Retalhos da nossa história – XCVI
No Centenário da República Portuguesa (26)
Nomeado governador civil em Agosto, o Dr. Gualberto Melo tomou posse no dia 6 de Setembro, logo após desembarcar do vapor Lima que o transportara de Lisboa até à capital do distrito de que, durante quase dois anos, seria o responsável máximo.
Naturalmente a imprensa local assinalou o acontecimento, com realce para O Fayalense assumido órgão dos democráticos e opositor declarado dos regionalistas e de O Telégrafo, seu porta-voz. Relata aquele jornal que o chefe do distrito foi empossado pelo governador civil substituto José Inácio Garcia de Lemos, professor da Escola Primária Superior, e que de seguida discursara “o nosso ilustre senador sr. dr. Machado de Serpa, que cumprimentou S. Ex.ª oferecendo-lhe a sua franca e leal cooperação e afirmando-se mais uma vez inteiramente solidário com as comissões políticas do PRP a que tem a honra de pertencer”. Em nome dessas comissões falaria depois o presidente da Federação Municipal e ex-governador civil Carlos Alberto da Silva Pinheiro que “ofereceu ao ilustre magistrado o apoio sincero e decidido de todos os correligionários”. Outro ex-chefe do distrito, Manuel da Câmara Velho de Melo Cabral, “ilustre escritor e publicista”, também cumprimentou o novo governador civil “em quem muito confia, atentas as brilhantes qualidades que o exornam”. Falou, por fim, “o ilustre chefe do distrito, que num bem burilado e patriótico discurso, palpitante de entusiasmo e fé nos destinos da Pátria e da República Portuguesa, saudou os povos deste distrito e agradeceu as manifestações de que era alvo”. Nessa dissertação, acrescenta o jornal, “que foi bem um hino à República”, o governador Gualberto Melo “preconizou a união de todos os portugueses, atendendo a que a hora que passa não é de retaliações mas de aproximações”. Seguiu-se a leitura do auto de posse que foi assinado por grande número de pessoas que assistiram ao acto, recebendo o empossado, “nessa ocasião, vários telegramas de felicitações”[1].
Todavia, as aproximações desejadas pelo jovem governador não passavam de uma miragem, pois era enorme o fosso entre as duas facções em luta, continuando permanentes e até mais acesas as retaliações de uma e outra parte. Aliás, é o próprio O Fayalense que, passado um mês e pouco sobre aquele patriótico acto de posse, denunciava assim a situação no distrito da Horta: “A verdade é que temos cá pelas ilhas, embora mais atenuadas, as mesmas misérias políticas que vão pelo continente. A mesma divisão de ideias, as mesmas rivalidades partidárias, o mesmo caciquismo eleiçoeiro, um formidável desinteresse das maiorias pelas coisas públicas, o mesmo pessoalismo sobrepondo-se ao interesse colectivo”[2].
E foi isso que voltou a acontecer quando, em Novembro de 1925, se realizaram as eleições para a Câmara dos Deputados, com os partidários regionalistas do Dr. Neves a acusarem os democráticos do PRP, que candidatavam o dr. Manuel José da Silva, da prática de várias falcatruas, sendo uma delas a viciação dos cadernos eleitorais. Sob esses pretextos, os regionalistas desistiram do acto eleitoral, apelaram à abstenção dos seus simpatizantes e acusaram o governador Joaquim Gualberto da Cunha e Melo de conivência com as manobras dos democráticos e de apoiar a fraude eleitoral. Verdade ou não, o certo é que Manuel José da Silva foi eleito deputado por desistência dos opositores; o político e médico Dr. Manuel Francisco Neves Jr. acabou por ser (ou considerar-se) vítima de outro político e médico, ou seja, do Dr. Gualberto Melo.
Este, porém, continuaria à frente do governo do distrito, apesar de, em Lisboa, se sucederem os Ministérios.
Nomeado pelo de Rodrigues Gaspar, (6.7.1924), manteve-se nos de José Domingos dos Santos (22.11.1924), de Vitorino Guimarães (15.2.1925), de António Maria da Silva (1.7.1925), de Domingos Pereira (1.8.1925) e de António Maria da Silva (17.12.1925).
Triunfando a Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926, o governador Gualberto Melo não esperou que o demitissem. Ele próprio pediu a exoneração no dia 1 de Junho, tendo a acompanhá-lo nessa atitude o substituto professor José Inácio Garcia de Lemos[3].
Sucedeu-lhe no cargo o médico Dr. Alberto Goulart de Medeiros que tomou posse a 18 de Julho de 1926.
Entretanto, foi também professor de francês no Liceu da Horta e, como médico, exerceu as funções de facultativo municipal e de subdelegado de saúde.
Por ocasião do terramoto de 31 de Agosto de 1926, temos notícia de que o Dr. Gualberto Melo, mais os seus colegas Drs. Neves, Goulart Medeiros, Campos Medeiros e José Estêvão Azevedo, receberam e cuidaram no Hospital da Misericórdia da Horta cerca de duas centenas de pessoas feridas na catástrofe, que também provocou nove mortos[4].
Não tendo abdicado de convicções e de princípios, o Dr. Gualberto Melo seria vítima do cargo político que havia exercido e das atitudes que oficialmente havia tomado. Foi preso a 2 de Junho de 1927 e deportado para a Terceira, numa manobra de vingança, de despotismo e de prepotência dos seus opositores quando fora governador e por não pactuar com escândalos e injustiças que, já
O Dr. Joaquim Gualberto da Cunha Melo, nascido em Coimbra a 24.5.1892, e Laura de Bettencourt Severim, nascida na Horta a 8 de Julho de 1909, casaram na Matriz da Horta a 19 de Dezembro de 1927, sendo testemunhas o comendador Eduardo Laemert Bulcão e sua esposa Maria Bettencourt Bulcão, tios da noiva, e o farmacêutico e ex-governador Carlos Alberto da Silva Pinheiro e Laura Bettencourt Myott, tia da noiva.
Tiveram três filhos: Mário Gualberto Severim da Cunha Melo, nascido no Faial a 23.9.1929; Maria Eduarda Severim da Cunha Melo, nascida em Lisboa em 8.3.1933 e Margarida Maria Bettencourt Severim de Melo, também nascida em Lisboa a 10.6.1941.[5]
[1] “O Fayalense”, 7 Setembro 1924, p.3
[2] Idem, 2 Novembro 1924, p. 1
[3] “A Democracia”, 1 Junho 1926, p. 2
[4] Idem, 8 Setembro 1926, p.1
[5][5] L.º Casamentos RCH de 1927, fls. 118 e 118-v e também “Genealogias das Quatro Ilhas”, vol. 3, pp. 1966-1967











