, são situações cada vez mais raras. Foi feito um longo caminho de conquista por parte das gerações anteriores. De notar que na Medicina há uma crescente dominância do género feminino.
Sente que ser mulher lhe “dificulta a vida”?
Até ao dia de hoje, devo ser uma privilegiada que não senti que ser mulher me dificultava a vida. Contudo, já presenciei alguns comentários infelizes pelos direitos da mulher sobretudo no que concerne à licença de maternidade e à dispensa para amamentação, não só por homens, mas também por mulheres que não tiveram os mesmos direitos anteriormente. Havia um mito de que, para exercer certas especialidades cirúrgicas, as mulheres não estavam dotadas de capacidades físicas, mas, com o tempo, foi-se desvanecendo e na minha geração não se nota qualquer diferença… Tenho a sorte de estar rodeada por várias mulheres inspiradoras na esfera pessoal e profissional, bem como homens que reconhecem esta equidade de género e partilha de competências.
Feminismo para quê?
O feminismo é essencial para manter os sucessos e conquistas alcançados que permitiram às mulheres uma equidade no acesso à educação, oportunidades profissionais, direito ao voto, representação política e até integridade e autonomia corporal. Reconheço que ainda há um longo caminho a percorrer para nos libertarmos de alguns padrões patriarcais e é importante que esta expressão social, cultural e política se possa expandir a todos os setores, etnias, raças, religiões e à população LGBTQIA+ porque a discriminação ainda existe.

Joana Cardoso
33 anos
Empresária na área da restauração

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Na sua atividade profissional sente existir igualdade salarial e de tratamento entre os géneros?
As estatísticas em Portugal revelam que o setor da restauração é um dos mais afetados pela desigualdade salarial, apesar das mulheres constituírem a maioria da força laboral. Na nossa empresa praticamos a igualdade salarial.
Sente que ser mulher lhe “dificulta a vida”?
Sinto que a mulher empreendedora não recebe o mesmo tipo de confiança e respeito que um homem. Tem de provar o seu valor continuamente e em várias esferas diferentes. Há pressão para o “multitasking” e perfecionismo, mas, ao mesmo tempo, descrença nas suas capacidades.
Feminismo para quê?
O feminismo ponderado e defensor da igualdade entre géneros é decisivo para criarmos uma sociedade mais coesa e empática.

Ana Maria de Pinho Ferreira da Silva Fernandes Martins
58 anos
Professora Associada em Ciências do Mar (Oceanografia) pela Universidade dos Açores

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Na sua atividade profissional sente existir igualdade salarial e de tratamento entre os géneros?
No meu caso, sendo funcionária pública, não existe diferença salarial entre uma mulher e um homem, para a mesma categoria profissional. Há outras profissões, contudo, em que uma mulher ganha menos do que um homem, para a mesma categoria profissional. Em relação ao tratamento entre géneros, acho que ainda é patente a desconfiança geral na ascensão de carreira ou posição profissional de uma mulher. É frequente ouvir dizer que ou é “histérica” ou “dominadora” ou outros adjetivos semelhantes.
Sente que ser mulher lhe “dificulta a vida”?
Sempre tive muito orgulho em ser mulher e nunca quis ser um homem. Quiçá por ter tido uma influência muito importante na minha vida, através dos meus pais, com uma mãe sempre muito positiva e determinada e um pai muito gentil, carinhoso e muito cavalheiro. Nunca senti por isso, em ambiente familiar que, pelo facto de ser mulher, estaria em desvantagem, bem pelo contrário! Mas muitas mulheres com quem falo sobre estes assuntos não sentem o mesmo. Uma grande maioria acha que, devido ao género, têm a vida mais condicionada e com menos liberdade a vários níveis: educação; carreira; maternidade, entre outros.
Feminismo para quê?
O feminismo é um movimento relativamente recente (século XIX) que defende entre outros, a igualdade jurídica, política e social entre homens e mulheres. Considero que esta luta pela igualdade de géneros é ainda, nos dias de hoje, atual e fundamental pois, infelizmente, há ainda em todos os países (uns mais do que outros) situações de injustiça a todos os níveis para com as mulheres. Contudo, é preciso não confundir feminismo como uma oposição ao cavalheirismo. Os homens e as mulheres são diferentes. É, pois, natural que um homem seja à partida mais forte fisicamente do que uma mulher, e por isso não me choca nada que tenha para com esta uma certa gentileza de trato. A mulher por sua vez, tem maior resiliência e capacidade para aguentar golpes duros da vida e como tal, é-lhe muito natural o papel maternal e de proteção para com os entes queridos. Os dois, na realidade, completam-se e o que é preciso, é reconhecer o papel de cada um na Natureza.

Helen Rost Martins
89 anos
Investigadora Principal jubilada

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Na sua atividade profissional sente existir igualdade salarial e de tratamento entre os géneros?
Na minha profissão nunca senti qualquer tipo de discriminação, nem salarial nem de género.
Sente que ser mulher lhe “dificulta a vida”?
Nesta fase da minha vida, não. Mas, no “meu tempo” sim, foi difícil! O ser mãe, cuidar das crianças e ser dona-de-casa eram da total responsabilidade da mulher. Neste aspeto, a vida da mulher teve uma grande evolução.
Feminismo para quê?
Há ainda um longo caminho a percorrer, para que as mulheres sejam tratadas com igualdade de género.

Maria Teresa Fortuna de Faria Ribeiro Cândido
39 anos
Advogada, atualmente Presidente do Conselho de Administração da Unidade de Saúde da Ilha do Faial

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Na sua atividade profissional sente existir igualdade salarial e de tratamento entre os géneros?
Sou advogada e, como é sabido, sendo uma profissão liberal e exercendo em prática isolada, não há um salário, mas é o profissional que fixa os honorários pelo seu trabalho e que devem obedecer a uma série de critérios definidos na lei. Neste sentido, não verifico que haja desigualdade salarial. No presente, suspendi essa minha atividade porquanto exerço funções na USIP e não existe qualquer diferença salarial pois o cargo que assumi tem uma retribuição fixa associada estipulada por lei.
Relativamente à diferença de tratamento, devo dizer que tenho a felicidade de viver e de exercer as minhas atividades profissionais em locais onde, para mim pelo menos, esta não é sequer uma questão. A título de curiosidade e que posso partilhar é que em alguns locais por onde passei, um advogado, independentemente da idade, é um “Sr. Doutor” ao passo que uma advogada é uma “menina” ou “senhora”, verificando-se que, naturalmente sem maldade na maioria dos casos, há uma certa propensão para não valorizar a mulher no exercício de determinadas profissões, ainda que elas sejam já a maioria.
Sente que ser mulher lhe “dificulta a vida”?
Felizmente não sinto que ser mulher me dificulte a vida. Mas, sendo filha, sobrinha, irmã, tia, madrinha, esposa e mãe de quatro filhos, sinto que, para além de uma vida profissional bastante preenchida e face aos compromissos que assumo na vida pública e na comunidade, tal só é possível com o apoio e compreensão da família. Por vezes, porém, gostaria que o dia tivesse o dobro do tempo para estar mais tempo com a família e com os amigos pois são eles, infelizmente, os mais sacrificados com as minhas ausências. Contudo, entendo que este pequeno contributo é também válido no sentido de dar o exemplo de que devemos participar na vida da comunidade e que ser mulher não é impeditivo para o fazer, bem pelo contrário.
Feminismo para quê?
Resumidamente, diria que o feminismo em si tem como fundamento a igualdade de direitos para as mulheres que, como seres humanos, não podem e não devem ser discriminadas face aos homens. Porém, bem sabemos que assim não é e, pese embora pessoalmente tenha a felicidade de não me sentir menorizada pela condição de ser mulher, não é isso que acontece a todas as mulheres. E, sem falar nas questões que correm mundo e que são verdadeiros atentados aos mais direitos básicos das mulheres, diria que muitas vezes ao nosso lado há uma mulher que precisa de ser ajudada, esclarecida, capacitada e incentivada. Como em tudo na vida não deve haver extremismos e, portanto, entendo que mais do que feminismo deve haver humanismo e procurarmos todos tratar mulheres e homens como seres iguais nascidos com os mesmos diretos e deveres, mas diferentes na sua génese, na sua natureza e na sua conceção de indivíduos que se querem livres, mas respeitadores dessas suas diferenças.