A importância da tradição oral – No centenário do nascimento de Manuel Alexandre Madruga

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Manuel Alexandre Madruga é natural de S. João, onde nasce em agosto de 1914. Depois de concluída a Escola Primária, faz os seus estudos nos Liceus da Horta e de Angra do Heroísmo, licenciando-se em Desenho pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Foi professor e reitor do Liceu da Horta e professor e diretor da Escola do Magistério Primário da mesma cidade, nas décadas de 40 a 70, do século XX. 

Embora não sendo sua aluna, foi ele, que no meu exame de 5.º ano do Liceu, em 1966, apresentou a prova de Desenho à Vista, com um tema para mim algo inesperado – um copo de água com um galho de faia dentro, colocado em cima de uma cadeira da sala.

 No pequeno meio que era o nosso, Manuel Alexandre Madruga era uma pessoa simples, comunicativa, cumprimentando sempre as pessoas, novas e velhas, cultos ou analfabetos, com o seu habitual “Haja saúde!”.

 Era muito amigo da sua ilha, onde todos os seus filhos viriam a nascer, mesmo que a sua família residisse na cidade da Horta. Nas noites de teatro, na Loja de Teatro do Passal, onde representaram crianças e adultos, durante várias décadas, entretinha-me, enquanto as representações não começavam, a observar atentamente o pano da boca de cena, do palco, em que pintara um tema bíblico que tanto me encantava: Jesus e as criancinhas. Embora se tenha perdido, na voragem do tempo, outros desenhos da sua autoria e de temática diferente, muitos cobrem hoje os passeios empedrados da cidade da Horta. 

Agora que se comemora cem anos do seu nascimento é grato associar a herança que ele deixou à sua terra, no trabalho oportuno, intitulado A Freguesia de S. João na tradição oral dos seus habitantes. Escrito na Páscoa de 1956 e publicado no Boletim do Núcleo Cultural da Horta, em 1957. O texto de então é hoje um livro, por uma iniciativa feliz da filha, a arquiteta Margarida Madruga.

 Logo no preâmbulo, o  autor faz questão de dizer os motivos por que o fez:

 “Afigura-se-me que a tradição tem um valor muito importante para o conhecimento do passado, muito mais importante mesmo do que se pode imaginar à primeira vista… Obedecendo a este imperativo e com o intuito de mostrar aos presentes e, de certo modo, aos vindouros um pouco do que foi a freguesia de São João Baptista da ilha do Pico, em tempos idos e ainda conservado na tradição oral de alguns dos seus habitantes, organizei o presente trabalho sobre aquela freguesia”. 

Assim, e confrontando as memórias recolhidas com a História das quatro ilhas que formavam o distrito da Horta, de António Lourenço da Silveira Macedo, começa por falar do “Lugar da Arruda” pertencente à freguesia de S. Mateus, lugar de bons terrenos aráveis, onde se ergueu uma pequena ermida em 1619, em que se venerava S. João Baptista – “uma pequena mas bela imagem de barro (não chegava a ter um metro de altura), o S. João Pequenino`” que, segundo se conta, aparecera no areal da baía da Arruda. Como o núcleo populacional continuava a crescer, a ermida foi ampliada e o lugar elevado a freguesia tendo S. João como Padroeiro.

 Em fevereiro de 1718, o seu viver simples é surpreendido por erupções vulcânicas que rompem do mar e da terra, soterrando, com a sua lava ardente, terras, casas e haveres. Em 1720 nova erupção do lado nascente destrói de igual modos terrenos e habitações. Resta apenas, entre os dois campos de lava, a que darão o nome de mistérios, um espaço de “terrenos brejeiros”, que contrastavam com os terrenos férteis agora ardidos. E, sem alternativa, é aí que irá surgir de novo a freguesia, com as suas habitações, primeiramente cobertas de colmo e depois telhadas, com dois núcleos distintos, separados pelo Palmo do Gato: um junto às areias do vulcão, outro mais afastado onde será construída a igreja paroquial.

Manuel Alexandre Madruga fala-nos de como foi difícil a aquisição da água, desde a abertura de novos poços de maré à inovação dos tanques nas habitações, do engenho e da arte da sobrevivência nesses tempos difíceis, do vestuário e agasalhos de lã, da alimentação e de uma economia de subsistência apertada, das calamidades a que estavam sujeitos, sobretudo a do ano da fome e do ciclone de 1893.

    Perdidas as terras aráveis, e forçados pela necessidade de sobrevivência, desbravaram terrenos nas zonas altas, desenvolvendo e intensificando a pastorícia. Teceram a lã, fabricaram o queijo, cuja indústria é originária da freguesia, (aqui se fabricou o primeiro queijo do Pico) e comercializaram-no, não só na ilha, mas também no Faial e na Terceira, para onde eram exportados. Outra indústria importante foi a da lenha: cortavam e rachavam grandes quantidades de toros e achas para venda na ilha vizinha. Com estas indústrias a freguesia adquiriu os seus próprios barcos.  

Foi ainda para sobreviver que alguns se viram forçados a emigrar por conta própria. Embarcados numa larga maioria em baleeiras, (o embarque pelo alto), corriam continentes e mares, as sete partidas do mundo, na caça à baleia. De regresso à freguesia, foram pioneiros na caça à baleia e na arte de construção dos botes baleeiros, em que foram os construtores do primeiro que então se fez em 1855. Com eles vinham as novidades: o primeiro relógio, a primeira caneta, a primeira máquina de costura. Num tempo em que o dinheiro era escasso, alguns acabariam por ser os grandes beneméritos da freguesia, contribuindo largamente para a formação de instituições e obras da comunidade: igreja Paroquial, Cemitério, Escola Primária e a Filarmónica. 

  Manuel Alexandre Madruga fala-nos ainda da falsificação da moeda, da revolta do povo, da origem das Companhias de Ordenanças, criadas para a defesa, (note-se que estas ainda hoje são presença na toponímia da freguesia – Companhia de Baixo e Companhia de Cima) dos que participaram nas lutas liberais e dos refractários ( que se esconderam numa furna ou fugiram pelos matos ). E por fim no recreio e cultura – o gosto pela música, pelas letras, pelo teatro e pela  fundação da filarmónica Recreio dos  Pastores.

 

Neste livro, baseado na tradição oral sobre a freguesia de S. João, um aspecto que me salta à vista é o papel de destaque que ele dá à mulher, numa altura em que a sabedoria popular não manifestava qualquer apreço por esta, nem pelo que fazia ou dizia (o trabalho da mulher não vai a banda nenhuma). Fosse por ter tido o privilégio de uma tia professora, Maria das Dores, esforçada e distinta professora das meninas de S. João nas primeiras décadas do século xx; fosse por ter perdido a mãe ( foi a tia, Maria das Dores,  quem o criou bem como aos irmãos, quem os ensinou e os orientou para profissões diversificadas consoante as suas capacidades, foi quem  lhe deu o curso  de Belas Artes, ao Genuíno o de Teologia, vindo este a ser Padre, e à Josefina o de professora). Fosse por ter beneficiado deste afeto e desta ajuda, fosse ainda pela estima com que as mulheres então aí eram tratadas, fala-nos do elemento feminino com muito apreço.

Dos exemplos colhidos, destacarei:

– Diz-nos que a sua interlocutora privilegiada, guardiã de memórias, foi uma mulher, Maria Amélia Pereira, apesar de já ter 88 anos. (p.10)

– Que nas obras da Igreja “trabalharam todos os homens e ainda muitas mulheres que se vestiam com fatos masculinos para trabalharem com mais facilidade” (p.18)

– Que os retábulos com que se ornou a igreja de S. João foram adquiridos através dos bons ofícios da irmã do Padre Silveira Bulcão, “ professa do Convento da Glória da mesma cidade, e como que em retribuição das esmolas feitas à Misericórdia da Horta pelo povo da freguesia. (p.19)

– Que o vestuário de lã e os agasalhos foram feitos “ pelas nossas diligentes avós nos teares desses tempos”. (p.23)

 – Que a elas se devem os segredos e os cuidados no fabrico do queijo de S. João, a que souberam dar qualidade que ficaria até hoje. Importantes no comércio dos mesmos, eram elas que os transportavam em cestos e celhas para a Madalena, Calhau e Areia Larga para depois  seguirem para o Faial; assim como para o norte da ilha e também para as Ribeiras,  para seguirem daí para a Terceira. (p.35)

– Que na indústria da lenha, no fabrico de grandes quantidades de achas, trabalharam muitas mulheres. (p.36)

– Que na revolta do povo contra o tapume dos báldios e outras medidas concelhias como as fintas, as mulheres tiveram um papel preponderante. (p.53)

– Que eram interessadas e participativas no estudo e formação dos filhos e filhas – “Conheceu duas mulheres que em novas prepararam muitos milhares de achas e que foi com esses proventos que uma pobre viúva deu o curso de professora a uma filha”. (p.36)

– Que no recreio e na cultura, desde cedo tomaram parte ativa. É de salientar que numa época em que no teatro os papéis femininos eram desempenhados por homens, pois ninguém aceitava a ideia duma senhora pisar o palco, houve mulheres da Juventude Católica que, no dealbar do século xx, se destacaram no tablado: Entre essas distinguiram-se Adelina Garcia da Rosa (irmã do  Padre Doutor Garcia da Rosa), Natália de Simas Belém, mãe do actor Raimundo de Canto e Castro  e Maria Cristina Alvernaz, mãe do Professor Fernando Melo, a par de outras também de merecimento (p.36).

Entre outras leituras possíveis – que cada um fará ou que poderá identificar com as suas lembranças, vivências, ou memórias recebidas, aqui ou noutros lugares da ilha, dos temas tratados, dois me chamaram particularmente a atenção, porque me foram contados na infância, pela minha avó velhinha, Anastácia, já octogenária e que tanto me impressionaram: o ano da fome em que para sobreviver tiveram de recorrer ao bolo feito com soca de jarro e de raiz de feito; assim como o rasto de destruição que deixou por toda a ilha o ciclone de 1893. Entre os vários estragos, em S. João levou ruas, casas, barcos e as estruturas baleeiras existentes. De todas estas memórias me falou, minuciosamente, a minha avó. Contava-me e até me cantava os versos que então se tinham feito e que aqui me vou atrever a reproduzir, cantando como ela :

– Levantou-se o ciclónio/Levado da ventania/ Das Ribeiras para as Lagens/ Levou tudo o quanto havia. / Levou Senhor João Machado/ Que estava ao seu portão/ Levou um rapazinho novo/Ai que dor do coração./Levou todos os barquinhos/ Do porto de S. João/Com três vagas alterosas/ Deixou dor destruição. / Choram os pais pelos filhos/As crianças pelos pais/ Os amantes seus queridos/Que não voltarão jamais.

 E a propósito deste livro A Freguesia de S. João na tradição oral dos seus habitantes, da autoria de Manuel Alexandre Madruga, de quem agora se comemora o centenário do nascimento, veio-me ao pensamento as palavras do escritor argentino, de ascendência portuguesa, (que o Papa Francisco, então professor em Buenos Aires, convidava para ilustrar as suas aulas de Literatura) Jorge Luís Borges: O livro é um prolongamento da memória e da imaginação. Mesmo que fale de um pequeno lugar de uma ilha e tenha por base a tradição oral dos seus habitantes, não deixará de ser um bem precioso no tempo futuro.

 Agosto de 1914

 

 

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