A necessidade de proteger os dialetos açorianos

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Os diferentes dialetos das ilhas dos Açores integram o núcleo fundamental da identidade açoriana. A sua proteção, dignificação e divulgação é – no atual contexto de uniformização levada a cabo pelos novos meios de comunicação e pelo sistema educativo de massas associado à norma-padrão da língua portuguesa – uma prioridade e uma urgência.

A verdade é que, após mais de quarenta anos de autonomia, os diversos dialetos açorianos continuam a não gozar da proteção institucional que se impõe. Em norma, as variantes dialetais dos Açores continuam a ser estigmatizadas do ponto de vista social e institucional. Para muitos, as pronúncias e o léxico específico das diferentes ilhas açorianas não são mais que um português atrasado e mal falado.
Do ponto de vista meramente linguístico, todas as variantes dialetais da língua portuguesa possuem a mesma dignidade e correção, no entanto, do ponto de vista social e institucional, a realidade é bem diferente. Existe uma enorme pressão uniformizadora por parte da norma-padrão da língua portuguesa.
As televisões de âmbito nacional legendam, com frequência, as escassas reportagens que realizam nos Açores, em particular a variedade dialetal micaelense. Veja-se, no entanto, que o mesmo não acontece em relação a outras variantes dialetais do território continental do país.
Na RTP-Açores – rádio e televisão – a quase totalidade dos apresentadores e jornalistas expressam-se na modalidade padrão da língua portuguesa, em absoluto contraste com as variantes linguísticas utilizadas pelos seus espectadores e ouvintes. A verdade é que nenhum jornalista ou apresentador açoriano terá qualquer hipótese de progressão na sua carreira profissional se não abandonar, junto dos microfones e das câmaras de televisão, a forma de falar das suas comunidades insulares de origem.
No espaço institucional açoriano – mesmo no Parlamento dos Açores – predomina, de forma esmagadora, a utilização do modelo “ideal” de pronúncia da norma-padrão da língua portuguesa. No sistema educativo açoriano também prevalece o processo uniformizador de imposição da norma-padrão do português europeu.
A conjugação da implacável força uniformizadora de um sistema educativo em constante expansão, completamente hegemonizado pela norma-padrão, com a grande influência normalizadora dos órgãos de comunicação social e a permanência de um sentimento de inferioridade e de desprestígio – falso e injustificável, mas real – associado ao uso dos dialetos açorianos, está a enfraquecer a sua transmissão e uso comunitário.
Estão a perder-se as vozes, as palavras e as expressões seculares dos avós dos açorianos do nosso tempo. Trata-se de uma perda irreparável. Não são apenas pronúncias e palavras. É muito mais que isso. São as memórias vivas de uma cultura forjada na irmandade dos sons que refletem a extraordinária fraternidade caldeada, ao longo de quase seis séculos, na partilha da mesma terra cercada pelo mar.
Em algumas ilhas, uma parte importante da grande e secular especificidade lexical dos falares açorianos está perdida por desuso e olvido. Em geral, o seu uso conhece um claro retrocesso em todas as comunidades insulares açorianas.
Neste contexto, importa adotar, com urgência, medidas que contribuam para a proteção, dignificação, conhecimento e uso descomplexado dos diversos dialetos açorianos. Trata-se de apostar forte na manutenção e fomento de um dos mais importantes elementos da identidade cultural do Povo Açoriano: a especificidade e a riqueza histórico-cultural dos seus diversos dialetos.
É necessário fomentar o seu uso nos órgãos de comunicação social de âmbito local e regional. Os dialetos açorianos devem ser constantemente dignificados, valorizados e divulgados. O seu conhecimento e uso frequente deve ser amplamente generalizado nas nossas escolas, no nosso contexto institucional e em toda a latitude da administração pública regional.
Tenha-se em conta que as políticas de proteção dos dialetos regionais estão a ser implementadas, cada vez com maior intensidade, um pouco por toda a Europa. Veja-se, por exemplo, o caso da Andaluzia. O Estatuto de Autonomia da Comunidade Autónoma da Andaluzia prevê o reconhecimento e o uso da modalidade linguística andaluza, nos seguintes moldes: “Os meios audiovisuais públicos promoverão o reconhecimento e o uso da modalidade linguística andaluza, nas suas diferentes falas”.
Nos Açores, ao contrário do que sucede na generalidade dos territórios europeus dotados de autonomia política, não estão a ser implementadas políticas de defesa e promoção dos diferentes dialetos do nosso território. É urgente avançar nesta matéria.

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