A minha pátria é onde o vento passa …

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A minha pátria é onde o vento passa,

A minha amada é onde os roseirais dão flor,

O meu desejo é o rasto que ficou das aves,

E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

 
A noite cresce tranquila e incessante como um desafio. Exila-se morosa pelas paredes da casa. Senta-se nela como uma orquestra muda detida na sua elegância. Vem escura, eu sei. Geme na solidão que agora cobre todo este edifício. Acendo algumas luzes pelos tetos. É bom que dê à noite também a minha dimensão humana. Por momentos ela enlouquece, julga-se erguida na sua solene mão negra.Tranquilizo-a: esta energia paga-se. É uma estampa apenas na realidade horizontal que és. Escrevo qualquer coisa com que a ignore, que atrapalhe o sono que sempre pesa mais assim. 
Iluminado. Procuro um copo de água, é bom que a alma se refresque antes de olhar-se com os olhos muito abertos. Ao pé de mim a cama já me espera. Tem uma sombra transparente sob a carpete, por dentro do miúdo ruído das janelas fustigadas pelo vento.
Lá fora há uma igreja em escombros. Deus é antigo ali, um difuso templo vencido e decadente mas ainda assim vertical e nítido como se escrevesse versos. Em ruínas tudo absorve, até as bocas ainda acordadas da minha rua. Para o cimo da sua cruz quebrada lanço as minhas amarras, na memória de um velho sino, a casa das aves. O destino dos sonhos na paisagem da cama. E deito-me. Remexo em meus silêncios, é um gesto mínimo esta coisa de nos percebermos de repente verdes, coisa afogada em suas memórias. A noite é um homem às pressas lá fora. Não sei no que pensa e também não me atrevo. Caminha curvado, silencioso e só. Risco sobre a mesa um papel onde se afogue toda a solidão. Penso: Não há outra maneira de estar aqui se não só. Carrego as palavras e tento dar-lhes um chão. 
Leio: “ele é mudo e os céus discretos”. Não o sabia. Concluo: um homem não perdoa de repente. Ver o mar é sempre um exercício vagaroso. Uma onda é uma insónia que não se comove, um luto que se torna vida inesperadamente perante a morte.
Um fantasma incendeia-se etéreo pelo quarto, dançando por sobre as paredes. Talvez procure as suas formas duras, um corpo que menos se dissipe. É fumo disperso, penso.Talvez a sensação confusa de estar fumando enquanto durmo. Mas falta a infantil claridade da chama do cigarro e aquela é um claro incêndio. Vejo-o suando na sua fria neblina. Que anjo será este que se contorce? Que asas o agitam tanto?
Não deduzo respostas. Sou uma pedra sonâmbula em minha cama, um inaudível diálogo. Um respirado desmaio. Ao longe e alto o espírito flui em seu próprio mármore, nítido e imaterial nos seus contornos corpóreos. Por isso não sei se ele é nu ou se se veste. Mas que é espírito é, porque o diviso como uma penumbra fantástica. Longe de mim, sossegando-me. Perto, quase me inquietando. Será medo isto? Mãos, que adormecesteis, minhas humanas mãos agora tão inúteis, trespassem-me este sono, acordem-me. Imperfeitas e mudas estas penitentes não se movem. E o fantasma na parede exulta-se agora e canta. Vivo. Mais que a flor do meu próprio sono.

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