Turistas ingleses por um canudo? E o nosso money?

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Em plena crise pandémica, com contornos imprevisíveis acerca da sua evolução na maior parte dos países europeus, a Região decidiu celebrar com a transportadora aérea Ryanair um contrato destinado à promoção turística dos Açores no mercado do Reino Unido.
O custo dessa iniciativa para o bolso dos contribuintes açorianos é de quase um milhão e cem mil euros, e inclui ainda um prémio adicional de quase trezentos mil euros, caso essa promoção se traduza num aumento da procura pelo destino Açores.
No ano passado, chegaram à Região, provindos do Reino Unido, 28.302 turistas, o que correspondeu a 95.857 dormidas. A título de exemplo, só na ilha de São Miguel esses turistas proporcionaram 75.749 dormidas, na ilha Terceira 5.268 e no Faial 6.869.
Apesar de números muito inferiores aos turistas da Alemanha, Espanha ou França, compreende-se a intenção do executivo regional aquando do lançamento desse concurso: tentar atrair para os Açores, essencialmente para a ilha de São Miguel, mais turistas ingleses, atendendo ao seu elevado poder de compra. O que não se percebe é que, registando-se no dia 28 de abril tantas dúvidas e incertezas acerca do desenvolvimento da pandemia dentro do país e além-fronteiras, a Região tenha mantido a vontade em assinar esse contrato, sem aguardar pela decisão do Reino Unido em abrir as suas fronteiras ao exterior.
E agora, passados dois meses sobre esse compromisso, sabemos que o Reino Unido está a dias de decidir se exclui ou não Portugal dos “corredores aéreos” cujas chegadas ao país vão ficar isentas de quarentena.
Ocorrendo a exclusão, significará que, quem quiser visitar o nosso país em detrimento de outros, será obrigado a permanecer em auto-isolamento durante 14 dias no regresso a casa e, caso não respeite essa quarentena, incorre numa multa de cerca de 1.000 euros.
O que nenhum britânico quererá certamente, optando, antes, por gozar férias nos países onde existe esse corredor turístico.
Naturalmente que essa potencial decisão terá reflexos fortíssimos no turismo, sobretudo em Portugal continental onde os turistas britânicos originam receitas de 3,3 mil milhões de euros, com 9,4 milhões de dormidas, mas também no turismo açoriano, onde a presença desse mercado é relevante.
Segundo os dados da ForwardKeys, que agregam informação sobre bilhetes de avião vendidos por companhias aéreas e agências de viagens, as reservas de passageiros britânicos com destino a Portugal baixaram 84,2% no mês de junho e antecipam uma queda de 65% em julho e de 66% em agosto.
Perante este difícil cenário, que se traduzirá numa quase certa ausência de turistas britânicos do arquipélago, agravando ainda mais o já deficitário setor do turismo açoriano, parece, então, deixar de fazer sentido, para a Região, o contrato celebrado com a Ryanair.
É certo que, apesar das restrições eventualmente impostas pelo Governo Britânico, a companhia aérea poderá cumprir o contrato e efetuar a promoção do destino Açores. Todavia, essa iniciativa não terá quaisquer efeitos práticos, uma vez que dificilmente os turistas do Reino Unido voarão para os Açores.
Que posição tomará, então, o Governo Regional? Esperemos que tome aquela que melhor defenderá os interesses dos açorianos e do setor do turismo em particular. Porque se assim não for veremos por um canudo, quer o money (os euros) investido, quer os turistas britânicos.

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