A igreja e o convento de Nossa Senhora do Carmo

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A igreja do Carmo, pela sua grandeza e localização desempenha papel marcante no perfil da cidade da Horta, fortemente potenciado com o monumental e elegante conjunto do antigo Colégio dos Jesuítas e com a beleza da Igreja de S. Francisco.
Tanto a igreja, como o convento do Carmo, tiveram origem modesta, já que nasceram de uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Boa Nova e de um pequeno albergue que acolhia os religiosos carmelitas que buscavam apoio na ilha do Faial na ida ou no regresso do Brasil por serem frequentemente atacados por corsários ou debilitados pelas intempéries marítimas.
Foi junto àquela ermida, mandada erguer pelo capitão-mor Francisco Gil da Silveira e sua mulher D. Helena Boim que esta, já viúva e de acordo com os superiores carmelitas, requereu a D. João IV licença para construir um convento, a qual lhe foi concedida por alvará de 1649. Concluído o mosteiro alguns anos depois, os frades diligenciaram para que fosse edificado um templo amplo e condicente com a grande devoção à Senhora do Carmo que, entretanto, ia alastrando pelas ilhas e a que a modesta ermida não dava adequada resposta.
Aos bens legados pela instituidora outros se foram juntando, até que, em 1698, se começou a levantar o majestoso templo cuja fachada ainda hoje admiramos e que ficou completo em 1751, menos o frontispício só concluído em 1797.
Este amplo espaço religioso tem, de acordo com a descrição do padre Júlio da Rosa 1, 18 metros de largura na frontaria, onde acomoda três portas e duas janelas no mesmo plano, sobrepostas de dois andares de janelas elegantes. Tem de altura 19,92 m até a cimalha superior, sobre a qual se eleva o airoso frontão e as grimpas das torres. Para chegar do rés-do-chão até ao cimo deste frontão sobem-se 130 degraus.
A igreja interior tem de comprimento 49,55m, de largo 8,65m e de altura 12,92m até a cimalha.
A capela-mor, com aproximada largura do templo, tem 11 metros de fundo.
De cada lado ficam três capelas, correndo sobre elas uma ordem de tribunas. O coro, em toda a largura do templo, é vastíssimo e assenta sobre um arco abatido de pedra, obra-prima da arquitectura, pois no vão de 8,85m tem apenas a curvatura de 0,22m.
Contígua à igreja fica, do lado norte, a Capela dos Terceiros que tem 15,95m de comprimento, por 5,9m de largura e 7,48 de altura até à cimalha, tendo por cima espaçoso consistório para as sessões da Ordem Terceira.
Este magnífico monumento neoclássico – que é peça indispensável à moldura da cidade da Horta – escapou da sanha destruidora provocada pela legislação de 1834 que extinguiu as congregações religiosas em Portugal, sendo os seus bens confiscados e muitos deles vendidos, alienados ou, pura e simplesmente, roubados.
Também à cidade da Horta chegou ordem – é Silveira Macedo que, contemporâneo desses factos, o relata na sua História das Quatro Ilhas – “para se demolirem as igrejas e os conventos suprimidos que não fossem necessários e que se vendessem os materiais”.
A igreja do Carmo escapou, quase milagrosamente “à acção destruidora do camartelo de que estava ameaçada” 2 devido ao empenho do deputado e conselheiro António José de Ávila (futuro Duque de Ávila e de Bolama) que, junto do poder régio, obteve a sua cedência à ordem terceira carmelita para as próprias festividades por portaria de 7 de Junho de 1836. Passou, portanto, a bela igreja para a tutela da Ordem Terceira do Carmo, ficando o edifício do convento na posse do Estado que o utilizou como aquartelamento militar.
Presentemente, restam na cidade da Horta três edifícios religiosos de inegável qualidade artística, estando dois deles de portas fechadas e, naturalmente, em acentuado processo de degradação. Aludimos, obviamente, à igreja de São Francisco – que a Santa Casa da Misericórdia da Horta, sua proprietária, cedeu a título precário ao Governo Regional dos Açores em 4 de Julho de 1977 – e à igreja do Carmo.
Esta precisa de importantes intervenções que a consolidem e restaurem de modo que possa ser aberta ao culto e acolher com dignidade o valioso espólio do Museu de Arte Sacra da Horta, talvez a forma mais inteligente e adequada de permitir a sua conservação e manutenção.
E o certo é que essas intervenções – após longo abandono do imóvel durante o último quartel do século passado – de consolidação de estruturas, tratamento de alvenarias e cantarias, bem como da renovação de pavimentos e de coberturas foram iniciadas em 1999 pela Ordem Terceira mediante protocolo celebrado com o Governo Regional pouco tempo depois da devastação provocada pelo terramoto de 9 de Julho do ano anterior. Nesse documento, o executivo açoriano obrigava-se a suportar 75% dos encargos com as obras, ou seja, cerca de um milhão e 500 mil euros, enquanto os restantes 25% seriam financiados pela Ordem num investimento superior a 600 mil euros.
Os trabalhos, que seriam longos e profundos, foram interrompidos em 2001, apesar de neles se terem investido muitos milhares de euros. Ficou consolidada a estrutura e tratadas as alvenarias e cantarias. O edifício não ruiu, mas até à reparação do telhado em 2008 grandes foram os estragos que aumentaram a degradação do interior da igreja quase totalmente despojado de partes dos seus altares e de valioso património móvel, mobiliário, azulejos, estatuária e ourivesaria, algum dele irremediavelmente degradado ou perdido.
Ultimamente, por empenho dos seus responsáveis, foi recuperada a ampla Capela dos Terceiros, ali se celebrando a eucaristia dominical e as cerimónias litúrgicas relacionadas com as festividades de Nossa Senhora do Carmo.
Todavia, sendo aquele templo portador de inquestionável interesse histórico, arquitectónico e cultural, há que envolver, de forma decisiva, as autoridades regionais e autárquicas na sua completa recuperação, devolvendo-o à fruição da comunidade local e respondendo ao interesse dos muitos turistas que, subindo ao alto do Carmo, encontram fechadas as portas daquele majestoso imóvel.
Através de um qualquer instrumento legal e possível – v.g. cedência a título precário ou protocolo de utilização celebrado entre o Governo Regional e a Ordem Terceira do Carmo – dever-se-ia proceder urgentemente às obras de restauro e de salvaguarda que permitissem defender e preservar aquela igreja de futuras derrocadas e possibilitassem que, a par da pontual utilização litúrgica, nela fosse instalado, definitiva e condignamente o valioso Museu de Arte Sacra da Horta.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 Folheto editado pelo Museu da Horta em Julho de 1984
2 A. L. Silveira Macedo, “História das Quatro Ilhas …”, vol. II, pp. 145-147

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