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Visita da Saudade – No Faial sinto-me em casa, afirma Christie Chadwick

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DR/TI

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Portugal é um país de emigrantes. Desde há muitas décadas que nos habituámos a que nos meses de verão, muitos portugueses que vivem fora do país regressem a casa na chamada “visita da saudade”. É neste período de férias que a maioria dos emigrantes aproveita para matar saudades. Este sentimento faz crescer a vontade de voltar a casa e de reencontrar os familiares e amigos que deixaram para trás, em busca de uma vida melhor, aproveitando para juntar afamília, amigos e colegas, num convívio de reencontros, recordações, histórias, risos e choros…É exatamente esse sentimento de saudade e a vontade de regressar à casa da sua infância que traz Christie Chadwick ao Faial. Ao Tribuna das Ilhas a luso descendente fala da felicidade que sente regressar ao “lugar da sua infância”.

Filha de pai faialense e de mãe brasileira, Christie Chadwick, nasceu em Chicago. Esta condição deu-lhe o direto a três nacionalidades, Portuguesa, Brasileira e Americana, no entanto é no Faial que se “sente em casa”.
Apaixonada por história e coisas antigas a curiosidade de “saber o que aconteceu no passado”, levou-a a formar-se em Arqueologia Bíblica. “A arqueologia é um quebra cabeças, pronto para ser reconstruído de forma a entendermos melhor o que aconteceu no passado”, refere.
Docente numa Universidade Adventista, no Brasil, onde reside atualmente com a sua família, das experiências mais marcantes que teve enquanto arqueóloga foi os sete meses que passou no Médio Oriente”.
“Sentir como é estar lá em Jerusalém, visitar todos os sítios arqueológicos e conhecê-los melhor, escutar o hebraico como é falado hoje, foi fantástico”, afirma acrescentando que “eu gosto muito de línguas, já tinha estudado o hebraico bíblico para entender melhor o hebraico daquela época e da bíblia e complementar essa experiencia morando lá vendo os locais e aprendendo como ele é falado hoje, foi marcante”, disse.
A sua profissão tem permitido à arqueóloga viajar um pouco por todo o mundo no entanto é no Faial que se sente em casa.
A luso descendente, revela que quando era criança passava as suas férias na cidade da Horta. “Nós vínhamos para o Faial todos os anos e passávamos os cerca de dois meses de férias que o meu pai podia tirar na ilha. Então crescemos aqui, víamos muito os meus avós, os meus primos”, diz.
Das coisas que mais gosta quando regressa é sentir que ainda conhece a ilha. “Parece que as coisas evoluem devagar”, considera, reforçando que “apesar de passar muito tempo fora quando tenho a possibilidade de voltar sinto que ainda conheço a ilha que ela faz parte de mim”.
Para Christie, noutros locais por onde passa as coisas evoluem rapidamente que quando regressa já não conhece. Em relação ao Faial isso não acontece por isso sente está “voltando para casa”.
“Este é lugar da minha infância, sinto-me muito feliz aqui por isso gosto de vir, gosto de tudo. Gosto de este ar, do mar, gosto que de qualquer ponto da ilha se consiga ver o mar. Adoro o mar, por isso para mim é muito bonito e muito bom estar aqui e sentir o cheiro”, afirma.
A este respeito a arqueóloga dá a conhecer que nos Estados Unidos da América morava muito longe do mar e no Brasil apesar de já ter vivido junto à praia agora mora longe, no interior e fica “com saudades do mar”.
Christie confessa que não vem ao Faial tanto como gostaria. A última vez que veio em visita de saudade foi há três anos quando nasceu a sua filha em 2014, mas faz questão de dar a conhecer à sua filha as suas origens. “Quero que ela faça parte da ilha e sinta que o Faial faz parte da sua cultura da sua língua”.
A luso descendente revela que por várias vezes trouxe amigos brasileiros a Portugal e ao Faial e eles “não compreendiam o português de Portugal. Diziam que as palavras estavam trocadas e que não sabiam o que queriam dizer” e não quer que isso aconteça com a sua filha.
Quanto às mudanças que encontrou neste seu regresso a casa, a “faialense”, como se sente, observa que existem mais pessoas estrangeiras a viver na ilha. “Lembro-me de uma época em que não havia muitos estrangeiros a viver no Faial e agora vê-se muitos emigrantes. Tem muitos brasileiros, angolanos, tem uma mistura muito grande de culturas. Desta vez conheci muitos mais estrangeiros, americanos, alemães, italianos que moram na ilha”, revela.
Apesar de passar algum tempo sem vir ao Faial, Christie sente que é sempre bem recebida. “Sempre me senti bem recebida e nunca me senti como uma estrangeira. Quando regresso é como se estivesse voltando para casa”, reforça.
Esta é aliás uma das razões pela qual a gosta de vir ao Faial. Por outro lado, adianta, sendo uma apaixonada pela fotografia, considera que este “é um lugar lindo”. “Eu gosto muito de fotografia e a paisagem aqui é muito bonita”.
Outro factor que a trás ao Faial é a segurança. A Arqueóloga sente-se livre quando cá chega. “A verdade é que sentimos uma sensação de segurança de liberdade”, adianta, salientando que “eu gosto muito de fazer as coisas livremente e a pé e aqui a todos os lugares que vamos sentimos uma certa independência”.
“No Faial sempre podemos passear em segurança. Sinto isso desde que éramos crianças. Nós saímos sozinhas da casa da minha avó com talvez 12/13 anos para nos encontrarmos com as primas no Largo para correr, brincar, pular e não havia problema”, recorda com saudade.

Christie reconhece as oportunidades que ter três nacionalidades e falar várias línguas lhe proporcionaram. A este respeito a poliglota, afirma que “o de falar mais uma língua e ter crescido em três lugares faz sentir que a sua casa não é apenas um lugar, a sua casa é onde você está, onde é feliz, onde temos boas memórias”, a este respeito salienta que, “o Faial é a minha casa, o Brasil e os EUA são a minha casa”. A luso descendente, adianta que não tem dificuldade em se adaptar aos locais, o seu lugar de preferência é o lugar onde está, e neste sentido a condição de três ter nacionalidades e de desde pequena viajar de local em local deu-lhe uma certa “flexibilidade”. “Essa experiência ajudou na ideia de viajar sem medo, sem aquele apego à casa, ao luxo, não que tenha luxo, mas aquelas coisas nos habituamos com a nossa rotina”, sustenta.

Para a Christie este factor tem ajudado muito na sua carreira. Eu tenho muito mais flexibilidade e isso ajuda muito na arqueologia porque nunca sei onde vou ficar e trabalhar. Posso ficar num hotel ou num acampamento onde as condições são completamente diferentes”, avança. Por outro lado o facto de gostar e falar várias línguas também facilita na sua adaptação.
A arqueóloga confessa que para este seu interesse pelas diferentes línguas, contribuiu o Faial. “O Faial tem uma coisa que os outros lugares não têm, as pessoas falam mais do que uma língua, talvez o turismo incentiva muito isso. Eu chegava aqui e via as pessoas falar outras línguas, pessoas que eu conhecia que falavam português e que sabiam comunicar em francês e em inglês e nos sentimos também essa paixão, essa vontade de comunicar”.
Neste contexto, Christie avança que se interessou muito por línguas. “Eu já estudei muitas línguas, estudei francês, português, inglês, falo hebraico e ando aprendendo as línguas modernas, nomeadamente o grego, o egípcio, ainda que não seja fluente nestas outras, interessa-me saber como essas pessoas comunicavam e comunicam”, sustenta.A arqueóloga nos últimos anos tem viajado pelo mundo, contactando com várias culturas. O facto de conhecer várias realidades e até de viver num país com outra dimensão, dá-lhe a possibilidade de observar que ao longo dos anos o Faial tem evoluído e acompanhado o desenvolvimento global, por isso quando cá chega não se sente “isolada”.No entender da luso descendente, essa evolução deriva um pouco do turismo. Apesar de o tempo que passa no Faial ser na época alta, onde há mais gente, sente que o Faial tem conseguido conjugar “a valorização do tradicional, o progresso, com o moderno”.Na opinião de Christie, “as pessoas valorizam morar aqui, estar neste canto, manter as casas antigas, vejo muita reconstrução das casas tradicionais, agora com esses alugueres rurais”, refere. Segundo a arqueóloga “é esta combinação com o tradicional que traz os turistas”. Para Christie “o turista não se preocupa se a internet é rápida” o turista quer é “conhecer a cultura própria do local” e neste sentido entende que “essas pessoas que vêm querem ver cultura, querem ver paisagem, o Centro de Interpretação dos Capelinhos, o Aquário, que o Faial tem apostado e bem”.A finalizar e questionada sobre as acessibilidades ao Faial, Christie, aponta como condicionantes os preços elevados das passagens aéreas e a falta de voos directos.“É bem caro vir para cá do Brasil isso é verdade. Não temos voos diretos por exemplo do Brasil para os Açores, temos sempre que passar por Lisboa”.Se por um lado estes aspectos poderiam ser melhorados, por outro, refere Christie “se fosse muito fácil, poderia trazer muito mais gente e aí talvez isso afetasse as coisas de forma negativa”, defende. Christie considera que os faialenses sabem cuidar muito bem da ilha. “Nós chegamos e temos um lugar limpo, bonito, com paisagens lindíssimas, muitas flores por todo o lado, onde quer que vamos somos bem recebidos, acho que estão fazendo um bom trabalho, continuem valorizando o que têm”, termina.

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