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A exatidão das palavras

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Ainda não sei o que me vai sair. Quando chegar ao fim da página logo vejo como enganei o branco imenso do começo.
Começo por me concentrar na concentração. É um exercício do foro do pleonasmo, às vezes da repetição, da pausa, da mudança de posição na cadeira, de intervalos que não tinham de acontecer, da procura de outros ângulos fora da secretária, como se tentasse apanhar rede para as ideias ainda misturadas. O corpo irrequieto obedecendo à mente prolixa. Também vos acontece? Ter “aquilo” para fazer e até fazer desviar-se produtivamente do caminho, fazendo outras coisas mais pequenas, menos urgentes, ganhando tempo para a tarefa. Numa palavra: engonhar. É humano e é preciso dizê-lo.
Mas pensando bem, será por isso que hoje em dia são raras e a más horas as respostas a qualquer e-mail que se envie, ainda por cima solicitado? Será por isso que hoje em dia as pessoas trabalham tanto mais do que trabalhavam? Será por isso que são tão, mas tão ocupadas, que quando pressionadas se agarram ao tempo que nunca têm?
Ainda se as respostas tivessem de ser por carta, escrever, dobrar, colocar dentro do envelope, ir aos Correios, comprar o selo e finalmente introduzir o sobrescrito na ranhura, isso sim seria uma trabalheira imunda. Mas um e-mail, que foi solicitado e promovido em todo o lado, como um anúncio de emprego? Será que imprimem e fazem como dizíamos que faziam os maus professores a corrigir os “pontos”? Atirar ao ar e classificar “ao Deus dará”.
Por isso é que eu sou pela exatidão das palavras, no tempo e no significado. Um não é um não. Obrigado é obrigado. Obrigada, mas não. Fui tão rápida a escrever as últimas três palavras que o cronómetro se baralhou. Custa alguma coisa, além deste tempo que não existiu, dar feedback? Ups, um Inglesismo, como os milhares de outros que povoam a língua Portuguesa. É mesmo preciso, por tudo e por nada?
Repito: por isso é que eu sou pela exatidão das palavras., manter-me fiel ao significado. Ser um pulso, uma pele, transpor para o papel, para o éter digital exatamente o que se sente. Mais desafiante ainda: que a exatidão das minhas palavras seja exatamente entendida. E aqui é que é o “diabo”. E aqui entram os bordões de linguagem como o “Percebes? Entendes? Estás a ver?” – esses separadores verbais que me tiram do sério. Uma espécie de conversa paralela, onde das duas uma: ou quem fala não tem a certeza do que diz ou se se expressa bem, ou parte do princípio que o alcance das suas palavras é tal, que o interlocutor não “apanha a cena”. É uma cena lamentável.
Estes bordões de linguagem (e junte-se-lhe o “oiça”) são na verdade um tempo mal empregue para uma conversa entrecortada, onde quem ouve desliga, abana a cabeça e põe o sorriso vinte e três, tentando não descarrilar da boa educação.
É uma cena lamentável e, como disse atrás, tira-me do sério. Não há que dizer mal das pessoas, da vida nem do mundo, mas pode-se sempre dizer o que se sente depois de apanhar uma seca de “entendes” e “oiça”, de voz eriçada quando o bordão atua, como se nessa só palavra estivesse tudo o que temos de saber e que o bordão não alcança. Há que ser exato. Entendem? Ou vai de bordão?

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