Muros e sebes

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Os muros e as sebes, por serem obras de construção ou plantação humana, são componentes da dimensão cultural da paisagem. São elementos lineares da paisagem açoriana que se encontram desde a linha de costa até às zonas de maior altitude das ilhas e a sua presença marca o território, delimitando propriedades, compartimentando-o e conferindo-lhe diversidade.
Os muros em alvenaria de pedra seca de basalto são uma das características identitárias da paisagem dos Açores: surgem em todas as ilhas e dão forma a parcelas cuja extensão depende do regime de propriedade dos solos. As suas particularidades relacionam-se com a disponibilidade de material e com o declive do terreno, nos casos em que o declive é acentuado constroem-se muros em socalcos. Os muros podem surgir também pela necessidade de limpeza de terrenos e arrumação da pedra, como se verifica nas zonas de vinha. Aqueles que conformam o abrigo das cepas de vinha têm também uma função adicional de proteção das plantas das condições adversas ao seu crescimento, nomeadamente dos ventos salinos. Alguns muros em socalcos têm particular interesse estético pela monumentalidade do conjunto da sua construção, como é o caso da paisagem da vinha das baías de São Lourenço e da Maia, em Santa Maria. Quando são constituídos por pedras de diversas proveniências os muros podem ser vistos também como uma espécie de biblioteca geológica da ilha, uma vez que através da observação atenta dos seus elementos constituintes se pode conhecer algo mais dos processos geológicos que estiveram na sua origem.
Situa-se no início do povoamento a necessidade que os primeiros povoadores sentiram de plantar sebes ou, como se chamam localmente, bardos. Isto porque as sebes desempenham funções de proteção contra as condições adversas de vento e de salinidade e contribuem para a regulação das condições edafo-climáticas dos terrenos agrícolas. São também valorizadas pela sombra que conferem às parcelas de pastagem. Atualmente as sebes mais usadas junto à costa são constituídas por salgueiros (Tamarix africana), por canas (Arundo donax) e pela faia-do-norte ou da Holanda (Pittosporum tobira) uma espécie do género Pittosporum sp. que ao contrário do incenso (Pittosporum undulatum) não revela carácter invasor. Refira-se a título de curiosidade que o salgueiro, uma das mais resistentes espécies que se podem plantar à beira-mar nas nossas ilhas, é também usado pelas suas características de resistência a condições adversas em outras partes do mundo: é parte constituinte da linha de defesa do avanço das areias do Sahara face à presença de terrenos agrícolas, em África.
A vegetação endémica tem um papel amplamente reconhecido na formação de sebes, estas com um valor acrescentado por contribuírem para a preservação do património natural. A faia (Morella faya) e a urze (Erica azorica) são) utilizadas para a formação de sebes, sendo que a primeira foi muito usada no século XIX como sebe de abrigo para a laranja e ainda o é em algumas ilhas como São Miguel e Pico. A urze é encontrada na maior parte das ilhas formando sebes ao longo dos caminhos agrícolas ou então a dividir pastagens. Em zonas de maior altitude surgem também sebes com azevinho (Ilex azorica). As sebes mistas de vegetação endémica são um importante elemento da paisagem de média altitude que quando atingem um porte adequado contribuem para o correto funcionamento dos ecossistemas e servem como repositório da vegetação natural.