A caldeirada é um prato típico da nossa terra e como tal sempre tem aparecido à mesa do português. De vez em quando, porque o que é demais, enjoa. Desejando-a muito requintada, era hábito rumar a Peniche, Nazaré, Setúbal, por aí… comer e chorar por mais.
Actualmente a caldeirada é outra. Virou moda e todo o mundo começou a ter caldeirada à hora que bem lhe aprouver. Não há distinção de classes. Só necessário se torna clicar um botãozinho e lá surge ela. Sempre com novos ingredientes. Podemo-nos orgulhar de dispor de caldeirada ao pequeno almoço, almoço, jantar, intervalos, para não falar pela noite dentro. Penso mesmo ser caso para afirmar que estamos mergulhados sempre numa caldeirada.
Nos tempos que já lá vão, a caldeirada tinha muito de caseira, feita com ingredientes simples, bons, nossos. Caldeirada era caldeirada e pronto. Em qualquer restaurante da vida sabia-se ser confecionada com os melhores peixes, bons temperos, o mesmo sabor. Posíivelmente variava um pouco lá de longe em longe, mas não se notava, tal a subtileza usada então. E não incomodava ninguém.
Hoje, mercê da evolução dos tempos, ela modificou-se. Modernizou-se. Intelectualizou-se. Criou estatutos. Hoje é assim. Amanhã é assado. Agora tem cherne. Logo terá tubarão. Hoje congro. Amanhã cação. Num dia dourada. Noutro tentáculos de polvo. Enfim! Mudam-se os peixes consoante o gosto do cozinheiro. O molho foi-se. Aquele molho grosso, apuradinho , um primor, dando vontade de molhar o pão nele, o que seria feio, confesso, desapareceu. Alguém o sugou antes da caldeirada chegar à nossa mesa. Foi desviado. Sumiu. Foi-se . Todinho. Alguém o levou, quem sabe chupado por um canudinho, tal como o tutano dos nossos ossos. A cor dele também já tinha andado. Branquiada.
A caldeirada moderna é confecionada por cozinheiros portugueses e seus assessores. Que são muitos. Todos no activo. Já ouviu falar de algum desses indivíduos desempregado? Ah ! Pois não ! Até podem reformar-se , logo substituídos por amigalhaços , melhor refogadores de ingredientes das caldeiradas, num azeite de idiossincrasias envenenadas. Entretanto, os reformados arranjam novas panelas e inventam novos guisados. Sempre pensando em nós!
Resumindo e concluindo: hoje mau, amanhã pior. E porquê? Porque nós entalámos um dia a mãozinha onde não devíamos e de lá saíu um cozinheiro mais ganancioso, mais idiota, ( com mais ideias) pronto a dar-nos a caldeirada com mais piri-piri. Não há fígado que resista!
E falando de cozinheiros digo-vos que os cozinheiros portugueses são todos especializados. Cursos a lume brando ou à pressão, diplomas vindos de qualquer esquina de rua, em qualquer dia da semana ou fora dela. São cozinheiros. E pronto. Cada qual cozinha a sua caldeirada.
No entanto, os cozinheiros portugueses, não dando conta do recado, recorreram a outros países e daí, surgiram, aperaltados, prontos a fazer caldeirada, outros que tais, com a diferença que vieram carrancudos, apressados, mau aspecto e a caldeirada deles muito amarga. Mal nos cai no prato, logo o nosso aparelho digestivo e sistema nervoso reclamam.
Não estou a questionar caldeiradas, mas o que é certo é que eles começaram a temperar com ervas finas e acabaram temperando com limão siciliano para amargar o parceiro. Há que deixar a frigideira do cerebelo em lume brando, pronta a receber o tempero fresco das ideias, até que surja nova receita. Entretanto, dentro de nós um tropel de aranhas tecendo um enorme campo de concentração. Uma mescla|
Mescla mesmo foi a história do cozinheiro chefe contratado e que não chegou a confecionar o seu prato para nós, porque gostava de ficar pelos hotéis deambulando, feito idiota, olhando o ambiente, admirando a lida das funcionárias e … zumba! Foi-se! Recambiaram-no ! E foi pena! Quem sabe o fulaninho era bom cozinheiro nas horas vagas de descanso!
Bom, lá continuamos degustando as caldeiradas que nos oferecem, salpicando-as com um pouco de açúcar de apreço para disfarçar as gotas de maldade que lá estão. Ou, se achar melhor, frente a ela, lance meia dúzia de palavras alucinatórias ou umas gotas de vinagrete. Ajuda muito. Olhe-a com olhos de inteligência. Pense que a de hoje será sempre melhor que a de amanhã. E porquê? Porque o cozinheiro d´hoje tem a barriga mais cheia que o outro que virá atrás. E vinga-se. São uma raça danada. Nunca se sabe o ponto de ebulição dum fulano com aquela profissão. Quer dizer, um fazedor de caldeiradas. E eles tem muitos amigos, camaradas, compadres e ideias, ideias e ideias.
Por favor, não queira em situação alguma remexer na sua caldeirada. Sirva-se com delicadeza, com cerimónia, com carinho. Evite remexer no meio dela, porque é aí que reside o segredo. O meio é para atingir os fins. Cuidado, não os seus fins! Os deles!
Coma tranquilo. Não reclamações. Não escândalo. Cuidado com as espinhas. É que os peixes d´hoje tem mais espinhas, a pimenta é mais forte e a paprika perdeu a cor. Branqueou. Resigne-se. Cada qual tem a caldeirada que merece. E assim sendo, cuidado, não se meta nela, nem tente descobrir os ingredientes. São fruto de muito estudo, muito quebra cabeças, queda de cabelo, olheiras, o escambau. Confie no cozinheiro. Respeite-o. Ele é muito ocupado. Uma vida desgastante. O estudo das caldeiradas. As reuniões. As noitadas. Os biliões. O molho… Imagine!
Seja civilizado. Ser civilizado é auto-controlar-se. Entenda a boa vontade de quem o serve. Enquanto você dorme, acorda ,passeia e se diverte, eles trabalham como escravos! Afinal você é um sortudo!











