Acompanhei pela TV com todo o respeito, admiração e carinho a visita do Papa Francisco, ao Rio de Janeiro. Que grandes lições ele deixou ao Mundo! Mas não foram só as suas palavras, o seu sorriso franco e enternecedor que proporcionaram paz, tranquilidade, ensinando humildade e deixando pelo caminho uma dose infinita de bem estar. Foram as suas mãos. Abençoando. Acarinhando crianças. Aconchegando- as a si. As suas mãos estendidas aos velhinhos, à multidão anónima. As suas mãos levantadas ao Céu, abençoando milhões de pessoas. As suas mãos que no final da última missa em Copacabana se ergueram ao alto, enquanto deixou o recado : ( O Papa e a Igreja contam com vocês.) Isto é o máximo!
Oxalá que aqueles três milhões de pessoas, ali reunidas, tenham ouvido, ouvindo, pensando, compreendendo e armazenando para sempre, frases, gestos, carinhos, assimilando lições não faladas que aquelas mãos deram. Ele partiu, deixando um tesouro como herança. Não será fácil esquecer.
Queira Deus que na memória daquela multidão, os seus ensinamentos germinem e brotem à superfície, fiquem adultos e entrem posteriormente noutros corações, pondo outras mentes a funcionar.
A nossa memória parece uma desarrumação. Mas é lá que se encontram as luzes da nossa vida. Se não conseguimos esquecer momentos maus, pormenores irrelevantes, devíamo-nos esforçar por nos lembrar do que importa, do que é útil, do que tem interesse. E bastas vezes, fica retida só a poeira do momento. E como seria ótimo armazenar palavras, frases, pensamentos, gestos, para um dia em que nos fizessem falta!
E fico pensando quão óptimo seria parar para pensar no valor das nossas mãos. Desde o primeiro minuto. Foram aquelas mãos que nos ajudaram a vir ao mundo. Foram as mãos dos nossos pais que carinhosamente nos pegaram. Foram mãos que nos batizaram, tornando-nos filhos de Deus. Que nos deram a comunhão primeira. E as outras. Que nos casaram. Que nos abençoaram. Que ajudaram a perdoar pecados. Que na hora da morte pousam sobre nós.
Com as mãos trabalhamos. Acarinhamos. Auxiliamos. Com um simples gesto de mãos, quanta ternura e amor podem ser demonstrados. Em situações de dor, de infelicidade, de doença, quão grande é o poder que uma mão acarinhando, pode transmitir! E quanta coragem pode incutir numa criança, num velhinho num doente! Um afago no rosto, acompanhado de meia dúzia de palavras e o milagre realizado.
E, muitas vezes, aquilo que é realizado, não é mais a força do poder, mas sim do querer estar em sintonia com o que “aquela mão” esperava de nós.
Mãos… mãos trabalhando. Em trabalhos árduos. De sol a sol. Calejadas, doridas, sangrando. Com o trabalho e o frio. Mãos ainda com força para agarrar e acarinhar os filhos. Mãos de amigos, que nos trazem consolo. Mãos de pais sempre abertas, prontos a tudo dar. Mãos de desconhecidos que se unem às nossas, em igrejas distantes e que sempre tem o condão de nos trazer lágrimas aos olhos. Mãos de crianças afagando, suaves, sinceras. Mãos de velhinhos, enrugadas, dando lições de vida, pedindo compreensão e ternura.
Mãos… dando… pedindo… Dando bens materiais. Apoio moral com um simples gesto, que vale um mundo.
A sociedade ideal só pode ser compreendida como a suma liberdade aliada à ausência de malquerenças. E, para isso, se torna necessário estender as mãos. Estender as mãos, mesmo por coação, assim se educa a criança, a crer que o dever é prazer e o prazer é dever.
E só um louco, não conseguirá estudar os olhares, os esgares, os sorrisos, os gestos da mão que se estende ou se recusa.
A sinceridade é gratuita. Dar as mãos é gesto de sinceridade. As pessoas ficam amarrotadas quando sofrem. Uma mão estendida atenua. Diria que nossas mãos, são capazes de actos reflexos. Ainda não raciocinámos e surpreendemo-nos a acarinhar, a dar a nossa melhor camisola ao pobre que bateu à porta, a apertar vigorosamente a mão do amigo, há muito ausente. Foram actos reflexos .
Mãos erguidas ao Alto. Agradecendo. Suplicando. Fazendo promessas a Deus. Permitir-me-ia aqui abrir um parênteses , para dizer que não sou apologista de fazer promessas. Sempre achei uma espécie de chantagem para com Deus. “ dá-me isto, que eu dou-te aquilo”.
Que nos sacrifiquemos, sim, mas não pedindo um retorno. Esta uma ideia de sempre; outra, que aprendi com a vida. Nunca pedir a Deus isto e aquilo. Pedir, sim, o que Ele achar melhor para nós. Porque, esse melhor, embora muitas vezes pareça o pior, é de certo o que nós merecemos, o que está justo, o que nos convém. É Ele a dar-nos a Sua mão. E tantas vezes não compreendemos, porque queríamos a outra mão, a que nos dava jeito, a mais cómoda.
Pena que haja mãos que matam. Que destroem. Que aniquilam. Que vão ferir sentimentos. Que ofendem crianças. Mãos violentas. Que nasceram como outras. Foram pequeninas. Rechonchudas. Amadas. De certo Hitler e Rasputine tiveram mãos queridas como qualquer bébé.
Mãos … promessas súbitas de mãos dadas… adeuses de parentes e amigos, sobre mãos entrelaçadas no peito… mãos… brincadeiras de crianças inocentes… Flanar paripatético de adolescentes carícias …mãos … erguendo ao ar novo ser… descendo ao túmulo corpo de pessoa amada… mãos… abençoando a vida… esperando a morte.
Leitor, perdão porque me repeti, mas apeteceu-me. Apeteceu-me muito. Para si este o meu presente possível´.











