Sobre a realidade da ilha do Corvo e sobre os comportamentos de alguns que a representam

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Seria mais fácil para mim não ter escrito o titulo acima extensivamente exposto e não comentar as razões que levaram a que nas ultimas semanas tanto se falasse na Ilha do Corvo. Acontece, porém, que é mesmo necessário falar deste assunto e quem, tendo opinião, o não fizer, está a desvalorizar aquela Ilha, a sua população e os seus problemas.
Sou dos que, há muitos anos, defende que seria muito importante, no que respeita ao Corvo, adaptar, por via legislativa, a forma de exercer muitos dos poderes públicos tendo em conta duas questões centrais: a necessidade de assegurar aos corvinos um justo processo de desenvolvimento e o acesso a direitos que são de todos os Cidadãos do País e a importância de encontrar formas adequadas, à dimensão humana e física daquele território, de o fazer.
Quando a Região Autónoma dos Açores, através da Assembleia Legislativa da Região Autónoma e do Governo Regional, decidiu, e bem, criar uma Escola Básica e Secundária naquela Ilha, sabia rigorosamente que essa Escola para lecionar todos esses anos, com a qualidade exigível, teria que ter à volta de 14 professores e que iriam trabalhar com poucas dezenas de alunos (42 atualmente). O certo, porém, é que estas crianças do Corvo deixaram de estar condenadas a sair de casa, para outra Ilha, com 10 anos para frequentarem os graus de ensino que hoje são obrigatórios. Foi uma medida certa e que criou também, com a colocação dos professores, uma realidade social melhorada no que respeita a recursos humanos qualificados, que logo se refletiu na vida cultural e social daquela comunidade pequena e muito isolada.
Sendo certo que esta medida foi justa e positiva, também é certo que terá faltado a visão bastante para procurar todas as soluções atempadas e adequadas àquela realidade muito própria, para resolver varias outras questões, nomeadamente o problema da alimentação escolar e outras questões que derivam da existência de uma Escola Secundária numa Ilha de 400 pessoas.
Quem representa diretamente o Corvo na Região Autónoma são os Deputados Regionais, no que toca ao poder regional, e os eleitos da Câmara e da Assembleia Municipal, no que toca às competências do poder local. É função de todos estes representantes lutar pela resolução dos problemas da sua Ilha, exigir soluções adequadas para as questões que dependem do poder regional e exigir competências e meios adequados para as questões da esfera do poder local.
De forma muito natural respeito todas as posições e lutas que a população do Corvo e os seus representantes foram, ao longo do tempo, desenvolvendo, com sucesso, no sentido de transformar o Corvo numa comunidade no meio do mar que pode viver, hoje, com os padrões de vida próprios desta Região e deste País.
Entretanto quando um único representante, afirmando representar a população, mas na prática ignorando deliberadamente a capacidade de luta reivindicativa dessa mesma população, concentra em si próprio um processo de luta, partindo para uma greve de fome, estamos perante um facto que apenas visa a sua autotransformação no único veículo de resolução dos problemas do Corvo, gerando equívocos, abafando os cidadãos, minorando os Órgãos Municipais e centrando tudo em si próprio. Estou a referir-me ao Senhor Deputado Paulo Estevão, do PPM, eleito pelo Corvo, que cumpriu 12 dias de greve de fome e que obteve apenas a afirmação de que será cumprido o protocolo com a Santa Casa, celebrado o ano passado, segundo o qual essa instituição irá fornecer as refeições previstas na lei à Escola.
Uma maior, mais lucida e atempada atenção a certos problemas do Corvo é a única forma de retirar espaço de domínio a pessoas, como é o caso do Deputado Paulo Estevão, que são capazes de fazer tudo, incluindo violentos esforços pessoais, para se transformarem efetivamente em dominadores locais perpétuos.
Esta acção individual, de quem cultiva o individualismo da sua própria pessoa, não teria acontecido se o referido protocolo tivesse sido prontamente executado e se o poder regional se mostrasse mais interessado em resolver os problemas da mais pequena Ilha da Região. Ter-se-ia evitado que um representante do PPM, Câmara Pereira, tivesse dito aos OCS e ao Presidente da Republica que “as crianças do Corvo passam fome”, o que é mentira. Esta e outras questões já poderiam estar resolvidas, caso não houvesse a obsessão centralista regional que hoje determina quase tudo o que o Governo Regional faz e tudo o que o Governo Regional não faz.
O Deputado Paulo Estevão substituiu-se à luta dos Corvinos para tentar ganhar mais domínio sobre essa comunidade. Estou certo de que não conseguiu atingir os seus desígnios.

Horta, 6 de março de 2018

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