024 – Distorções de escala

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 De um modo geral, as empresas privadas visam o lucro, e a prestação de serviços satisfatórios, sendo o mercado da livre concorrência, e a preferência ou não dos clientes, a regular o mercado, ditando a sobrevivência dessas empresas. Se prestarem um bom serviço a um preço competitivo, sobrevivem, mas se algum destes factores falha, estão condenadas a fechar as portas.
Este juízo popular filtra, selecciona e purga o mercado das empresas inviáveis, mal geridas ou cujo serviço não serve a sociedade.
Se temos esse poder nas mãos para o sector privado, o mesmo já não acontece com o sector público, nem com o sector privado que presta serviço público, ou que beneficia de regimes proteccionistas e monopolistas.
Enquanto que no sector privado só se pagam prémios de bom desempenho, quando as empresas dão lucro e são bem geridas, no sector público e empresarial do estado… vão-se pagando prémios, aumentam-se os gestores públicos, afastam-se outros com a contrapartida de reformas principescas.
Enquanto que no sector privado se admitem trabalhadores pela qualificação técnica, no sector público empurram-se os amigos e os boys, consoante as preferências familiares, políticas ou clubistas.
Esta é uma forma de distorcer as leis da oferta e da procura, à custa do dinheiro que todos nós pagamos em impostos, para fins que deveriam ser bem mais meritórios e justos.
Os impostos que pagamos, uns mais, outros menos, também se destinam a corrigir assimetrias de desenvolvimento que tendem a acontecer nas regiões periféricas, bem assim a beneficiar socialmente os mais desfavorecidos, e que se vêem impedidos de um livre e equitativo acesso à educação, à saúde, à justiça, ou até mesmo ao trabalho digno e honesto.
Os nossos impostos servem para melhor distribuir o investimento e a riqueza, contrariando a desertificação e o esvaziamento das periferias… e a lei do lucro máximo e fácil do capitalismo.
Não nos podemos esquecer que vivemos num tempo de crise, consequência de um desenvolvimento cego e galopante, que visou a maximização do lucro, centralizando e deslocalizando produções.
No pais e na região, apesar de governados por socialistas, não vivemos num estado social.
Confrontados com a necessidade de controlar o défice, primeiro maximizaram a receita com o aumento dos impostos, depois cortam nas regalias sociais penalizando as reformas dos trabalhadores, e, só em último caso, admitem que “se a crise se agravar, quem está no topo deve dar o exemplo” – palavrinhas simpáticas do líder do PS na Assembleia da República, Francisco Assis, que admite rever em baixa os salários dos políticos no caso de a situação financeira do pais piorar…
Por manifesta incapacidade de cortar na sua própria carne, com vencimentos, regalias, benesses, privilégios e mordomias incompatíveis com o país pobre que somos, recorrem ainda a receitas extraordinárias com a venda de património do estado, para mascarar as contas públicas, desmembram e alienam sectores produtivos… e deixam cair o que não lhes convém. Critérios? Desconhecem-se!
A Honra e o bom nome das pessoas deixou de ter importância, vendendo-se a consciência pelo conforto da cadeira, ou pelo peso do bolso.
Por cá, e à nossa escala, o mesmo acontece às claras, sob a mesa, ou em surdina, mas, nesta globalização que nos envolve e consome, tudo se sabe, tudo se diz, verdades e mentiras, o que importa é a presença nas redes sociais, mascarando a realidade.
Compra-se a Fábrica de Santa Catarina, apoia-se Rabo de Peixe, mas deixa-se cair a Cofaco na Horta. Critérios, desconhecem-se…, pergunta-se, mas ninguém se incomoda em responder, ou melhor, diz-se que o Governo Regional não pode intervir na gestão das empresas privadas… mas, e por lá?
Recuperam-se as Termas do Carapacho na Graciosa, e da Ferraria em São Miguel, mas as do Varadouro no Faial… nada, espera-se que a iniciativa privada local seja parceira!
Volta-se a intervir no capital social da VerdeGolfe, pagam-se salários, o Governo Regional substitui-se à empresa na gestão dos Campos de Golfe, promove-se a construção de um novo campo em Santa Maria, mas no Faial… esperam-se estudos e oportunidades há mais de 20 anos.
Constroem-se marinas em ilhas sem barcos, por vaidade…, no Faial, fundeia-se na baía.
Centralizam-se as compras na Saúde, ganham-se economias de escala por lá, esvaziando as nossas empresas por cá… e vangloriam-se dessas politicas, de esvaziamento das ilhas menores.
Poupa-se nas ilhas, centraliza-se em São Miguel, sacrifica-se o interior para investir em Lisboa.
Nos Aeroportos, intervém-se nas Flores, no Pico e em Ponta Delgada, mas no Faial… aguarda-se a oportunidade que há-de surgir com a futura privatização da ANA-EP. A rentabilidade da nossa rota é sacrificada com a penalização de peso à descolagem, face à limitação da pista. Se a nossa rota é menos rentável, é menos apetecível, logo, é menos atractiva, é menos procurada, deixando a economia da ilha mais frágil e pobre.
Centraliza-se a frota da SATA Air-Açores em Ponta Delgada, penalizando e condicionando toda a operacionalidade aérea de uma Região com nove ilhas, às condições meteorológicas da maior ilha, acontecendo por diversas vezes no ano não haver ligações com tempo limpo, só porque assim é mais barato, mesmo contrariando todo o bom senso que deveria prevalecer numa região como a nossa, sujeita a calamidades, aos sismos, aos ventos fortes, às chuvas persistentes e aos nevoeiros cerrados.
Ainda na manhã do passado Sábado, divulgava-se a nível nacional o mau tempo nos Açores, e a falta e divergência das ligações aéreas, quando existiam ilhas com boas condições atmosféricas e de operacionalidade, com céu limpo.
Da mesma forma que a Região contesta a previsão meteorológica para os Açores, as ilhas condenam a divulgação a uma só voz do mau tempo em São Miguel!
É esta a imagem que se quer passar para o exterior? De uma só região, de uma só ilha?
Aconteceu uma grande calamidade na ilha da Madeira, e, desde logo, surgiu a preocupação de manter a operacionalidade e o destino turístico em funcionamento.
Nos Açores, quando São Miguel está “fechado”, o que sai da região é o bloqueio da Região, logo, das cinco Gateways.
Será por solidariedade, ou por birra?
Faz lembrar aquele menino mimado, que dizia: se eu não brinco, mais ninguém brinca!
Até quando?
Berta Cabral já veio dizer que não concorda, não defende e não executará uma politica aérea que concentre toda a frota na ilha de São Miguel, defendendo que, pelo menos, um avião fique na ilha Terceira…
É um primeiro passo importante, convindo não esquecer que tempos houve, em que um avião pernoitava na Horta.
E o que dizer do autismo de alguns, que insistem e persistem nas plataformas logísticas de centralizar e baldear as cargas em Ponta Delgada e Praia da Vitória? Será que, apesar das suas orelhas bem compridas, não ouvem sete ilhas a gritar: NÃO!
Também Berta Cabral disse, no devido tempo, que os novos barcos de passageiros encomendados, não serviam, eram obsoletos, e que não tinha dúvidas em recusar a sua entrega…, atitude seguida pelo Governo, passados longos meses.
Não acredito que Berta Cabral seja vidente.
Acredito, isso sim, que tenha uma visão mais equilibrada, mais harmoniosa e mais estratégica para o desenvolvimento de todas as nove ilhas dos Açores.

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