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A dimensão cultural da paisagem

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A dimensão cultural da paisagem diz respeito a todos os aspetos que expressam a relação do homem com o seu meio. Desta dimensão fazem parte as diversas ocupações do solo e as suas marcas no território, como a construção de muros, a plantação de sebes e a edificação de estruturas de apoio à agricultura: eiras, cisternas e toldas, por exemplo. Forma-se assim um conjunto de áreas, linhas e pontos de uma paisagem cultural que se evidencia na matriz marcadamente silvo-pastoril, onde imperam as pastagens e as matas de criptoméria.
A paisagem cultural da atualidade é a expressão dos usos do solo presentes mas também comporta a memória de algumas fases anteriores. Algumas ficaram de modo mais marcado expressas na paisagem, como o caso do ciclo da vinha ou da laranja, mas todas elas contribuíram para a construção de tipologias de paisagem diferenciadas que se foram desenrolando ao longo dos séculos. Se no século XV e XVI as culturas com maior expressão eram o trigo e o pastel, nessa altura a paisagem tenderia a ser mais aberta, largamente entrecortada pelos muros e sebes. Os terrenos mais baixos, com microclima mais favorável e em redor dos aglomerados urbanos eram ocupados pelas culturas anuais e pomares.
Na época da laranja, nos séculos XVIII e XIX, os horizontes agrícolas tiveram tendência a ficar mais estreitos, já que esta cultura requeria um reticulado de abrigos de sebes vivas para proteção dos ventos que compartimentavam mais o espaço, cortando-o quase a régua e esquadro. A estreiteza das parcelas dos pomares era compensada pela presença de miradouros mais altos nas quintas da laranja que permitiam vigiar a aproximação dos barcos comerciais. Foi nesta altura introduzida uma espécie para a formação dos abrigos de laranja que tem hoje um enorme impacto na paisagem por se ter tornado uma espécie invasora, o incenso (Pittosporum undulatum). No fim do século XIX e início do século XX, com o abandono da produção da laranja e o início da produção agro-pecuária em larga escala, a paisagem foi novamente alvo de uma transformação, tornou-se uma vez mais aberta, sendo possível abarcar uma grande área com um só olhar. Foi nesta altura que as pastagens passaram a ocupar vastos espaços, esparsamente delimitados por sebes vivas ou muros, que definem os limites das diversas propriedades e permitem o abrigo dos ventos.
Persistiram, no entanto, na paisagem, muitas eiras, toldas e cisternas, algumas ainda hoje cumprido uma função residual no que diz respeito ao apoio à agricultura das populações, mas que se revelam como elementos de valor patrimonial a nível local que importa preservar. Aliar a recuperação deste valioso património à descoberta da paisagem agrícola das nossas ilhas por meio de trilhos é uma mais-valia tanto para as populações como para os visitantes. Esta é uma sugestão para enriquecer o já de si importante património de antigos caminhos que tem sido recuperado na ilha do Faial, com particular destaque para a freguesia da Ribeirinha.
Existem usos do solo peculiares, como as reminiscências de culturas cerealíferas que foram encontradas na freguesia dos Cedros quando dos levantamentos de campo para o seu Plano de Pormenor em 2002, no Faial, ou a cultura do café que ainda hoje existe na Fajã dos Vimes em São Jorge. Destaca-se ainda a cultura do chá em São Miguel, considerada a única produção de chá ativa na União Europeia. Estes usos do solo particulares são elementos da paisagem cultural, mas também modos de vida e de subsistência das populações, ou mesmo atividades económicas importantes. Pela sua raridade, são também considerados importantes recursos no que diz respeito ao recreio e turismo. Assim se constata que a paisagem cultural é, também ela, uma entidade viva e dinâmica que vale a pena valorizar.

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