TRAPALHADA OU “TRUMPALHADA”!?

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Escrevi um título jocoso, mas a matéria a tratar nada tem de engraçada, divertida ou sequer interessante.
Estes primeiros dias do mandato do presidente dos EUA, Trump, montados como se tratasse de um “reality show”, onde são assinadas as “ordens presidenciais” e exibidas pelo assinante perante a câmara de televisão, são de facto um pesadelo, onde o autoritarismo, o esmagamento de princípios constitucionais, o primarismo político, o reacionarismo ideológico e um populismo de muito mau gosto, andam de mãos dadas, gerando a convicção de que quem assim procede, não só não presta, como anda perto da insanidade.
Olhamos à distância, mas sentimo-nos próximos do drama. Naquelas cabeças que exercem hoje o poder nos EUA o Presidente tem poder absoluto para tudo, mesmo que se trate da legalização da tortura, da discriminação religiosa, do fecho de fronteiras, da liquidação do ténue sistema social americano de saúde, de protecionismos a negócios selecionados e várias outras matérias.
Dir-me-ão, especialmente, os apoiantes envergonhados, que “é preciso cuidado com o que se diz, pois, o homem foi eleito…”!
Dir-me-ão também, alguns oposicionistas ferozes, mas dogmáticos, que “não é preciso preocupares-te, pois, nos EUA, casa do capitalismo e sede do imperialismo, tudo é sempre igual…”!
Nem uns, nem outros têm qualquer razão. Os primeiros, esquecendo por exemplo que Hitler acedeu ao poder por eleição, não conseguem esconder o profundo reacionarismo que perfilham. Os segundos, ao misturarem tudo, esquecem que o nazismo só foi derrotado porque houve uma aliança que juntou países capitalistas de regime liberal, com a União Soviética.
Trump foi eleito, embora com minoria de votos diretos, mas isso, à luz da Constituição do seu País, não lhe dá nem o direto, nem o poder, de agir como um ditador.
Trump, presidente espalhafatoso e provocador, para além de querer demonstrar que faz o que disse que ia fazer, usa uma metodologia deliberadamente provocatória da legalidade, para desenhar e impor retrocessos civilizacionais em áreas fundamentais, como são os direitos humanos, a igualdade das raças, a liberdade religiosa e muitas outras.
Vivemos tempos tão difíceis que chegámos ao ponto de vermos, sentado na Casa Branca, um sujeito ferozmente reacionário, que despreza todos os valores que os Povos foram consagrando durante o Século XX.
Temos que ter a lucidez de tentar perceber porque é que chegámos, neste Século XXI, a esta situação perigosa onde está a ser desenvolvido um processo ideológico de recuo secular ao nível dos princípios, apoiado fortemente em todos os mecanismos resultantes do progresso tecnológico. Temos que nos perguntar, todos os que lutamos pelo progresso social, económico e cultural, onde é que falhámos na análise das situações e na ação transformadora.
Mas, para além disso, temos que lutar para reequilibrar a situação mundial, usando todas as alianças sociais e políticas que possam ser construídas, tal como foi feito no passado.
Saúdo vivamente todos os que, hoje, nos EUA, estão a lutar vigorosamente contra esta perigosíssima “trumpalhada”.
Horta, 31/1/2017

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